Moradores fizeram ato esta manhã (7/10), contra ação com retroescavadeira e presença da PM, que desrespeita acordo que prevê demolição apenas após a saída da última família, e apontam risco estrutural nas casas geminadas

Moradores da favela do Moinho, no centro de São Paulo, realizaram uma manifestação na entrada da comunidade nesta terça-feira (7/10) contra a derrubada de casas. A ação foi uma resposta à tentativa da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU) de entrar com uma retroescavadeira e um trator no local. Os funcionários estavam acompanhados por policiais militares.
A manifestação se estendeu até por volta das 10h30, quando os moradores encerraram a mobilização na entrada da comunidade. No mesmo horário, as retroescavadeiras da CDHU e os policiais militares que acompanhavam a ação também deixaram o local, e não devem ocorrer demolições ao longo do dia.
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Durante o ato, representantes da associação de moradores afirmaram à Ponte que não buscavam confronto nem pretendiam atrapalhar o trabalho de descaracterização de imóveis, mas reforçaram que não aceitariam a derrubada das casas. Segundo moradores, técnicos da companhia chegaram a afirmar que, se necessário, usariam a força policial para garantir a passagem das máquinas.
“Viemos aqui para a frente pra poder impedir o trator de entrar. Tentamos conversar de forma amigável, mas eles já falaram que, se for preciso, vão usar a força policial contra a gente e invadir com o trator, passando por cima das casas”, contou Alessandra Aparecida da Silva, moradora e integrante da associação da comunidade. Ela destacou que a medida viola o acordo firmado entre os governos federal e estadual. “O combinado foi que só depois que a última família saísse eles poderiam mexer. No entanto, era só para descaracterizar, e não passar o trator igual eles estão fazendo.”
Acordo e risco estrutural
O acordo ao qual Alessandra se refere foi firmado quando União e Estado anunciaram a entrega de casas gratuitas aos moradores da comunidade. O governo Lula havia afirmado que a demolição completa das casas só ocorreria após a saída da última família.
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A associação de moradores insistiu nessa cláusula porque a maioria das construções do Moinho é geminada, o que faz com que a destruição de um imóvel afete diretamente a estrutura do vizinho.
“Ainda tem muitas famílias aqui e eles estão demolindo as casas que são geminadas. Quando derrubam uma, afeta a do lado, inclusive a minha. Eles deixaram o muro da creche demolido, e as crianças têm um campinho para brincar ali. Elas podem passar para aquela parte e se machucar gravemente. A responsabilidade é da CDHU”, disse Alessandra.
Atrasos da CDHU
Outra moradora, Aline Sandra, afirmou que a própria companhia tem atrasado o processo de saída das famílias. “As pessoas não saíram ainda por conta da própria CDHU estar impedindo, com documentação e vistorias pendentes. Às vezes a pessoa já quer ir diretamente para o seu apartamento, já está prestes a mudar, e eles adiam as datas.”
Segundo ela, “fica impossível sair porque o pessoal não quer auxílio-aluguel, o pessoal quer ir diretamente para a moradia. Se já está tudo ok, o que está impedindo do pessoal já ir diretamente para o seu apartamento escolhido?”.
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Em reportagem recente, a Ponte mostrou que há casos em que moradores chegaram a ser reconhecidos pelo CDHU como proprietários de imóveis na comunidade, mas, após o acordo para moradias gratuitas, enfrentaram dificuldades para garantir a carta de crédito.
O que dizem as autoridades
A Ponte procurou a CDHU para questionar a ação desta terça-feira e se ela fere o acordo com o governo federal. Também foram enviados questionamentos ao Ministério das Cidades, responsável pela interlocução do pacto, e à Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) sobre a presença da PM no local.
Em nota, a SSP-SP informou que a presença da PM integra o acompanhamento da “desmobilização voluntária que vem sendo realizada há alguns meses no local”.
Os demais não responderam. Caso haja retorno, o texto será atualizado.
*Com colaboração de Caio Castor
*Matéria atualizada em 7/10, às 13h40, para incluir a nota da SSP-SP.