Moradores do Parque do Gato temem retaliação após policial civil ser morto em briga

    Comunidade na região central de SP protestou semana passada contra violência policial, dias depois de um homem ter sido morto pela PM-SP. Caso atual envolvendo policial civil causa temor mesmo sem ligação com episódio anterior

    Moradores da favela do Gato, em São Paulo, realizaram um protesto contra a violência policial semana passada, dois dias depois de um homem ter sido assassinado pela PM-SP no local | Foto: Luca Meola/Ponte Jornalismo

    Moradores da comunidade do Parque do Gato, na região central da cidade de São Paulo, temem sofrer retaliação das forças de segurança após um policial civil ter sido morto no local na noite desta terça-feira (2/9). A localidade já vinha sofrendo uma escalada da violência policial, que culminou, há pouco mais de uma semana, no assassinato de um homem por ação da Polícia Militar paulista (PM-SP).

    A vítima fatal mais recente é o policial Caio Bruno, integrante do Departamento Estadual de Investigações sobre Entorpecentes (Denarc) — o órgão da Polícia Civil está sediado a pouco menos de um quilômetro do Parque do Gato. Não há, no entanto, relação aparente entre os dois casos.

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    Caio foi morto linchado a pauladas e chutes dentro de um dos prédios da comunidade, conforme apurou a Ponte — o Parque do Gato engloba um conjunto habitacional próximo à Avenida do Estado cercado por uma pequena favela, limitada pelo Rio Tamanduateí.

    Caio Bruno posa para foto em frente à Academia da Polícia Civil, no bairro do Butantã, SP | Foto: Reprodução

    SSP-SP não explica motivo de ida do policial à comunidade

    A vítima teria chegado ao local sozinho e sem identificação de policial, ocasião em que teria tentado invadir um imóvel. Iniciou-se ali uma briga, na qual o agente deu um tiro na perna de um morador. Ele teria sido então agredido até a morte por um grupo de pessoas revoltadas com a investida. O corpo de Caio Bruno foi encontrado com sinais de espancamento e o rosto desfigurado.

    A Ponte questionou a Secretaria da Segurança Pública paulista (SSP-SP) se o policial estava em serviço na comunidade, uma vez que não vivia ali. A pasta não esclareceu o motivo da presença dele no local, limitando-se a comunicar que um homem foi preso em flagrante por envolvimento no ocorrido — além de outros seis suspeitos terem sido detidos e conduzidos ao Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), responsável pelas investigações.

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    Não houve até aqui manifestação sobre o caso por parte do secretário da Segurança Pública, Guilherme Derrite (PL), assim como do secretário-adjunto Osvaldo Nico, que é delegado de carreira, e do delegado-geral da Polícia Civil, Artur Dian. O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) também não falou publicamente do episódio.

    O Sindicato dos Investigadores de Polícia do Estado de São Paulo (Sipesp) divulgou uma breve nota de pesar: “O Sipesp se solidariza com familiares, amigos e colegas de trabalho da vítima neste momento de dor e reafirma seu compromisso em acompanhar de perto o caso.”

    Comunidade já mantinha alerta contra violência policial

    Desde a madrugada desta quarta (3/9), quando o corpo de Caio Bruno foi encontrado pela PM-SP, vários policiais estiveram no Parque do Gato, conduzindo especialmente trabalhos de perícia. A sensação no local, conforme relato feito à Ponte, é de estado de choque e de receio dos moradores com a situação. “A gente avisou a comunidade para ficar nas suas casas quando tiver polícia, evitar sair, porque a gente não sabe qual vai ser a reação deles”, disse uma liderança comunitária.

    No último dia 25 de agosto, a comunidade havia realizado um protesto contra a violência policial, dois dias depois de um homem identificado como Luis Carlos de Souza, de 39 anos, ter sido morto a tiros por PMs — no que a vizinhança afirma ter sido uma execução. Apesar de não viver no local, a vítima o frequentava por ter amigos ali e morar em uma rua próxima, no bairro do Bom Retiro.

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    Na ocasião em que foi morto, Luis estava com outras pessoas nos fundos da comunidade, no limite dela com o Rio Tamanduateí. Policiais militares teriam chegado ao local já atirando, quando a vítima correu para debaixo de um viaduto da Marginal Tietê que atravessa o rio e acabou atingida. Os PMs alegaram que o homem estava armado, o que a mãe dele, ouvida pela Ponte, afirma ser mentira.

    Ainda antes do ocorrido, vinham sendo recorrentes operações na comunidade, em especial da Força Tática da PM-SP, com abordagens que os moradores denunciam ser abusivas. A impressão na localidade era de que a piora da truculência teve início em maio, ocasião em que o fluxo da Cracolândia antes concentrado na Rua dos Protestantes, próximo à estação da Luz, foi disperso para vários outros pontos da região central de São Paulo — o entorno do Parque do Gato é um deles.

    Moradores teriam passado a ser acusados indiscriminadamente por policiais e guardas civis de ter envolvimento com o tráfico de drogas no local. Além disso, quem vive na região também tem sido alvo de pequenos furtos e roubos com a maior presença de usuários de drogas.

    Leia a íntegra do que diz a SSP-SP

    Um homem foi preso em flagrante por envolvimento na morte do policial civil Caio Bruno, lotado no Departamento Estadual de Investigações sobre Entorpecentes (Denarc). Outros seis envolvidos foram detidos e conduzidos ao DHPP, onde a ocorrência está sendo registrada.

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