Jurados entenderam, por maioria, que os réus não foram os autores do crime. Júri anterior, que também terminou em absolvição, havia sido anulado porque a decisão contrariava as provas

Os ex-policiais militares Adriano Fernandes de Campos e Gilberto Eric Rodrigues foram absolvidos, em um júri popular encerrado na noite desta quarta-feira (12/8), da acusação de terem matado Guilherme Silva Guedes, um adolescente negro de 15 anos, em 2020.
Adriano e Gilberto respondiam por homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, emprego de meio cruel e uso de recurso que dificultou a defesa da vítima). Os sete jurados entenderam, por maioria, que eles não foram os autores do crime.
Guilherme foi sequestrado na zona sul de São Paulo e acabou encontrado morto horas depois em um terreno baldio a seis quilômetros de distância.
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Uma câmera de segurança registrou que o adolescente foi visto por uma última vez com vida na entrada de um beco vizinho à casa da avó paterna, no bairro Vila Clara. As imagens mostram que, segundos depois da passagem dele pelo local, surgiram Adriano e Gilberto no mesmo beco — o primeiro deles aparentava, no vídeo, ter uma arma de fogo em mãos.
Três adolescentes relataram a um inquérito policial militar que viram Guilherme sendo colocado à força pelos acusados em um carro na ocasião do desaparecimento. Essas testemunhas não foram ouvidas, no entanto, pela Polícia Civil, nem agora no julgamento.
Além disso, o Detecta, um sistema de monitoramento do governo estadual, identificou o carro de Adriano trafegando em direção à região em que o corpo de Guilherme foi achado na madrugada do crime.
O entendimento da acusação era de que os réus haviam matado Guilherme ao suspeitarem de que ele teria tentado furtar um canteiro de obras no qual Adriano, ainda policial à época, fazia, ilegalmente, serviços de vigilância particular. Gilberto atuava como funcionário do então PM.
Os dois réus alegavam inocência e sustentavam sequer terem abordado Guilherme naquela madrugada.
Adriano respondia pelo caso em liberdade e já havia sido absolvido em um primeiro júri, em outubro de 2021. Posteriormente, no entanto, aquele julgamento foi anulado a pedido do Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), sob o entendimento de que a decisão foi contrária às provas do processo.
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Já Gilberto está preso desde maio de 2021. À época da morte de Guilherme, ele usava uma identidade falsa e era considerado foragido, após ter escapado, em 2015, do Presídio Militar Romão Gomes — a Polícia Militar paulista (PMESP), inclusive, mentiu sobre a fuga, afirmando à Ponte, em resposta oficial, que ele ainda estava preso.
Ainda à época da morte de Guilherme, a Polícia Civil atribuía a Gilberto a participação em cerca de 70 assassinatos. Em 2023, ele foi condenado a 125 anos de prisão em regime fechado por participação na Chacina do Jardim Rosana, ocorrida em 4 de janeiro de 2013, na zona sul de São Paulo — o caso deixou sete mortos, incluindo o DJ Lah (Laércio de Souza Grimas, 33 anos), e dois feridos.
Primeiro dia de júri teve testemunhos e interrogatórios
O júri teve início na terça (11/8) e ocorreu no Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo, sob receio da família da vítima de que acabasse novamente adiado. Nos últimos dois anos, a Justiça aceitou remarcar o julgamento por quatro vezes, após o advogado de um dos réus alegar problemas de saúde.
“[A espera pelo júri] Traz mais tortura. É uma tortura a família precisar esperar seis anos por uma resposta”, disse, à Ponte, a mãe de Guilherme, Joice da Silva dos Santos, pouco antes de entrar no fórum, ao qual chegou acompanhada da mãe, Antônia Arcanjo, e de outras familiares.
“É muita dor para seis anos. Só de falar eu me emociono. Tem coisa que não dá para acreditar. Eu espero que hoje eles sejam condenados. Não traz ele [o neto] de volta, mas alivia um pouquinho”, afirmou Antônia também à reportagem, logo após estender, em frente ao fórum, uma faixa com o rosto de Guilherme estampado, em um breve ato antes que fosse autorizada a entrar.
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O julgamento teve início por volta das 9h. Em um primeiro momento, foram ouvidas quatro testemunhas: a mãe de Guilherme; uma tia dele; o delegado que presidiu o inquérito da Polícia Civil sobre o ocorrido; e um investigador do caso. A Ponte acompanhou in loco essa etapa.
Joice se emocionou durante o depoimento, iniciado com perguntas da promotora de Justiça Rosana Colletta, à frente da acusação. Disse que, à época do assassinato, fazia marmitas para vender, e Guilherme a ajudava fazendo entregas de bicicleta.
