João Cândido* era a única pessoa negra a liderar a superintendência de uma empresa estatal do setor nuclear, até a chegada de um novo diretor. Ele passou a ser perseguido, adoeceu e hoje busca reparação pelos danos sofridos

Comecei a trabalhar nessa empresa em 2013, depois de ser aprovado em um concurso público para auditor. Na época, não existiam nem cotas raciais. Participei do concurso em ampla concorrência, fiquei bem colocado e fui chamado. É uma empresa de grande porte do setor nuclear.
Em quatro anos, fui promovido e passei a ocupar funções de confiança. Durante duas diretorias, fui chefe de departamento. Depois disso, por escolha de um diretor, passei a ser responsável por uma das superintendências da empresa. A superintendência é o último nível antes das diretorias — e me tornei o único negro a ser superintendente. Não havia nenhum outro nesse cargo.
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Sempre me senti preparado para enfrentar desafios mais complexos e tive um histórico de avaliações excelentes, por diferentes chefes. Inclusive, eu e todos os líderes da empresa, que éramos mais de 100 pessoas, passamos por uma avaliação de uma consultoria internacional. Eu fiquei no primeiro quadrante de líderes: na 23ª colocação. Até hoje tenho os registros disso guardados.
O cargo de direção de uma empresa estatal é uma indicação política. Nesse período, passei por diversos governos: Dilma, Temer, Bolsonaro e agora Lula. Até que, em setembro de 2023, chegou esse novo diretor, o quarto com o qual lidei nesse período em que ocupei funções de confiança — vou chamá-lo aqui de Senhor de Engenho.
Tratamento hostil e assédio moral
A princípio, o Senhor de Engenho interagia até de maneira tranquila. Mas depois começou a fazer comentários depreciativos e ofensivos em reuniões, inclusive com o uso de termos chulos e palavras de baixo calão, que não condiziam com a posição de diretor. “Preciso falar com você, cacete. A desculpa do aleijado é a muleta. Olha como você escreve! Foda-se!”. Isso foi se prolongando, escalonando.
Quando ele chegou, a gente estava no meio da manutenção da planta industrial. O Senhor de Engenho passou então a fazer, nesse período, cobranças à minha área sobre coisas que não cabiam a ela, mas a outros departamentos. Ele insistia: “Não importa se as áreas interessadas não fornecem documentos necessários, você tem que se virar!”.
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Outra situação muito desgastante envolveu a concessão de um benefício para os funcionários de um determinado setor. Eu expliquei que bastava a assinatura dele em um documento, que aquilo era o suficiente, não havia impedimento legal. O que o Senhor de Engenho fez? Ele não confiou na informação. Fez diversas reuniões com a chefia do departamento envolvido, subordinada à mim naquela época, sem a minha participação, para ter um parecer do departamento jurídico, como se eu não estivesse agindo. Por fim, chegaram à mesma conclusão que eu já havia explicado.
Depois disso, ele passou a ocultar propositalmente informações que eram necessárias para executar tarefas importantes da minha superintendência. Ele começou também a me isolar: o Senhor de Engenho solicitava reuniões com os meus subordinados sem a minha participação. Esse assédio moral foi escalonando de tal forma — os episódios, a frequência deles, a hostilidade — até ficar insustentável.

Assessores de agressor revelaram ofensas racistas
Eu saí de férias entre dezembro de 2023 e janeiro do ano seguinte. No meu retorno, ele me destituiu do cargo de superintendente. Foi quando três assessores diretos do Senhor de Engenho vieram falar comigo. Tomei um susto, porque, até então, eu só tinha ciência do assédio moral. “A gente tem muita coisa para lhe falar. Vamos nos reunir com mais calma, mas se prepara porque são coisas muito pesadas. Vamos estar ao seu lado até o fim.”
Em fevereiro de 2024, esses três assessores formalizaram uma renúncia coletiva ao cargo. Eram pessoas-chave para o Senhor de Engenho, que ele queria manter, porque elas têm um conhecimento significativo da empresa. São funcionários com mais de 20, 30 anos de casa. Eles se reuniram então comigo depois dessa renúncia e me disseram que, em particular, o Senhor de Engenho fazia ofensas racistas a mim.
