‘Triste e com medo’, diz viúva de marceneiro negro após PM que o matou ser solto

Justiça concede liberdade provisória a policial réu por homicídio de Guilherme Dias Santos Ferreira, de 26 anos, morto com três tiros no dia 5 de junho quando saía do trabalho em Parelheiros, na zona sul de São Paulo

Fabio Anderson Ferreira de Almeida é réu pela morte do marceneiro negro Guilherme Dias Santos Ferreira, de 26 anos | Foto: Reprodução

A Justiça de São Paulo concedeu liberdade provisória ao cabo da Polícia Militar Fábio Anderson Pereira de Almeida, réu pela morte do marceneiro negro Guilherme Dias Santos Ferreira, de 26 anos. O crime ocorreu em junho deste ano, em Parelheiros, zona sul da capital.

Fábio havia sido preso em 16 de agosto, após a decretação da prisão preventiva. Ele ficou detido no Presídio Militar Romão Gomes, mas teve o alvará de soltura expedido na quinta-feira (28/8). O habeas corpus que determinou a libertação foi concedido no dia anterior (27/8).

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Ao conceder a liberdade, o desembargador Marco de Lorenzi, da 14ª Câmara de Direito Criminal, reconheceu a gravidade do crime, mas destacou que o PM é réu primário, possui ocupação e, depois de ter sido liberado do flagrante, não descumpriu as condições impostas.

Para a família de Guilherme, a decisão trouxe de volta o medo. “Nos sentimos tristes e com medo, não só nós, família, mas também as testemunhas que estavam no dia do incidente, porque ele solto representa sim perigo para qualquer pessoa e principalmente para nós”, disse à Ponte Sthefanie dos Santos Ferreira Dias, 25, viúva do marceneiro.

Guilherme Ferreira, de 26 anos, foi morto pelo cabo da policial militar Fabio de Almeida | Foto: Arquivo pessoal
Guilherme Ferreira, de 26 anos, foi morto pelo cabo da policial militar Fabio de Almeida | Foto: Arquivo pessoal

Em entrevista anterior, quando a prisão ainda não havia sido decretada, Sthefanie relatou o receio que sentia ao encontrar o policial no 25º DP (Parelheiros), onde ele ainda trabalhava em função administrativa. Após o crime, o cabo havia sido afastado do serviço operacional, mas seguiu em atividades internas.

“O que ele fez com meu esposo, ele pode fazer a qualquer momento com outra pessoa. Ele tirou uma vida e está vivendo no mundo como se não tivesse feito nada”, afirmou. Sthefanie e Guilherme estavam juntos havia dois anos e planejavam uma viagem para celebrar a união. “Meu esposo está morto e ele vivendo a vida dele feliz”, lamentou.

Relembre o caso

O crime ocorreu em 5 de junho, na Estrada Ecoturística de Parelheiros, quando Guilherme saía do trabalho. Inicialmente, o PM alegou ter sido vítima de uma tentativa de roubo e disse ter reagido, matando um dos suspeitos. O 25º Distrito Policial instaurou inquérito para apurar o suposto roubo, e depois o caso também passou a ser investigado pelo Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

No início de agosto, com base em imagens de câmeras, os delegados Gabriel Tadeu Brienza Vieira e Kauê Danillo Granatta afirmaram que a tese de legítima defesa perdeu força. O vídeo mostra Fábio descendo da moto com dois indivíduos — um deles de capacete. Ambos, magros e de estatura média, fogem enquanto o PM atira. Um veste moletom azul; o outro, blusa escura e capacete branco.

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Em seguida, Fábio retorna ao local sem perseguir os suspeitos, e a via começa a encher-se de pessoas. Em outro momento, um homem com roupas diferentes dos supostos assaltantes — calça jeans clara, blusa escura estampada sobre camisa branca e mochila — aparece correndo na calçada oposta, pouco antes de Guilherme ser baleado.

Fábio disparou três vezes contra Guilherme, que estava de costas. Um dos tiros atingiu a cabeça do jovem. O promotor Everton Luiz Zanella destacou que as imagens mostraram que Guilherme corria no lado oposto da calçada, tentando pegar um ônibus, e não em direção ao policial. Ele denunciou o PM por homicídio qualificado por motivo torpe e mediante recurso que dificultou a defesa da vítima.

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O vídeo também mostra que o policial saiu do ponto em que estava para matar Guilherme, fato ressaltado pelo promotor na denúncia. Para o Ministério Público, Fábio agiu por vingança.

“Trata-se de um policial militar que, demonstrando total descompasso com sua honrada função pública, matou, pelas costas, um trabalhador (Guilherme) que corria para pegar um ônibus, simplesmente por acreditar que ele poderia ser um roubador”, escreveu Zanella.

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