Chavoso da USP: ‘Estado criminaliza baile funk na favela, mas nega espaço ao lazer e moradia digna’

    Em entrevista à Ponte, sociólogo Thiago Torres, conhecido como Chavoso da USP, diz que CPI dos Pancadões em São Paulo, para a qual foi convocado na última quinta (28/8), é iniciativa hipócrita de quem finge se importar com as periferias

    Thiago Torres, o Chavoso da USP, foi convocado para CPI dos Pancadões na última semana, na Câmara Municipal de São Paulo, por iniciativa do vereador Rubinho Nunes | Foto: Rede Câmara/Reprodução

    O sociólogo e comunicador Thiago Torres, conhecido como Chavoso da USP, diz que chegou a ser divina a coincidência da última quinta-feira (28/8): enquanto ele era questionado pelo vereador Rubinho Nunes (União Brasil) na Câmara de São Paulo sobre o crime organizado estar ou não instalado nas periferias, uma megaoperação contra alvos do Primeiro Comando da Capital (PCC) cumpria mandados de busca e apreensão não em uma favela, mas em luxuosos escritórios da Avenida Faria Lima.

    Em resposta que irritou o parlamentar — e viralizou nas redes sociais —, a ponto de Rubinho ter ameaçado dar voz de prisão a Thiago, ele disse que o crime estava em todo lugar, inclusive na Câmara.

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    “Eu até falei para os meus amigos: Deus é tão bom comigo que essa operação aconteceu exatamente hoje. Foi uma coisa impressionante, que escancarou como eles querem associar a periferia ao crime, às facções, ao narcotráfico, enquanto aquilo estava acontecendo no maior centro financeiro do país. Na minha fala, quando eu digo que o crime existe em todo lugar, inclusive naquela casa, eu poderia ter falado que existe em todo lugar, inclusive na Faria Lima. Mas eu fui mais provocativo. E não menti”, diz à Ponte.

    Convocação veio após crítica a vereador no Podpah

    Thiago esteve na Câmara para ser ouvido pela CPI dos Pancadões, uma comissão parlamentar de inquérito presidida por Rubinho Nunes que pretende “investigar possíveis omissões dos órgãos públicos municipais na fiscalização de perturbação do sossego” — uma nova investida de parlamentares de direita contra o funk, agora na figura dos pancadões, como são chamados os bailes improvisados com paredões de som em vias públicas de comunidades. O comunicador sequer organiza esse tipo de evento.

    “Eu mesmo fiquei sem entender quando eu recebi a convocação. Afinal, eu não sou produtor, não sou DJ, não sou MC. Sou apenas um frequentador de baile funk”, conta.

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    “Mas a gente sabe que o motivo para ele ter me convocado é porque, semanas antes, eu fui ao Podpah, que é o maior podcast do país, e critiquei a CPI e o próprio Rubinho Nunes. Falei que ele seria cassado”, diz Thiago, fazendo menção a uma decisão de maio da Justiça Eleitoral, ainda pendente de recursos, que cassou o mandato do vereador por ele ter divulgado, no ano passado, um laudo médico falso que atribuía o uso de cocaína ao então candidato à prefeitura de São Paulo Guilherme Boulos (PSOL).

    “Ele fez um vídeo reagindo a isso e disse que me convocaria, e de fato me convocou. Ele achou que, me levando à CPI, iria acabar comigo, lacrar em cima de mim, me humilhar fazendo cortes, o que ele até tentou e vem tentando fazer até agora, mas sem sucesso. Ele realmente se deu mal, e o tiro saiu pela culatra”, afirma o comunicador, que viu o seu número de seguidores nas redes sociais disparar — no Instagram, em que é agora mais seguido que Rubinho, passou de 435 mil para 835 mil em uma semana.

    ‘Juventude tem direito ao lazer que Estado não proporciona’

    Thiago afirma se solidarizar com os moradores de comunidades que se sentem prejudicados pelos bailes que acabam instalados à porta de suas casas. Ele pondera, no entanto, que iniciativas como a CPI, cujos responsáveis dizem ter a intenção de ajudar essas pessoas, se demonstram incoerentes na medida em que ignoram o que ele entende ser a causa real do problema: o desinteresse do Estado em garantir direito ao lazer e à moradia digna.