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“O trabalho do João Cândido está o samba do crioulo doido. É um serviço de meia tigela. O João Cândido tem o pé na cozinha.” Ele era muito hostil comigo, com comentários depreciativos, ofensivos, críticas desarrazoadas e desproporcionais. Mas ele nunca fez uma ofensa racial diretamente a mim. O Senhor de Engenho falava por trás.
Os assessores foram ouvindo essas falas racistas direcionadas a mim com uma frequência cada vez maior, com ele cada vez mais à vontade. Eu já imaginava que pudesse existir algo, porque, mesmo antes dos assessores passarem a ouvir isso, eles já me diziam que o Senhor de Engenho era muito mais hostil comigo. “Você é o superintendente que mais entrega, e o cara está te massacrando, tem algo estranho.”
Dois deles me entregaram o depoimento por escrito, formalizado, para que eu pudesse tomar a decisão que entendesse ser a melhor. Decidi não confrontar o Senhor de Engenho. Ele é uma pessoa extremamente influente. Para você ter ideia, eu já presenciei ele fazendo ligações para um ministro. Agora, ele está sendo cotado para o cargo de presidente da empresa, inclusive com apoio desse ministro. Então, eu fiquei quieto, tentei trabalhar aquela coisa na minha cabeça: “Essa pessoa vai passar, e eu vou seguir a minha vida na empresa”. Mas ele seguiu me perseguindo, e esse foi o problema — eu fui adoecendo com essa perseguição.

‘Nós, negros, vivemos em estado de alerta’
O Senhor de Engenho me pegou vulnerável no trabalho, porque eu achava que aquele era um local seguro. Eu tinha mais de 20 anos de iniciativa privada, passei por grandes empresas, bancos, consultorias internacionais, e nunca havia passado por esse tipo de coisa. Então, para mim, aquele era um local seguro. Eu estava de guarda baixa. Mas nós, negros, temos a consciência de que precisamos ficar em alerta.
Meu pai é músico, viveu a época da ditadura, sofreu repressão. Ele me alertava na infância sobre a questão racial, porque ele tinha sofrido muito, era de origem humilde. Ele cresceu em uma favela, viu e sofreu muita coisa. Então, veio daí esse meu despertar: “Presta atenção quando você entrar nos locais, porque eles acham que a gente não tem que estar ali. Eles vão se sentir incomodados e podem nos agredir verbalmente.” Não é de agora, entende? Isso é desde pequeno.
O negro anda em estado de alerta 24 horas por dia. Ele entra em uma loja e fica em alerta. Ele entra no restaurante, em um teatro, no cinema, e fica em alerta. E por quê? Porque tem pessoas que pensam que não podemos ocupar aquele espaço. A gente fica em um estado de alerta permanente, o que é extremamente cansativo. Muito, muito cansativo. A gente carrega isso a vida toda.
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Depois que eu fui destituído, eu fiquei 21 dias sem qualquer atividade, alocado na superintendência da qual eu tinha sido chefe, mas agora com uma outra pessoa à frente. Sem qualquer atribuição ou atividade. Foi uma conduta punitiva e vexatória para mim. Tentei voltar para a área de auditoria, para a qual havia sido aprovado no concurso e trabalhava antes de ter qualquer função de confiança, mas não consegui. A chefia de auditoria, cooptada por ele, chegou ao ponto de dizer que, para voltar, eu teria que fazer um processo seletivo. Na minha carteira de trabalho, o meu número CBO, relativo à classificação brasileira de ocupações, é de auditor. E eu não pude voltar à auditoria.
Acabei indo para uma outra área, porque um colega superintendente, que atuou comigo quando tínhamos o mesmo nível hierárquico, gostava do meu trabalho e me convidou. Ele não era subordinado ao Senhor de Engenho. Respondia a um outro diretor e me chamou porque sabia que eu era contador. Fiquei lá de fevereiro a dezembro de 2024, mas a campanha difamatória foi muito significativa. Havia uma recomendação dissimulada para que eu não fosse envolvido em atividades estratégicas. Eu ficava sabendo por papo de corredor: “Cara, cogitaram o seu nome para tal área, mas há empecilhos por parte do Senhor de Engenho.”
