Projeto Ponte nas Eleições vai analisar seis problemas centrais da segurança pública e apresentar propostas construídas por movimentos sociais, pesquisadores, especialistas e moradores dos territórios mais afetados pela violência

A segurança pública nas eleições de 2026 chega novamente ao centro do debate político em um país onde, há séculos, políticas para a área são implementadas a partir de uma lógica de militarização, punitivismo, vingança e racismo. Mesmo com a queda nos índices de crimes como roubos caindo, a sensação de insegurança da população segue crescendo e se tornou um grande ativo político em tempos eleitorais. Não é segredo que o tema já ultrapassa preocupações tradicionais dos brasileiros, como saúde e economia.
Governos de diferentes espectros políticos seguem adotando o confronto e a ostensividade como práticas centrais de suas políticas de segurança, em detrimento da inteligência. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública apontam que, na Bahia, governada pelo PT há 19 anos, 1.570 civis foram mortos pelas forças de segurança em 2025.
No mesmo período, São Paulo e Rio de Janeiro registraram, respectivamente, 835 e 798 mortes provocadas pela polícia. Ambos os estados são governados por partidos de direita. Guardadas as devidas proporções, em ambos os lados, temos ações que aumentam o número de mortes e enchem as prisões sem resolver o avanço do crime organizado.
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Ao longo de 11 anos, a Ponte analisou, a cada eleição, propostas de segurança dos planos de governo de diferentes candidaturas. Entretanto, a partir do especial Segurança é pública, publicado em 2025, temos acompanhado mais de perto como diferentes territórios vêm atuando para incidir na construção de novas formas de fazer segurança pública que estejam comprometidas com o bem-viver e com os direitos humanos. Conversamos com os Fóruns Populares de Segurança Pública, espaços que reúnem diferentes atores civis interessados em fazer diferente.
Com base nisso, em 2026, nossa cobertura sobre segurança pública nas eleições parte menos das promessas feitas durante a campanha — muitas vezes formuladas apenas para disputar votos — e mais dos cenários concretos que os próximos governos encontrarão.
O projeto Ponte nas Eleições nasce com essa perspectiva propositiva: mapear alguns dos principais problemas da segurança pública brasileira, mostrar seus impactos sobre a vida das populações historicamente criminalizadas e apresentar caminhos possíveis a partir de propostas já debatidas por movimentos sociais, organizações da sociedade civil, pesquisadores, especialistas e moradores dos territórios afetados.
O objetivo é deslocar o debate eleitoral da lógica do medo, da punição e da guerra para uma discussão baseada em justiça social, bem-viver, democracia e direito à vida. Em vez de organizar a cobertura em torno de declarações de campanha ou disputas entre candidaturas, a série pretende responder a uma pergunta central: quais problemas a segurança pública brasileira precisa enfrentar se quiser deixar de produzir violência?
As reportagens partirão de seis temas-problema: letalidade policial, sistema prisional e política de drogas, violência de gênero, crime organizado, orçamento público e redução da maioridade penal. Em cada eixo, a Ponte levantará o cenário atual, explicará os impactos concretos das políticas em curso e apresentará propostas que vêm sendo discutidas nos territórios, na academia e nos movimentos sociais.
A série combinará análise de dados, contexto histórico e político, entrevistas com especialistas e a escuta de movimentos sociais, organizações locais e pessoas diretamente impactadas pelas políticas de segurança pública. Queremos produzir reportagens que não apenas denunciem violações, mas também organizem o debate público em torno de alternativas concretas.
O projeto pretende qualificar o debate eleitoral ao mostrar que existem propostas para segurança pública fora da lógica da guerra: propostas que não partem da vingança, mas da preservação da vida, e que não tratam periferias, favelas e quilombos como territórios inimigos, mas como espaços de produção de conhecimento, organização política e futuro.
Nossos repórteres Paulo Batistela e Mariana Rossetti estão chegando à reta final da construção da produção das reportagens, sob a coordenação da editora Catarina Duarte. Os textos — e outros materiais que também estamos produzindo — serão publicados duas vezes por semana, a partir do início de setembro.
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