Policiais foram denunciados por homicídio qualificado. Investigação aponta ligação deles com rede de agiotagem e outros assassinatos na região

A Justiça de São Paulo recebeu denúncia apresentada pelo Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP), tornou réus e decretou a prisão preventiva de dois policiais militares e um ex-PM acusados da morte de Jefferson Caetano Barbosa, 26 anos, em São José do Rio Preto, no interior do estado. Segundo a investigação, os agentes teriam sido contratados por uma traficante para cometer o crime.
São alvo da prisão preventiva o sargento Rafael Soares e o cabo Felício Pereira Alonso Soler, ambos do 52º BPM/I, em Mirassol, além do ex-policial Alan Victor Soares, que ocupava posto de segundo sargento no 8º BPM/I, de Campinas, até pedir exoneração em novembro de 2023. Alan e Rafael são irmãos.
Leia também: Cidade no interior de SP tem cinco PMs presos por suspeita de agiotagem e execução de rivais
Jefferson foi morto em março de 2023, com disparos de espingarda calibre 12 e pistola 9mm, quando caminhava na rua. De acordo com a investigação, ele era traficante e disputava território com Bianca Nogueira Meireles, também identificada como traficante. A rivalidade entre os dois já havia resultado em ameaças e até uma tentativa de homicídio contra Bianca.
Bianca teria contratado Alan para executar Jefferson em vingança pela morte do marido, assassinado em 2022. O crime teria contado com a ajuda de Rafael e Felício. Jefferson chegou a relatar ao irmão que vinha sendo procurado por policiais do Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep).
O trio foi denunciado pelo MP-SP por homicídio qualificado mediante pagamento ou promessa de recompensa e por recurso que dificultou a defesa da vítima. A apuração avançou a partir do relato de uma testemunha que identificou o carro usado no crime, um Gol azul. Com apoio de câmeras de segurança, a Polícia Civil descobriu que o veículo era roubado. Dois meses depois, o automóvel foi encontrado carbonizado na zona rural de Bady Bassit, região metropolitana de Rio Preto.
Leia também: ‘Alívio’, diz viúva de marceneiro negro após prisão de PM réu pela morte
Dentro dele havia materiais de uso da Polícia Militar, como parte de granadas de gás lacrimogêneo, cartuchos de festim calibre 7,62 e estojo de munição pertencente ao Comando de Policiamento do Interior — o que reforçou a suspeita de envolvimento de PMs.
A investigação também mostrou que Felício já havia sido flagrado usando o Gol em novembro de 2022, oito meses após o furto e quatro meses antes do homicídio. Na ocasião, ele teria ameaçado e agredido civis com uma arma de fogo e um facão, comportamento apontado como “indicativo de personalidade agressiva”.
Felício possuía armas compatíveis com as usadas no assassinato: uma espingarda calibre 12 e um revólver calibre 38 (com projétil de diâmetro semelhante ao 9mm). A perícia encontrou sangue humano na espingarda, enquanto o revólver não foi localizado, e o PM não soube explicar seu paradeiro. No Gol incendiado, foi achada ainda uma peça de um fuzil Taurus calibre 5,56mm, registrado em nome do cabo.
Outro elemento decisivo foram as informações telemáticas — registros de chamadas e dados de GPS — que confirmaram que Felício, Alan e Rafael estavam juntos no horário e local do crime. Para a Justiça, a tentativa de destruir provas, como a queima do carro, também justificou a decretação da prisão preventiva.
Conexão com esquema de agiotagem
Os três réus fazem parte de um grupo maior de policiais investigados em São José do Rio Preto por envolvimento em uma rede de agiotagem, lavagem de dinheiro, ameaças e assassinatos de rivais. Cinco PMs foram presos no intervalo de um mês.
Quatro deles foram detidos em 17 de maio, na operação Aequitas, da Corregedoria da PM: o sargento Saint Clair Soares e o cabo Carlos Henrique da Cruz Cândido, do 17º BPM/I; além de Rafael Soares e Alan Victor Soares. Já o cabo Felício Pereira Alonso Soler foi preso em 17 de junho. Um sexto PM, soldado do 17º BPM/I, também é investigado.
As investigações tiveram início após denúncias de testemunhas protegidas, que apontaram a parceria dos policiais com agiotas para ameaçar devedores e a participação em pelo menos seis homicídios em 2023. O primeiro deles foi a morte de Jefferson. Outros crimes com características semelhantes também levantaram suspeitas: em 9 de novembro, Kleber Lucio Souza de Oliveira foi morto a tiros de fuzil; em 16 de novembro, Tiago José Rocha foi executado ao sair de uma boate, em crime supostamente encomendado por um agiota; em 30 de dezembro, José Rodrigues de Souza Oliveira foi assassinado por atiradores em uma moto sem placa.
Também são apurados os homicídios de Diego Ermenegildo de Souza, dono de uma borracharia, e de Jefferson Cristiano de Souza, morto com 30 tiros em 22 de dezembro após ter o condomínio invadido.
Assine a Newsletter da Ponte! É de graça
Para os investigadores, todos esses casos podem estar relacionados ao grupo de policiais e ao esquema de agiotagem.
O que dizem as autoridades
A Ponte entrou em contato com a Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) e com os advogados dos citados. Apenas os advogados de Felício Soler responderam. Em nota, Luciano Macri Neto e Augusto Cunha Junior afirmam que todas as manifestações relevantes já estão nos autos do processo, sob análise do Judiciário, sem antecipar detalhes à Ponte. Eles destacam que a acusação se baseia em versões contraditórias e ainda não comprovadas, e que atuam para garantir uma análise técnica e imparcial. Quanto às medidas cautelares, a defesa segue todos os procedimentos legais, preservando direitos e a dignidade do réu, que continua colaborando com a Justiça.
Já a defesa de Alan Victor, representada pelo advogado Mauro Ribas, afirmou que o cliente é inocente das acusações e que apresentará provas nesse sentido ao longo da ação penal.
Os demais não haviam retornado até a publicação do texto. Caso respondam, a matéria será atualizada.