Os advogados da defesa também puderam fazer perguntas. Ao lado deles, estavam os réus, que se mantiveram inertes durante o julgamento. Ainda no primeiro dia de júri, houve o depoimento de um oficial da Corregedoria da PMESP que investigou o caso, o do pai de Adriano e os interrogatórios dos réus.
A família do adolescente contava com um advogado no processo, que deveria atuar como assistente de acusação. Ele não compareceu, no entanto, ao júri. A Ponte o procurou. Em resposta, ele disse ter tido um problema de saúde na família.
No espaço reservado ao público, estiveram familiares de Guilherme, outras mães que perderam seus filhos para a violência policial e representantes de movimentos sociais. Familiares e amigos dos réus também acompanharam o julgamento.

Promotora monta cronologia do crime, e defesa contesta investigação
O segundo dia de júri, também acompanhado presencialmente pela Ponte, teve início com as sustentações orais das partes. A primeira a falar foi a acusação. A promotora prestou inicialmente elogios à Polícia Militar, afirmando que não era a corporação quem seria julgada, mas “laranjas podres” expulsas da instituição.
Ela explicou ainda aos jurados a razão pela qual foi necessário um novo júri e afirmou que não colocaria a carreira em risco se não tivesse plena certeza de que as provas do caso apontavam a culpa dos acusados.
A promotora Rosana Colletta expôs uma detalhada cronologia da madrugada em que Guilherme foi morto, com vídeos, fotografias e trechos de testemunhos, entre outras provas, para sustentar a dinâmica do ocorrido.
Ela também destacou que a família da vítima buscou a PM e a Polícia Civil a todo momento para solucionar o caso, reunindo provas e pedindo ajuda em delegacias já na manhã em que soube do desaparecimento.
Esse destaque se deu devido a uma insinuação feita, sem provas, pela defesa dos réus, de que a família de Guilherme teria envolvimento com o crime organizado, em função de um tio do adolescente, com quem ele esteve naquela noite, estar hoje preso.
Para a promotora, a alegação sequer faz sentido. “Nunca vi o crime organizado, um chefe de boca ligar para a polícia para pedir ajuda”, argumentou. “A família buscou a autoridade policial, acreditou na lei.”
Depois da promotora, um advogado de Adriano, Renato Soares Nascimento, assumiu a fala. Ele iniciou a sustentação destacando que seu cliente teve carreira elogiada na PMESP. Afirmou que o relato de um dos adolescentes que teria visto o sequestro de Guilherme tratou-se de uma mentira.
Disse também que haveria contradições nos relatos dos familiares de Guilherme e que haveria indícios de que o responsável pelo assassinato pode ter sido, na verdade, um suposto policial militar alheio aos réus, mas que isso não teria sido devidamente investigado.
Depois dele, falou o advogado Mauro da Costa Ribas Júnior, também em defesa de Adriano. Ele reforçou entender ser mentira que testemunhas tenham visto Guilherme ser sequestrado e disse, ao avaliar um vídeo do ocorrido, que, diferentemente do que compreendeu o MPSP, não há como dizer que o adolescente foi pego por Adriano e Gilberto em um beco próximo à casa da avó.
O advogado também afirmou que a dinâmica apontada pelo MPSP seria incoerente com os horários em que o sistema Detecta registrou circulação do carro de Adriano pela zona sul de São Paulo na madrugada do crime.
Por último, ainda falou o advogado de Gilberto, Damilton Lima de Oliveira Filho, em menor tempo. Segundo ele, o cliente é um trabalhador e estava sendo incriminado devido à repercussão pública do caso. Disse que o verdadeiro executor do crime seria uma suposta pessoa não identificada.
Antes que o plenário fosse esvaziado para os jurados tomarem uma decisão, houve ainda uma réplica da promotora e a tréplica dos advogados — ao todo, cada parte falou então por cinco horas e meia.
Câmera filmou ex-PMs logo após sumiço de adolescente
Guilherme foi sequestrado na madrugada de 14 de junho de 2020 e acabou encontrado morto horas depois no bairro Eldorado, na divisa entre a capital paulista e a cidade de Diadema.
Naquela data, a família do adolescente fazia um churrasco na casa da mãe, após ele e Joice conseguirem se restabelecer em um imóvel alugado em São Paulo, depois de terem retornado de um período morando no interior do estado.
Guilherme deixou a casa da mãe por volta da meia-noite quando a confraternização ainda ocorria, e foi a pé até a casa da avó paterna, a duas quadras de distância, na Rua Rolando Curti, para acompanhar a idosa, que queria descansar.
O adolescente permaneceu em frente ao imóvel no começo da madrugada, quando conversava com outros garotos do bairro, e depois entrou na casa da avó.
Imagens de uma câmera de segurança vizinha registraram Guilherme saindo novamente da residência perto das 2h da madrugada. Ele se deparou com um amigo na rua e pareceu entrar sozinho em um beco ao lado do imóvel. Segundos depois, Gilberto Eric Rodrigues surgiu na entrada do beco, olhando ao redor para a Rua Rolando Curti.
