Dois em cada três homicídios no Brasil não chegam a julgamento, mostra estudo

Relatório do Instituto Sou da Paz expõe estabilidade da impunidade há quase uma década — e alerta para a falta de prioridade na investigação de assassinatos. Nos últimos nove anos, Brasil registrou média de 41 mil homicídios dolosos por ano

Na imagem, vê-se o chão de pedras portuguesas pretas, onde estão pintadas de branco várias silhuetas que lembram contornos de corpos. Pessoas caminham sobre o local, usando chinelos e sandálias, sem que seus rostos apareçam. A cena remete a uma intervenção urbana de denúncia, evocando as vítimas da violência letal.
Desenhos de silhuetas no chão lembram vítimas da violência letal durante ato público. Estudo mostra que dois em cada três homicídios no Brasil não chegam a julgamento | Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

No Brasil, a cada três pessoas assassinadas, apenas uma morte resulta em denúncia contra o autor e chance de chegar a julgamento. O dado aparece na 8ª edição do estudo Onde Mora a Impunidade?, divulgado pelo Instituto Sou da Paz, que analisou os homicídios ocorridos em 2023. Das 24.195 mortes violentas registradas naquele ano, somente 36% foram esclarecidas — ou seja, tiveram ao menos um autor identificado e denunciado pelo Ministério Público.

Nos últimos nove anos, o Brasil registrou em média 41 mil homicídios dolosos por ano. Em apenas um a cada três casos, ao menos um autor foi identificado e denunciado pelo crime que cometeu. O dado reforça a dimensão da impunidade no país: a regra não é a justiça, mas o esquecimento.

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Para a coordenadora de projetos do instituto, Beatriz Graeff, o quadro é de “estabilidade ruim”: nos últimos nove anos, a taxa de esclarecimento oscilou entre 32% e 37%, sem avanços significativos. “Isso mostra que, na última década, a resolução de homicídios esteve fora da agenda dos governos. Não houve políticas públicas direcionadas a melhorar esses índices”, afirmou.

Prioridade invertida

Segundo Beatriz, enquanto a investigação de homicídios exige investimento em perícia e protocolos padronizados, o que se vê é a priorização de operações ostensivas e de visibilidade, voltadas à Polícia Militar. “A atividade de investigação é silenciosa, mas fundamental para enfrentar estruturalmente as dinâmicas criminais. Ainda assim, ela é desvalorizada em vários estados”, explicou.

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A pesquisadora também aponta que os homicídios vitimam de forma desigual a população, atingindo principalmente periferias e jovens negros. “Quanto mais na borda da atenção pública estão essas mortes, menos esforço e investimento recebem na sua elucidação”, disse.

Tempo é fator decisivo

O estudo mostra que cerca de dois terços das denúncias ocorrem no mesmo ano da morte; passado esse período, a chance de responsabilização despenca. “As primeiras horas e dias de investigação são cruciais: preservar a cena do crime, deslocar a perícia, coletar imagens e ouvir testemunhas rapidamente faz toda a diferença. Sem isso, a tendência é que o caso se perca”, avaliou Beatriz

A fragilidade na produção de provas técnicas também pesa: a maioria dos processos ainda depende quase exclusivamente de testemunhos, o que torna o desfecho mais incerto.

Desigualdade entre estados

Além de mostrar a estabilidade da impunidade, o estudo revela o abismo entre os estados. Em 2023, o Distrito Federal alcançou 96% de esclarecimento dos homicídios, enquanto a Bahia não passou de 13%, o pior resultado do país pelo segundo ano seguido. Rondônia também se destacou, com 92%. Já em São Paulo, o índice caiu para 31%, o pior da série histórica no estado. Esses contrastes escancaram a falta de padrões mínimos de qualidade e investimento nas investigações. 

Outro dado que chama atenção é o perfil das prisões no Brasil. Mesmo com um crescimento de 900% da população carcerária desde 1990, apenas 13% das pessoas presas estão detidas por homicídio. A maioria cumpre pena por crimes contra o patrimônio e relacionados a drogas — delitos que resultam mais facilmente em prisão em flagrante. Para o Instituto Sou da Paz, isso mostra como o sistema de segurança privilegia a repressão imediata e seletiva, enquanto falha em responsabilizar autores do crime mais grave.

Pressão por indicador oficial

Apesar do cenário negativo, Graeff destaca um ponto de virada: a pressão exercida pelo estudo levou delegados de homicídios de todo o país a criarem e aprovarem uma metodologia própria de mensuração. O modelo está hoje no Ministério da Justiça, que pode regulamentá-lo até o fim do ano. 

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“É uma janela de oportunidade que não pode ser desperdiçada. A partir do momento em que o governo federal começar a publicar o indicador oficial, os estados terão de responder anualmente sobre suas políticas de esclarecimento de homicídios”, defendeu.

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