Gabriel Ferreira Messias da Silva, de 18 anos, foi morto desarmado em novembro de 2024, em caso em que PMs tentaram evitar gravação. Hospital diz que itens pessoais foram levados como “provas” — mas PM alega não saber onde estão

A família de Gabriel Ferreira Messias da Silva, um entregador de 18 anos que foi morto desarmado pela Polícia Militar paulista (PM-SP) na noite de 26 de novembro de 2024 na Capital, tenta ainda hoje reaver os pertences que estavam com o jovem naquela ocasião. O hospital ao qual ele foi levado após ter sido baleado diz que os itens pessoais da vítima foram recolhidos por policiais militares como “provas”, mas a corporação alega agora, quase sete meses depois do ocorrido, não saber onde eles estão.
O caso de Gabriel ganhou repercussão no último mês de maio após a TV Globo tornar público um vídeo gravado pela câmera corporal de um dos policiais militares da ocorrência. No registro, o jovem aparece agonizando no chão e implorando pela própria vida, enquanto os policiais parecem manipular a cena “plantando” uma arma de fogo como se fosse da vítima. Um policial ainda orienta o colega que tem a câmera acoplada em sua farda para que se vire, de modo que o aparelho não registre a aparente fraude.
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Gabriel havia sido socorrido, já morto, ao hospital Ermelino Matarazzo, na zona leste de São Paulo. A unidade cedeu aos pais da vítima, que encontraram o filho apenas de fraldas no local e um documento no qual consta que “policiais levou (sic) pertences como prova”.
Desde então, sua família tenta recuperar os itens que estavam com ele: sua motocicleta, um capacete, chaves, um cartão bancário e uma pochete.
PM-SP contraria hospital e família vai à Ouvidoria
Em abril, a Justiça proferiu decisão para que os pertences fossem restituídos aos pais do entregador. A Polícia Civil oficiou a PM-SP para que devolvesse os itens. Em resposta, a corporação negou estar em posse deles: “Após verificação nos relatórios operacionais dos policiais envolvidos, bem como no Boletim de Ocorrência da Polícia Militar, não consta apreensão, retirada ou entrega de objetos pertencentes à vítima”, escreveu o capitão Jonas Bezerra Alves, em comunicado da última quarta-feira (11/6).
A Polícia Militar soube dizer apenas onde está a moto, recolhida em um pátio no município de Ferraz de Vasconcelos, a 40 minutos de carro de onde Gabriel foi morto. “Eles devem ter jogado os pertences fora. Deram fins nos pertences”, lamenta a mãe de Gabriel, Fernanda Ferreira da Silva, de 39 anos. Ela levou o caso à Ouvidoria das polícias, mas ainda não obteve retorno.
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A Ponte questionou a Secretaria da Segurança Pública paulista (SSP-SP), via assessoria de imprensa, se o aparente sumiço dos pertences é investigado e se caberia a policiais militares recolherem provas em ocorrências assim.
“Todas as circunstâncias dos fatos foram apuradas por meio de um Inquérito Policial Militar (IPM), que, após a conclusão, foi encaminhado ao Tribunal de Justiça Militar (TJM). Os policiais envolvidos permanecem afastados de suas funções. Paralelamente, a Polícia Civil conduz uma investigação pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), sob sigilo, com o objetivo de esclarecer totalmente o caso”, escreveu a pasta, em resposta.

Câmera revelou que jovem foi morto desarmado
Na noite em que foi morto pela PM-SP, Gabriel havia saído com dois amigos para se distrair em uma breve folga, cada um em uma motocicleta. O jovem não era habilitado, mas já usava a moto para trabalhar como entregador de aplicativo.
Os três amigos abasteceram as motos em um posto de combustíveis na Vila Cisper, bairro da zona leste da capital, e, ao saírem do local pouco depois das 23h, receberam ordem de parada de PMs embarcados em uma viatura do 4º Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep). Os jovens tentaram fugir, cada um indo para uma direção, mas Gabriel foi alcançado na esquina das ruas Belém Santos e Colônia Leopoldina, também na Vila Cisper, onde caiu com a motocicleta.
A versão policial era de que Gabriel se desequilibrou antes de cair. Depois disso, ainda segundo a PM, o entregador teria se levantado e levado as mãos à cintura, quando o sargento Ivo Florentino dos Santos, sentado dentro da viatura junto de outros três policiais militares, teria atirado contra ele para “cessar iminente ameaça”. Ao revistarem a vítima posteriormente, teriam encontrado uma arma de fogo com ela. Imagens gravadas pelas câmeras corporais dos próprios policiais desmontaram, contudo, essa versão.
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Em um dos vídeos, o soldado Ailton Severo do Nascimento, também presente na ocorrência, questiona o jovem se a moto era roubada, o que ele nega, enquanto também pede ajuda: “Eu sou trabalhador, senhor, para que fazer isso comigo, meu Deus?”. Ailton se agacha, como se simulasse ter achado algo, e fica então de costas para a vítima, sob ordens de um outro policial que diz “vira, vira, vira”.
Ao se postar de frente para o jovem novamente, Ailton permite que a câmera acoplada em si filme Ivo chutando uma arma para debaixo da motocicleta. Também estavam na ocorrência os policiais Evanildo Costa de Farias Filho, que dirigia a viatura, e Gilbert Gomes dos Santos. Todos eles estavam sob comando de Ivo na ocasião.
Família lidou com descaso anteriormente
Os dois amigos de Gabriel que conseguiram fugir avisaram o pai dele, Diego Messias da Silva, de 38 anos, de que alguma coisa poderia ter acontecido. O familiar foi à esquina da ocorrência, quando soube por vizinhos que o filho havia sido levado ao hospital. Ele recebeu depois a informação de uma médica plantonista de que o jovem teria morrido supostamente em razão de uma parada cardiorrespiratória após um acidente de trânsito.
Diego chamou então a mãe de Gabriel para reconhecerem o corpo, quando se depararam com o filho baleado e sem quaisquer pertences, recolhidos pela PM.
No hospital, outra funcionária disse sem maiores detalhes que o disparo teria partido de um policial. Dias depois, apenas depois do enterro do filho, os pais foram ter acesso a um boletim de ocorrência do caso. Após a família buscar a Defensoria Pública estadual (DPESP), o órgão público que agora atua como assistente de acusação no caso de Gabriel, levou ao inquérito um relatório no qual contesta a versão policial, com base na degravação das imagens captadas pelas câmeras corporais.
O Ministério Público paulista (MP-SP), à frente da acusação, repetiu o entendimento da Defensoria de haver indícios de fraude processual e pediu o afastamento cautelar dos policiais Ivo Florentino dos Santos e Ailton Severo do Nascimento — o que foi acatado pela Justiça em abril. Os outros dois policiais envolvidos no caso foram poupados de qualquer sanção até agora. A família defende que o afastamento de parte dos envolvidos é insuficiente, que eles deveriam ser presos preventivamente.