Jovem foi morto com um tiro no abdômen por policial militar em hotel na zona sul de SP. Mãe e pai convocam ato e cobram responsabilização de Tarcísio e Derrite

Para o cardiologista Julio Navarro, pai do estudante de medicina Marco Aurélio Cárdenas Acosta, de 22 anos, esta quinta-feira (10/7) é como o juízo final. A data marca a primeira audiência de instrução do processo judicial que apura a morte de Marco Aurélio, após um tiro disparado pelo soldado da Polícia Militar de São Paulo (PM-SP) Guilherme Augusto Macedo.
Guilherme e o também soldado Bruno Carvalho do Prado foram denunciados pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) por homicídio qualificado. No caso de Guilherme, o MP-SP defende que o soldado matou Marco Aurélio de forma cruel e com impossibilidade de defesa da vítima. Já Bruno é acusado de ter participado da morte, mesmo que não tenha sido o executor direto.
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Os policiais foram afastados das funções operacionais diante da repercussão do crime, mas nunca chegaram a ser presos preventivamente.
O crime ocorreu no dia 20 de novembro do ano passado, na escadaria do Hotel Flôr, na rua Cubatão, Vila Mariana, zona sul da capital. A versão dos policiais de que o jovem teria tentado pegar a arma de Bruno — e que isso seria o motivo do disparo — foi desmentida pelas imagens da câmera de segurança do hotel. Na imagem, não é possível ver Marco Aurélio fazendo esse movimento.
“Eu não sei o que vai acontecer, mas eu quero encontrar esses caras porque até agora, oito meses [depois da morte], todas as autoridades agiram com moleza, tolerância com gente que comete crime para ter impunidade”, desabafa Julio.
A médica intensivista Sílvia Mónica Cárdenas Prado, mãe de Marco Aurélio, diz que a morte do caçula é uma dívida de sangue do Estado de São Paulo. “Vou lutar com todas as minhas forças contra Tarcísio e Derrite. Serei a pedra no sapato deles. Vou replicar para todo mundo que os dois são imprestáveis”, declara.
Marco Aurélio estava no quinto período do curso de medicina na Universidade Anhembi Morumbi. Em entrevista ao portal Terra, na época do crime, Silvia contou que o filho queria ser pediatra.
Em um perfil sobre o jovem, a CNN Brasil relatou que Marco Aurélio usava o nome artístico de MC Boy da VM e se apresentava nas redes sociais como mestre de cerimônias e compositor.

Justiça decide se PMs irão a júri popular
A audiência de instrução ocorre nesta quinta-feira a partir das 13h30, na sala de audiências da 4ª Vara do Júri. Segundo a assessoria do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), por “questões de logística e segurança não há como acomodar pessoas não relacionadas ao ato e ao processo”. Assim, a imprensa não poderá acompanhar os depoimentos.
É nessa etapa processual que o juiz decide se os réus vão a júri popular. Neste caso, cabe à juíza Luciana Menezes Scorza decidir, ao fim da audiência, se pronuncia os soldados da polícia, levando a decisão sobre a condenação ao Tribunal do Júri. Caso entenda que não é o caso, a magistrada pode determinar a impronúncia ou ainda a absolvição sumária dos réus.
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O Ministério Público arrolou sete pessoas para serem ouvidas. Entre elas, o recepcionista do hotel, um policial militar que prestou apoio à equipe na sequência do tiro e parte da equipe da Polícia Civil que investigou o caso. A defesa de Guilherme e Bruno convocou cinco testemunhas, todas elas policiais militares.
Silvia e Julio convocaram um ato para a manhã da audiência em frente ao Fórum da Barra Funda. A mobilização contou com a presença de vítimas da violência do Estado e serviu como um palanque para cobrança de justiça e responsabilização do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e do secretário de Segurança Guilherme Derrite.
Quem passava pela entrada do Fórum não conseguia desviar o olhar dos cartazes que lembravam Marco Aurélio e outras vítimas da violência policial em São Paulo. Uma foto da família de Silvia e Júlio também chamava atenção. Nela, os três filhos do casal aparecem felizes, com semblante tranquilo. A imagem já não reflete a realidade.
Nesta quinta-feira, Silvia veio de jaleco para o ato. A escolha foi proposital, conta. Quis homenagear o filho que logo se tornaria médico e também lembrar que a violência promovida por Tarcísio e Derrite avança cada vez mais, atingindo também a classe média.

