Artigo | A violência policial que ‘não condiz’, mas sempre se repete

    Apesar do que dizem as notas da Secretaria da Segurança Pública paulista, o modus operandi da Polícia Militar de São Paulo é esse mesmo: aos pobres, a violência e a morte; aos ricos, a proteção de seus bens

    Mulher chinesa de 69 anos deitou-se no chão na tentativa de ficar com seu carrinho de feira após policial determinar a apreensão do pertence | Foto: Reprodução

    Um dos conteúdos que viralizaram no nosso Instagram foi a agressão de PMs aqui de São Paulo contra a vendedora de legumes e imigrante chinesa, Zho Xiao Wei, de 69 anos. O que ela fez?, perguntarão as almas sebosas que vivem de acusar quem é vítima. Bem, ela portava um elemento de alto risco para a sociedade: um carrinho de feira. 

    Um seguidor daquela rede simulou a conversa de um filho com seu pai PM. Depois de chegar em casa, o pai é inquirido sobre como foi seu dia. A resposta: “Apreendi um carrinho de feira.”

    Leia também: Vídeo: PM chuta carrinho de feira com idosa caída no chão durante abordagem em SP

    Para a surpresa de um total de zero pessoas, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) de São Paulo afirmou em nota que “a abordagem não condiz com os protocolos da instituição”. Mas, pela recorrência dos casos que já publicamos aqui na Ponte, parece que o modus operandi é esse mesmo. Aos pobres, a violência e a morte. Aos ricos, a proteção de seus bens. 

    Em abril deste ano, o ambulante e imigrante senegalês Ngange Mbaye, de 34 anos, foi morto por policiais durante uma abordagem no Brás. No ano passado, a Ponte denunciou a morte de Serigne Mourtalla Mbaye, 38 anos, durante uma ação policial no prédio em que morava. 

    Violência, na capital ou no interior

    Gabriel foi morto ao tentar defender a esposa grávida de 8 meses durante uma abordagem. PM do mesmo batalhão dos que mataram Gabriel deu soco e ameaçou adolescente negro no local em que ele trabalhava. Uma família foi agredida por PMs em Dracena, interior de São Paulo. Em Bauru, Lucas foi torturado por PMs na frente das filhas de 2 e 4 anos. Na mesma cidade, em 2024, policiais agrediram parentes de Guilherme, morto pela PM um dia antes, durante o velório do rapaz. Mara foi atingida em abordagem policial enquanto estava na frente de casa. O PM responsável teve a pena de 1 ano de prisão convertida no pagamento de indenização no valor de R$ 7.590,00.

    Na Favela do Moinho, em mais de uma vez, a PM de Tarcísio de Freitas mandou crianças e adultos para o hospital ao atingir o local com bombas de gás e bala de borracha. Crianças, inclusive, foram revistadas durante as operações no local. A mesma corporação reprimiu de forma violenta um protesto de famílias da Ocupação Queixadas que só pediam por uma interlocução do PSD e o prefeito de Cajamar para pedir moradia digna.

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    Ao contrário do que afirma a SSP, os protocolos da PM foram seguidos sim, pelos policiais que chutaram o carrinho de NaiNai, como Zho é conhecida na região onde trabalha. Afinal, a regra é o que vemos nas ruas, diariamente, na violência com que agem contra quem é mais vulnerável, mais invisível, menos importante. Ter uma lógica militar na segurança pública só reforça a ideia bélica do “nós e eles”, sendo eles, os imigrantes, os negros, as mulheres, os pobres, pessoas LGBTQIAP+. 

    A Ponte existe há 11 anos para visibilizar essas violações aos direitos humanos dessa gente. Nosso jornalismo serve a esse propósito em seguir contando as histórias que demonstram que a política de segurança pública no Brasil é uma política de morte.

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