Há 12 anos, a Ponte usa o jornalismo para denunciar violações de direitos, ampliar vozes invisibilizadas e produzir impacto em segurança pública e justiça

Em tempos de assédio judicial, queda de audiência e financiamento na corda bamba, é importante reafirmar o nosso propósito de existência. Há 12 anos, o compromisso da Ponte tem sido usar o jornalismo como ferramenta de defesa dos direitos humanos e ampliação do debate sobre segurança pública, justiça e, sobretudo, o direito à vida.
É lembrar, portanto, que, mesmo diante de inúmeros desafios e mudanças no cenário jornalístico, a Ponte segue fazendo o que faz de melhor: demonstrar as constantes violações do Estado, contrapondo a narrativa oficial — que vulnerabiliza, incrimina e violenta territórios e corpos — ao contar as histórias a partir da perspectiva de quem é invisibilizado pelo Estado, pela sociedade e pela imprensa hegemônica. É essa determinação que nos move e nos faz continuar acreditando no nosso trabalho toda vez que sofremos algum revés judicial ou há uma queda na nossa receita.
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Na conversa semanal sobre o tema dessa newsletter, um dos meus colegas fez uma analogia interessante: se estivéssemos na história de Davi e Golias, não seríamos nem o jovem pastor de ovelhas nem o guerreiro gigante. A Ponte é a pedra. Pequena em tamanho e infraestrutura, mas, quando lançada, tem um potencial de impacto que, por vezes, é subestimado como algo de “nicho”.
Não temos milhões em nossa conta, não temos bancos ou bets nos patrocinando e influenciando o que dizemos. O tamanho de nossa equipe deve ser algo como 0,01% da equipe dos grandes veículos do jornalismo nacional. E, ainda assim, somos nós que já contribuímos direta ou indiretamente com a soltura ou absolvição de mais de 100 pessoas inocentes que estavam presas injustamente.
Diariamente, por meio de diferentes canais, recebemos denúncias de diversos casos de violência policial, prisões injustas, violações no sistema prisional, casos de racismo, feminicídio e LGBTfobia e até denúncias fora de nosso escopo. São mães, esposas, irmãs, pais e filhos, lideranças e ativistas sociais que nos buscam porque conhecem ou ouviram falar do nosso trabalho. Denúncias que recebemos como profissionais, mas também como humanos que sentem e que buscam não perder a capacidade de sentir. Quem disse que estamos imunes à dor e à tristeza causadas pela violência?
Nesse processo, é preciso escutar quem entrou em contato conosco. Escutar mesmo, sem revitimizar, sem violentar e buscando informações que nos ajudem a entender como podemos ajudar. E, para isso, contamos com toda nossa corajosa e incansável equipe da redação, composta por dois repórteres e uma editora.
Ao longo do processo de apuração, nossos jornalistas leem todos os documentos disponíveis, como boletins de ocorrências, inquéritos e processos judiciais, muitos deles com milhares de páginas. É preciso conversar com as pessoas, sejam elas as vítimas, suas famílias, testemunhas, advogados, sempre de forma cuidadosa, entendendo o tempo, o medo e a ansiedade de cada humano. Ao longo do caminho, especialistas também são consultados e entrevistados para esclarecer conceitos e dados importantes. Buscamos os demais lados envolvidos, inclusive quem perpetrou a violência, geralmente o Estado.
Da Redação | O trabalho da Ponte incomoda e vai continuar incomodando
Só então o Paulo e a Mariana, nossa dupla de repórteres, vão sentar e escrever o texto que chega até você. Todas as informações precisam virar um texto claro que coloca a vítima no centro da história, com impacto e chamando as coisas pelo que elas são. Se o Estado mente, não vamos usar algum eufemismo como “faltou com a verdade”. Independentemente se o Estado é governado por este ou aquele partido.
Há reportagens que são revisadas pelos nossos advogados depois de terem passado pelo olhar minucioso da Catarina, nossa editora. É um processo longo na maioria das vezes, que pode ter idas e vindas. Um texto pode ser lapidado e reorganizado, fontes podem pedir para serem retiradas da matéria. Uma série de questões pode acontecer antes dele ser publicado.
Publicar uma reportagem não significa que vai chegar até você. Por isso, usamos as redes sociais e precisamos pensar estratégias para que o algoritmo entregue aos nossos seguidores. Nossa temática não ajuda isso acontecer com facilidade. O algoritmo não é um deus que decide o que aparece por si mesmo, mas ele é alimentado pela soma dos padrões de usuários. E, bem, a maioria das pessoas não vai consumir notícias ao seu bel-prazer. Desde a pandemia, pesquisas como a Digital News da Reuters apontam para um crescente perfil de “evitação de notícias” por boa parte da população no Brasil e em outros países. Pode imaginar que o tema da segurança pública está longe de ser o preferido da maior parte das pessoas.