Vítima tenta se recuperar de adoecimento
Em dezembro, eu tive burnout. E sigo afastado até hoje, porque o agressor, o Senhor de Engenho, segue impune dentro da empresa. Não tenho condições de voltar. Passo por duas sessões semanais de terapia e tenho acompanhamento psiquiátrico. Uso dois tipos de ansiolíticos. Faço uso de remédios para dormir, para insônia. Nesse processo todo, tive compulsão alimentar. Ficava ansioso e não queria comer refeições, só doces. Então, entrei em um quadro de pré-diabetes e agora tomo medicamento para isso. Também tomo remédios para fomentar a produção de testosterona, porque a minha foi lá para baixo, e para controlar o meu colesterol, que foi lá para cima. Ainda tive vários danos pessoais.
A minha imagem, dignidade, intimidade, honra e integridade foram afetados. Passei a ter um retraimento absurdo no relacionamento com os colegas de trabalho. Eu vivia com vergonha. Como vou interagir com esse povo agora? Como? O Senhor de Engenho me difamou pela empresa toda. Tive uma redução drástica da minha capacidade laboral, entregava tudo com muito sacrifício.
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Vivi também uma degradação do meu relacionamento familiar. Passei a ficar irritado, intolerante com o meu filho e a minha esposa. Isso quase levou, ao final de 2024, à destruição da minha família.
Tive também danos materiais, porque precisei ficar um período internado em abril. Foram sete dias em uma clínica para tentar colocar o trem nos trilhos. O médico pediu que eu ficasse, porque passaria por diferentes terapias, iria também trabalhar a questão da socialização, da alimentação e da espiritualidade, além de ter contato com a natureza. Eu estava muito retraído, não queria receber ninguém, falar com ninguém. Não tinha força para nada. Fiquei meses com a cara para a televisão, sem querer levantar da cama. A minha família sofreu demais. Além da internação, eu tive despesas com remédios — uma parte é reembolsada, mas a outra não é. Tenho despesas também com os médicos.
De vez em quando, eu me vejo ansioso, depressivo. Às vezes, percebo que passei o dia todo sem comer nada. A minha esposa fica o tempo todo no meu pé: “Você está comendo pouco, só fez uma refeição hoje”. Esse processo de recuperação não é fácil.

‘Sabia que não poderia mais ficar calado’
Não quis procurar o compliance da empresa, porque as denúncias eram infrutíferas. As pessoas que testemunharam a meu favor são retaliadas até hoje: ele está abrindo contra elas comissões de sindicância sustentadas por narrativas distorcidas, em uma prática que especialistas chamam de “controle de retrovisor” — consiste em punir decisões tomadas há anos com base em interpretações e critérios inventados posteriormente, em uma tentativa de reescrever o passado sob novas lentes.
Vendo tudo isso, sinceramente, eu não teria motivo para me expor na empresa, a não ser procurar ajuda externa. Não procurei sequer a medicina do trabalho da empresa. Busquei tudo fora dela: psiquiatra, psicólogo, cardiologista, endocrinologista, vários especialistas, todos fora de lá.
Mas cheguei em um momento em que sabia que não poderia mais ficar calado. Foi quando eu entrei com uma ação na Justiça do Trabalho, para responsabilizar quem de direito. Está correndo tudo em segredo de Justiça, por isso evitei expor aqui nomes, inclusive o meu.
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Também entrei com uma denúncia no Ministério Público do Trabalho e uma outra no Ministério da Igualdade Racial, que foi automaticamente encaminhada à Controladoria-Geral da União. Pretendo tomar todas as medidas cabíveis, porque o que o Senhor de Engenho fez é crime e ele precisa ser responsabilizado. Ficar calado está me fazendo mal.
*O nome verdadeiro de João Cândido* foi preservado. Este texto tem como base um relato feito por ele ao repórter Paulo Batistella.