O irmão de Marco Aurélio, Frank Cárdenas, 28, desabafou sobre a morte durante o ato. Em sua fala, o cirurgião contou que ele mesmo já foi abordado pela polícia “por ser mais moreno” e que o mesmo havia acontecido com Marco.
“No dia 20 de novembro, meu melhor amigo foi tirado de mim. O filho dos meus pais foi tirado. O sonho dele foi destruído”, disse. O pedido de justiça foi feito ao lado do cachorro Hardy, o xodó do caçula da família e companheiro nas horas em que passava jogando videogame.
Márcia Gazza, representante das Mães da Leste, chegou cedo ao Fórum e logo estendeu cartazes com os rostos de outras vítimas da letalidade policial. Entre eles, o de seu filho, Peterson Conti Senoreli, de 21 anos. Renatinho, como era apelidado, morreu após ser abordado por policiais militares da Força Tática do 29º BPM/M, no Itaim Paulista, zona leste de São Paulo. Dez anos após a morte, o inquérito policial ainda não foi concluído.
“Faz dez anos que eu estou aqui. Não desisto e não vou desistir do meu filho. Essa luta está me dando mais esperança. Cada dia que vejo pessoas com coragem e garra de ir contra essa segurança pública e esse governador, me dá mais força”, afirma.
Em junho, os pais de Marco Aurélio, peruanos que moram no Brasil há 20 anos levaram um relatório sobre o caso a oficiais das Nações Unidas (ONU), em Genebra, na Suíça.
A primeira audiência de instrução foi encerrada por volta das 17h30, após a oitiva de 11 testemunhas. Uma nova audiência foi marcada para o dia 9 de outubro, às 13h30, quando será ouvida a última testemunha de defesa, além dos réus.

Denúncia aponta retaliação por tapa no retrovisor
Na denúncia, os promotores Estefano Kvastek Kummer, Antônio Nobre Folgado e Enzo de Almeida Carrara Boncompagni sustentam que os policiais mataram Marco Aurélio em retaliação por ele ter dado um tapa no retrovisor da viatura.
Conforme descreve a denúncia, Guilherme e Bruno realizavam patrulhamento de rotina quando viram o estudante andando na rua. Imagens das câmeras corporais dos PMs registraram que um deles disse: “vamos seguir esse moleque. Só quero ver se ele vai levar uma”.
Quando os policiais pararam a viatura em um cruzamento, Marco Aurélio aproximou-se e deu um tapa no retrovisor da viatura, sem danificá-lo.
Guilherme, que estava no banco do carona, desceu da viatura e passou a perseguir o estudante, que entrou no hotel onde estava hospedado.
Ainda no saguão do hotel, Guilherme conseguiu abordar Marco Aurélio, tentando segurá-lo pelos braços. Bruno também se aproximou e passou a abordá-lo.
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Guilherme empunhava a arma sempre apontada para o jovem. Bruno chutou Marco Aurélio, que, segundo o MP, tentou se defender segurando a perna do soldado, que se desequilibrou e caiu. Neste momento, Guilherme atirou, atingindo o estudante no abdômen. Ele chegou a ser levado ao Hospital Ipiranga, onde morreu.
“É certo que os policiais agiram impelidos por motivo torpe, em retaliação ao tapa desferido pela vítima no retrovisor da viatura, empregando força letal contra pessoa que estava nitidamente alterada e desarmada, com evidente abuso de autoridade e inobservância dos procedimentos operacionais padrão”, escreveram os promotores.