Em uma pesquisa recente com 90 das 150 associadas, a Associação de Jornalismo Digital (Ajor) apontou que veículos têm ao menos oito plataformas para distribuir seu conteúdo. Aqui na Ponte, a gente tem apenas uma pessoa responsável por alimentar essas plataformas e propor estratégias de distribuição com o apoio da equipe. E é esta que vos escreve, prazer.
Grande parte desses dispositivos de distribuição de conteúdo tem algum algoritmo mediando o que é ou não entregue. Passamos pelo boom do Facebook e do Twitter. Hoje, o Instagram é uma forma de fazermos chegar o máximo de informação possível para o maior número de pessoas. Mais recentemente, a inteligência artificial também faz esse papel. Nos últimos meses, recebemos um grande número de acessos de bots que “raspam” informações do nosso site e entregam em segundos para alguém que está pesquisando sobre alguma temática relacionada ao nosso trabalho. Se compararmos os números de 2023, uma era “pré-IA” nas ferramentas de buscas, e 2025, um ano em que elas já estavam a todo vapor, os acessos caíram 38%. Há anos, mais de 60% dos acessos ao site vêm das ferramentas de busca.
Editorial | A Ponte Jornalismo muda. O compromisso permanece
Financiar uma operação jornalística pequena não é barato, mesmo a Ponte sendo uma organização sem fins lucrativos. A receita vinda de pessoas como você seja por meio do Tamo Junto, nosso programa de membros, ou doações, é volátil. A cada mês perdemos mais apoios do que ganhamos. A cada ano, existem menos oportunidades de financiamentos institucionais por organizações e fundações filantrópicas. Temos buscado apoio para projetos especiais, mas não são valores altos e funcionam apenas pelo tempo do projeto.
“Ah, mas para que vocês precisam de dinheiro?”, alguém pode perguntar. Bem, para pagar os nossos profissionais, afinal quem faz a Ponte Jornalismo são trabalhadores, pessoas com contas, familiares, problemas e sonhos, assim como são todos os outros trabalhadores. Também para manter nosso site funcionando de forma segura; para pagar a plataforma que faz este email chegar até você e as outras 4 mil pessoas inscritas nesta newsletter; para deslocar nossa equipe para cobertura de pautas, eventos e protestos; para pagar jornalistas freelancers que contribuem cada vez mais para nossa cobertura não focar apenas no Sudeste; para pagar os sistemas que mediam os apoios financeiros que recebemos; para pagar nossos advogados, nosso contador, o banco e todas as outras obrigações necessárias. Não há lucro em nossa operação: há a manutenção das atividades e o desejo incansável de querer expandir, trazer mais gente para somar conosco, executar mais projetos especiais, de contar mais histórias por todo o país.
Artigo | Por que a Ponte escreve “jovem negro morto pela PM” — e vai continuar a escrever
Como cereja do bolo, temos processos judiciais para lidar. Atualmente, uma das muitas formas de tentar calar a imprensa (a que incomoda e não é acomodada) é entrar com uma ação, mesmo que a reportagem cite os atos de uma pessoa baseada em processos criminais e inquéritos públicos, em provas documentadas. Sempre vai haver quem parta para o caminho da judicialização. Graças aos nossos advogados e ao trabalho cuidadoso dos repórteres de hoje e de ontem, ganhamos mais processos do que perdemos. Mas, quando perdemos, depois de transitar em julgado sem nenhuma chance de algum outro recurso, vão-se valores equivalentes a um ano de salário de um profissional que poderia nos apoiar.
Mesmo diante de tudo isso, nós continuamos. E, como somos um grupo de pessoas teimosas, vamos continuar. Cuidando uns dos outros, enquanto pessoas e profissionais, fazendo nosso trabalho com sensibilidade e rigor, sem perder a capacidade de ouvir e de acreditar que fazemos a diferença. Afinal, algumas pedras são bem duras, apesar das intempéries.
Este texto chegou primeiro para quem assina a “Sete Dias”, a newsletter da Ponte. Todo sábado, enviamos reflexões sobre segurança pública e uma curadoria de reportagens relevantes, produzidas pela própria Ponte ou por outros veículos. Você pode se inscrever clicando aqui.
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