‘Estão tentando passar ele como criminoso’, diz família de motoboy morto após abordagem da GCM

Família de Paulo Vitor Leite Rodrigues, de 26 anos, contesta a versão dos guardas de que ele estaria armado e aponta demora de mais de duas horas no socorro

Paulo Vitor Leite Rodrigues, de 26 anos, morto após perseguição da Guarda Civil Municipal de Cotia | Foto: Arquivo pessoal

Paulo Vitor Leite Rodrigues, de 26 anos, morreu após fugir de uma abordagem da Guarda Civil Municipal (GCM) de Cotia, na Grande São Paulo, que terminou em um acidente de trânsito na última segunda-feira (18/5). A família busca compreender o que aconteceu e contesta a versão dos agentes de que o jovem estaria armado. Eles também alegam que a ambulância demorou mais de duas horas para chegar ao local.

“Estão tentando passar ele como se ele fosse criminoso”, desabafa Antônio Campos, primo de Paulo, em entrevista à Ponte. Um vídeo obtido pela reportagem mostra o momento em que, no cruzamento das ruas Piracicaba e Savana, Paulo colide com um veículo de passeio e é prensado entre ele e a viatura da Ronda Ostensiva Municipal (ROMU). O jovem foi socorrido, mas morreu horas depois no Hospital Regional de Cotia.

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Foi a irmã mais velha do jovem quem reconheceu o corpo. Segundo os familiares, os hematomas presentes contradizem a dinâmica apontada pela GCM de que uma arma estaria no bolso da jaqueta de Paulo. “Falaram que ele estava armado. Mas na autópsia disseram que ele não tinha marca de arma no peito. Com a batida, se tivesse arma no peito, apareceria algum tipo de hematoma”, pontua Antônio.

Paulo não possuía Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Antônio Campos explica que o jovem tentou escapar da abordagem “para não perder a ferramenta de trabalho”. “A família queria que ele parasse de trabalhar com moto, porque já teve a moto apreendida duas vezes. Em uma delas, sofreu violência policial. Pisaram no pé dele. Por isso ele também estava com medo”, afirma.

Para os parentes, a morte foi resultado direto da demora no socorro. “Houve uma certa negligência. Tem um vídeo que mostra ele pedindo ajuda e chorando de dor. Isso foi às 17h, e, umas 20h, ele ainda estava no local”, denuncia o primo. “Ele morreu com uma hemorragia, então é uma coisa que poderia ser evitada.”

Jovem pediu por socorro antes de morrer

No boletim de ocorrência obtido pela Ponte, os guardas afirmam que estavam em patrulhamento quando se depararam com uma motocicleta Honda 160 preta em alta velocidade, com a placa tampada por uma mochila. Os agentes, então, passaram a perseguir o motoboy com a sirene e os luminosos acionados, mas o motoboy não obedeceu à ordem de parada.

Durante a fuga, Paulo teria acessado a Rodovia Raposo Tavares, entrado na Alameda Tuca e, em seguida, entrado na contramão das ruas Rincão e Piracicaba, até colidir com um veículo na altura do número 349 da rua Savana.

O registro policial menciona que o resgate foi acionado, mas não especifica o horário. O documento afirma apenas que Paulo foi “levado para o Hospital Regional de Cotia, onde veio a óbito”, e que os guardas encontraram “no bolso da jaqueta dele, uma arma marca Beretta, modelo 950 bravo, calibre 6,35”. O motoboy estava sem documentos de identificação.

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A Polícia Civil também ouviu duas ocupantes do veículo de passeio atingido. A motorista relatou não ter conseguido ver se a viatura chegou a passar por cima do motoboy, mas notou que, ao ser colocado na maca, “ele se contorcia muito”. A passageira confirmou que a vítima foi levada com vida pelo resgate e que “pedia ajuda, se contorcendo bastante”.

O caso foi registrado na Delegacia de Polícia de Cotia como posse ou porte ilegal de arma de fogo de uso restrito, morte suspeita, localização e apreensão de veículo, além de participação em corrida não autorizada em via pública.

A Polícia Civil requisitou exames necroscópico e toxicológico, além de perícia no local do acidente, na motocicleta apreendida, na viatura da GCM e no terceiro veículo envolvido. A arma atribuída ao jovem também passará por análise.

Família em choque

Dirigir a motocicleta mesmo sem habilitação era uma necessidade para sustentar a casa, conta o primo. Pai de dois meninos pequenos, Paulo assumiu um trabalho que poucos aceitavam: entregar encomendas de e-commerce nos becos e vielas da comunidade em que morava.

As mercadorias chegavam até um centro de distribuição próximo ao bairro, e Paulo fazia a rota final, nos acessos mais difíceis. Foi durante um desses dias de trabalho que a tragédia aconteceu.

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Paulo, que completaria 27 anos no próximo dia 11 de junho, foi velado e sepultado no Cemitério Parque Jardim das Flores, na quarta-feira (20/5). “Foi uma tragédia. A família está em estado de choque. Nesse momento, a esposa e a mãe não conseguem pensar em nada ainda, nem se vamos entrar com um advogado”, relata Antônio.

Ainda na quarta-feira (20), a morte do jovem provocou indignação entre outros entregadores, que se reuniram em protesto. A mobilização levou à interdição de uma via pública em Cotia, e um ônibus chegou a ser incendiado.

O que diz as autoridades

A prefeitura de Cotia, responsável pela Guarda Municipal, publicou uma nota logo após a morte. No texto reforçou a versão apresentada pelos guardas de que Paulo desobedeceu a ordem de parada e fugiu da abordagem em alta velocidade.

A gestão de Welington Formiga (PDT) afirmou ainda que o Corpo de Bombeiros foi chamado imediatamente após o acidente e que uma arma calibre 6,35 foi encontrada na jaqueta do motociclista. A prefeitura declarou acompanhar o caso e colaborar com as investigações.

Leia nota na íntegra

“A Prefeitura de Cotia, por meio da Secretaria Municipal de Segurança Pública, lamenta profundamente o desfecho da ocorrência registrada nesta segunda-feira (18) e se solidariza com os familiares e amigos do jovem que veio a óbito.

A respeito dos fatos, a administração municipal esclarece que uma equipe da Guarda Civil Municipal (GCM) realizava patrulhamento de rotina quando identificou um motociclista em alta velocidade, conduzindo a moto preta com a placa de identificação coberta por uma mochila.

Ao receber ordem de parada, inclusive com sinais luminosos e sonoros, o condutor desobedeceu à abordagem e iniciou uma fuga em alta velocidade.

Durante o acompanhamento tático, o motociclista realizou manobras perigosas e ingressou em vias de mão única pela contramão. No cruzamento entre as ruas Piracicaba e Savana, o indivíduo colidiu contra um automóvel. Devido à proximidade e à velocidade da via, a viatura da GCM também acabou colidindo contra o mesmo veículo.

Imediatamente após o acidente, os guardas civis acionaram o Corpo de Bombeiros, que prestou os primeiros socorros e encaminhou o motociclista ao Hospital Regional de Cotia, onde, infelizmente, ele não resistiu aos ferimentos. Durante os procedimentos padrão, foi localizada uma arma de fogo calibre 6,35 na jaqueta do condutor.

A Prefeitura de Cotia reitera que acompanha de perto os desdobramentos do caso e permanece à disposição das autoridades policiais, colaborando integralmente com as investigações para o total esclarecimento das circunstâncias do fato.”

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