    “A gente precisa deixar claro para as pessoas que o baile acontecer na porta da casa delas é culpa do Estado, porque existe um impasse: de um lado, a gente tem pessoas que não gostam do baile, do som alto, que querem dormir; e, do outro lado, temos, principalmente, uma juventude que quer se divertir, que tem direito ao lazer, à cultura, mas que o Estado não proporciona o espaço adequado para isso. Existir favelas e moradias precárias é culpa do Estado, assim como a ausência de locais adequados para ser feito um baile funk”, argumenta.

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    “Enquanto existir favela, vai existir baile. Porque a favela é esse território que não está integrado à cidade. É um território sem domínio do Estado. E eu não falo em domínio repressivo, porque esse, sim, existe. Agora, não existe integração à sociedade. As pessoas ali não são consideradas cidadãs. O Estado Democrático de Direito não existe nesses territórios, o que existe é um Estado de Exceção Permanente. E dentro disso, todo tipo de coisa vai acontecer, porque não tem leis ali dentro, não tem direitos.”

    “Se você impõe um fim às favelas — e eu falo sobre o fim desse tipo de moradia precária, de bairros extremamente pobres, e não sobre o fim das pessoas —, você proporciona uma outra forma de organização social, de vida e de lazer para as pessoas. O Estado precisa proporcionar moradia digna para essas pessoas, ter mais projetos de habitação, de regularização fundiária. Acho que o direito à moradia é o mais importante de todos, sem pensar, claro, no direito à vida, que é o básico”, diz.

    Responsáveis pela CPI ignoram periferia quando assunto é violência policial

    Thiago diz que a incoerência da CPI é ainda evidenciada pelo fato de que os políticos que se manifestam contra os bailes, teoricamente em favor dos moradores prejudicados, não são solidários à periferia em outras pautas urgentes, como a da violência policial. “O trabalhador periférico que acorda às 5h da manhã pode tomar tiro da polícia que essas pessoas ficam caladas”, afirma, em alusão ao caso do marceneiro Guilherme Dias Santos Ferreira, de 26 anos, morto pela PM-SP em Parelheiros, na zona sul da capital paulista, quando saía do trabalho.

    Ele avalia também que a investida de políticos contra o funk, o que apareceu recentemente também no projeto de lei Anti-Oruam, sustenta a violência policial contra jovens em eventos nas periferias — o caso mais simbólico de São Paulo é do Massacre de Paraisópolis, em que nove jovens perderam a vida numa ação da Polícia Militar contra o baile funk da DZ7, na zona sul da capital.

    “Na visão dessas pessoas de direita, quem está no baile é drogado, bandido, vagabundo. Quando fazem esse discurso, eles legitimam os assassinatos. Muitos não se importam com essas mortes, realmente pensam que, se a pessoa estivesse em casa, não teria acontecido. Mas, sim, isso teria acontecido, porque a gente vê pessoas sendo mortas pela polícia mesmo dentro da própria casa, inclusive crianças.”

    Repressão a bailes e criminalização da cultura negra

    Thiago também considera que o movimento de repressão aos bailes não é um ato isolado, mas a expressão mais recente de um fenômeno que se repete desde o fim da escravidão no Brasil. “Isso é um processo histórico que tem a ver com a criminalização da população negra e periférica. Depois da falsa abolição, começou um processo de extinção dessa população tida, entre aspas, como liberta.”

    “O primeiro Código Penal da República trouxe a criminalização da capoeira e da chamada vadiagem, o que configurava não ter moradia fixa e não ter trabalho — é o que acontecia justamente com os negros libertos, que não tiveram reforma agrária, nem foram integrados ao mercado de trabalho, porque o Estado trouxe imigrantes da Europa”, contextualiza o sociólogo.

    “Essas leis serviram especificamente para perseguir a população negra, e junto com isso veio a criminalização do samba, porque os sambistas eram considerados vagabundos. Na mesma época, o candomblé foi criminalizado. E isso durou ao longo de todo o século XX. Ao final do século, quando surge o rap e o hip-hop, eles viraram os alvos. E assim foi: tudo o que a população negra e também os indígenas produziram foi sendo criminalizado. Mas, como eu disse: o intuito real é criminalizar a população, e não necessariamente essa cultura, porque se ela estiver sendo consumida ou mesmo produzida por brancos, pela classe média, ela não vai ser tratada da mesma forma.”

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