Em ato na segunda-feira (25/8), moradores da comunidade do Parque do Gato, na região central de São Paulo, denunciam que homem de 39 anos foi morto por PMs embaixo de um viaduto sobre o Rio Tamanduateí. Eles negam ter havido confronto

Moradores da comunidade do Parque do Gato, na região central de São Paulo, realizaram um protesto contra a violência policial na segunda-feira (25/8). Eles relatam que a Polícia Militar paulista (PM-SP) tem atuado no local com truculência crescente, em meio ao aumento do número de usuários de drogas na região desde o esvaziamento da Cracolândia. No sábado (23/8), um homem foi morto a tiros por policiais militares na comunidade — no que a vizinhança afirma ter sido uma execução.
A vítima é Luis Carlos de Souza, o Chuka, de 39 anos. Apesar de não viver no local, ele o frequentava por ter amigos ali e morar em uma rua próxima, no bairro do Bom Retiro. Na ocasião em que foi morto, Luis estava com outras pessoas nos fundos da comunidade — o Parque do Gato engloba um conjunto habitacional de prédios próximo à Avenida do Estado cercado por uma pequena favela, limitada pelo Rio Tamanduateí. Policiais militares teriam chegado ao local já atirando, quando o homem correu para debaixo de um viaduto da Marginal Tietê que atravessa o rio e acabou atingido.
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Estiveram envolvidos na ocorrência os policiais Marco Antonio Manuel, que portava uma espingarda Benelli calibre 12, e Willian Firmino Seffrin, com uma pistola Glock .40. No local da morte, foram recolhidos dois estojos de munição da primeira arma e outros três da segunda.
A versão dos policiais, registrada em um boletim de ocorrência, narra que, por volta das 12h10 daquele dia, durante uma incursão na comunidade, “visualizaram um indivíduo armado”, quando passaram a segui-lo a pé. O suspeito, que seria Luis, teria então apontado a arma para eles, que “reviradam a injusta agressão”. A arma de fogo apreendida é um revólver Taurus calibre 32 com numeração raspada e dois cartuchos “picotados” — característica de disparos que falharam —, além de outros três íntegros.

Mãe diz que filho foi jurado de morte e arma foi plantada
A mãe de Luis, Adila Souza, diz que essa versão é mentirosa e que o filho havia sido jurado de morte anteriormente por ter questionado a truculência da PM-SP na comunidade — em caso noticiado pela Ponte em abril no qual uma mulher grávida foi repreendida com spray de pimenta por policiais. “Meu filho saiu correndo e o alvo era ele. Eles atiraram no meu filho pelas costas”, afirma a mãe.
Para ela, o revólver supostamente encontrado com Luis foi plantado pelos PMs. “Meu filho nunca andou nem com uma agulha no bolso. Dizer que ele estava armado? Nunca”, diz ela. “Meu filho nunca pegou em uma arma, isso eu garanto. Às vezes, o meu marido até falava: ‘Vou comprar uma arma para me defender de bandido’. E ele falava: ‘Nossa, Deus me livre’. Ele tinha medo.”
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A familiar, assim como outros moradores da comunidade, conta que os policiais envolvidos na ocorrência ainda adiaram o socorro à vítima por horas, enquanto uma ambulância permaneceu parada na parte de cima do viaduto, até levar Luis à Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) Vergueiro — ele chegou ao local como indigente, por não portar documentos pessoais. “Eles não deixaram ninguém chegar perto, gritavam que iam meter bala se alguém chegasse perto”, diz Adila.

Protesto terminou com tensão após nova incursão da PM
O protesto ocorrido em memória de Luis, que era natural de Porto Velho (RO) e deixou um filho de três anos de idade, interrompeu o trânsito da Avenida do Estado por cerca de uma hora na segunda-feira, a partir das 18h30. A PM-SP acompanhou o ato e, depois de encerrado, sem que houvesse confronto, fez uma incursão em vielas da comunidade.
Houve tensão diante da investida da PM-SP, já que têm sido recorrentes operações no Parque do Gato com abordagens que os moradores denunciam ser abusivas e danos a imóveis durante buscas dos policiais. Segundo foi relatado à Ponte, tornou-se rotina, por exemplo, ter uma janela quebrada quando não se está em casa ou sofrer ameaças dos agentes. No dia seguinte ao protesto, houve outra operação.
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A impressão na comunidade é de que a piora da truculência teve início em maio, ocasião em que o fluxo da Cracolândia antes concentrado na Rua dos Protestantes, próximo à estação da Luz, foi disperso para vários outros pontos da região central de São Paulo — o entorno do Parque do Gato é um deles.
Moradores teriam passado a ser acusados indiscriminadamente por policiais e guardas civis de ter envolvimento com o tráfico de drogas no local. Além disso, quem vive na região também tem sido alvo de pequenos furtos e roubos com a maior presença de usuários de drogas.

O que dizem as autoridades
A Ponte questionou a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) sobre as circunstâncias da morte de Luis e os relatos de violência policial na comunidade. Em resposta, a pasta encaminhou uma nota que repete a versão dos PMs registrada no boletim de ocorrência do caso.
“A autoridade policial solicitou exames periciais ao IC e ao IML e o caso foi registrado como morte decorrente de intervenção policial no Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). As investigações também são acompanhadas pela Polícia Militar”, escreveu ainda no comunicado.
A reportagem também buscou um posicionamento do Ministério Público paulista (MP-SP), órgão ao qual cabe constitucionalmente o controle externo das polícias. “Até o momento o caso não foi relatado ao MPSP”, comunicou em resposta.
Leia a íntegra da nota da SSP-SP
Um homem, ainda não identificado, morreu após resistir à abordagem policial, por volta do meio-dia deste sábado (23), nas proximidades da Av. Presidente Castelo Branco, no bairro do Bom Retiro, no centro da capital paulista. Policiais militares realizavam uma incursão em uma comunidade no endereço citado quando viram o suspeito armado, que apontou na direção dos militares. Os agentes intervieram e o homem não resistiu e faleceu. Com ele, foi apreendido um revólver calibre 38. As armas dos policiais também foram apreendidas. A autoridade policial solicitou exames periciais ao IC e ao IML e o caso foi registrado como morte decorrente de intervenção policial no Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). As investigações também são acompanhadas pela Polícia Militar.