Ainda no vídeo, Gilberto volta para o interior do beco e, na sequência, Adriano Fernandes de Campos aparece com as mãos para trás e, aparentemente, portando uma arma de fogo — o próprio ex-PM admitiu ser ele nas imagens e estar acompanhado de Gilberto. Depois disso, Guilherme não foi mais visto com vida.
Na manhã do dia 14, ele foi encontrado morto com dois tiros à queima-roupa. Um deles foi dado na nuca, aparentemente quando a vítima mantinha as mãos para trás em rendição. Já o outro disparo atingiu a boca do adolescente.
Vigilante relatou saída apressada de Adriano naquela madrugada
O beco em que Guilherme teria entrado antes de desaparecer dá acesso a uma praça com um córrego e um piscinão — na outra ponta dela, no sentido oposto ao do beco da Rua Rolando Curti, está a Rua Álvares Fagundes.
Naquele espaço da praça havia também um canteiro de obras da Globalsan, empresa que prestava serviços à Sabesp e para a qual Adriano atuava como vigilante. Além disso, o local era vizinho a um supermercado.
Ainda na ocasião, Adriano e Gilberto estariam perseguindo adolescentes que entraram no terreno da obra. Os jovens pretendiam pular um muro para acessar a área externa do supermercado vizinho e pegar alimentos vencidos em uma caçamba.
Foi nesse contexto que os ex-policiais teriam abordado Guilherme e o apontado, sem provas, como suspeito de tentativa de furto e invasão ao canteiro.
Um outro vigilante que trabalhava na obra relatou à Polícia Civil que, logo após ter saído com Gilberto em busca dos supostos invasores, Adriano voltou sozinho para buscar um Volkswagen Fox preto estacionado no canteiro, com acesso de carro pela Rua Álvares Fagundes.
Adriano deixou o próprio celular em uma guarita da obra, ainda que o aparelho estivesse funcionando e com bateria, e saiu apressado. O MPSP entendeu que ele não levou o telefone para não ser rastreado e que, neste momento, Guilherme já era mantido sob poder de Gilberto, que aguardava o chefe com o veículo para levá-lo a um local ermo onde seria executado.
Adriano alegou que saiu apressado para encontrar uma outra pessoa no bairro do Jabaquara, sem saber esclarecer, contudo, o endereço. Além disso, essa suposta testemunha não foi convocada pela defesa para confirmar o álibi do ex-policial.
As defesas dele e de Gilberto destacaram que uma perícia feita no carro oito dias depois do crime não encontrou material genético de Guilherme, mas apenas dos réus. A acusação rebateu que o veículo teria sido lavado, uma vez que não foram sequer encontrados fios de cabelo nele. Além disso, na madrugada do ocorrido, Gilberto telefonou para um lava-rápido, segundo o MPSP.
Adolescentes relataram ter visto sequestro da vítima
À Corregedoria da Polícia Militar, que fez uma investigação paralela ao inquérito da Polícia Civil, três adolescentes relataram terem visto o sequestro — eles estiveram com Guilherme naquela madrugada e planejaram, sem a participação dele, pegar alimentos vencidos no supermercado.
Segundo eles, Guilherme foi mantido sentado na praça, sob a ameaça de uma de arma de fogo. Depois disso, o adolescente teria sido colocado à força pelos agentes em um carro preto.
A câmera de segurança que registrou Guilherme pela última vez com vida também gravou essas testemunhas entrando no beco da Rua Rolando Curti minutos depois da vítima acessá-lo. Os três adolescentes disseram ter visto o sequestro nesse momento, quando se esconderam na praça. A câmera filmou eles saindo do beco logo depois, aparentemente agitados.
Esses adolescentes buscaram ajuda ainda naquela madrugada e foram junto de outros moradores e familiares de Guilherme ao canteiro de obras para cobrar satisfações sobre o paradeiro da vítima, que, naquela altura, pensavam ter sido presa injustamente, e não assassinada.
Tanto esses adolescentes quanto o vigilante que detalhou a saída apressada de Adriano do canteiro não foram ouvidos no julgamento dos ex-policiais.
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Familiares e vizinhos do garoto protestaram à época, chegando a incendiar um ônibus e a bloquear uma avenida. Também fizeram um ato em frente a uma sede da Globalsan.
Em dezembro de 2022, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) acolheu o pedido do MPSP para anular o primeiro júri do caso, ao qual apenas Adriano havia sido submetido, e determinou a realização de um novo julgamento.
A defesa de Adriano recorreu com um recurso especial ao TJSP, que foi negado. Em seguida, apresentou um agravo ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), que também rejeitou o pedido.