Motos e fuzis contra furtos: novo batalhão da PM de SP é eleitoreiro e ineficiente, apontam especialistas

Chamado de BRAvo, policiamento lançado pela Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP) prevê patrulhamento ostensivo com policiais portando armamento pesado em ruas movimentadas da capital paulista. Medida foi lançada a 11 dias das eleições e está no plano de governo do candidato à reeleição Tarcísio de Freitas

Policiais militares saíram da Praça da Sé portando fuzis durante o primeiro dia de operação do novo batalhão da PM
Policiais militares saíram da Praça da Sé, no centro de São Paulo, portando fuzis durante o primeiro dia de operação do novo batalhão da PM | Foto: Secretaria da Segurança Pública de São Paulo/Divulgação

Resumo

Lançado a 11 dias das eleições, o novo batalhão da PM de São Paulo reúne 250 policiais e 150 motocicletas para combater roubos e furtos, com agentes portando fuzis em ruas movimentadas da capital.
Especialistas ouvidos pela Ponte questionam a eficácia da medida, apontam riscos à população e criticam a aposta no policiamento ostensivo em vez de inteligência e investigação.
A iniciativa ocorre em um estado onde a letalidade policial cresceu 98,1% entre 2022 e 2025. A SSP não respondeu aos questionamentos sobre os protocolos de uso dos fuzis.

Motos e fuzis. Foi dessa forma que o governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) resolveu agir para coibir roubos e furtos na capital, sobretudo de aparelhos celulares, a exatos 11 dias das eleições. O novo Batalhão de Resposta Avançada Operacional (BRAvo), da Polícia Militar, foi lançado na última terça-feira (22/9), reunindo 250 policiais e 150 motocicletas.

De acordo com o governo estadual, o uso das motocicletas permite às equipes driblar os grandes congestionamentos e acessar vias onde veículos de quatro rodas têm mobilidade reduzida. Entre os problemas mais citados está a ação das chamadas “gangues quebra-vidro”, que atuam sobretudo no centro da capital.

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Para especialistas ouvidos pela Ponte, no entanto, o novo batalhão representa um retrocesso diante da nova realidade da segurança pública urbana, que exige menos ostensividade e mais inteligência e investigação. Para eles, a iniciativa é “eleitoreira” e pode elevar ainda mais a letalidade policial no estado, que cresceu durante o governo Tarcísio.

Segundo dados da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), 834 pessoas foram mortas por policiais em 2025, contra 421 em 2022, último ano antes de Tarcísio chegar ao poder, hoje candidato à reeleição. O número representa um aumento de 98,1% no período. 

“Estão noticiando que no primeiro dia, pegaram um celular, pegou alguém, isso para São Paulo é uma gota d’água no oceano, entendeu? É mais para demonstrar pra população que eles têm autoridade. E não tenho dúvida que é por causa das eleições, porque eu acho que esse tipo de coisa é inviável”, descreve José Pedro Neto, vendedor de água no Brás e membro do Fórum dos Ambulantes de São Paulo.

“Se eles querem mesmo combater o crime de roubo, tem que ir nas fontes que compram essas coisas, fazer uma investigação, saber pegar. Não é atirando e correndo de moto”, completa o trabalhador.

Novo batalhão da PM é alvo de críticas por parte de especialistas em segurança pública | Foto: Secretaria da Segurança Pública de São Paulo/Divulgação

Novo batalhão no Plano de Governo

O batalhão é citado no plano de governo de Tarcísio, protocolado no mês passado na Justiça Eleitoral. No documento, o candidato à reeleição, afirma que o policiamento ostensivo e o batalhão especializado de motocicletas acompanham “a transformação da dinâmica urbana das últimas décadas”, em “momentos com grande deslocamento de pessoas, nos parques, comunidades e ambientes de difícil acesso”

A SSP, no entanto, garante que não há relação com o período eleitoral: Segundo a secretaria, o programa vem sendo planejado desde março, e que os policiais vêm sendo treinados desde abril.

Apesar do recuo da taxa geral de roubos e furtos na cidade, o medo da violência entre os paulistas ainda atinge 47% da população, segundo pesquisa Datafolha publicada em julho. Eram 57% em 2022.

“Parece bastante estratégico que isso tenha sido lançado agora. Uma foto com duas policiais numa moto, um deles portando um fuzil, e essa foto circula em vários veículos da imprensa, mostrando que, de fato, é uma medida que tem impacto político”, reflete o pesquisador Almir Felite, autor do livro História da Polícia no Brasil: Estado de exceção permanente?(Autonomia Literária, 2023).

O uso de fuzis nas ruas

No dia seguinte ao lançamento do BRAvo, a SSP-SP divulgou o saldo do primeiro dia de operação, que incluiu a captura de um procurado pela Justiça e a apreensão de um celular roubado. O comunicado enviado pelo órgão também apresenta um vídeo do momento em que os PMs saem na Praça da Sé em motocicletas, alguns deles em duplas e portando armamento pesado. Das 150 motocicletas do novo batalhão, 16 terão dois policiais no mesmo veículo.

Jacqueline Sinhoretto, pesquisadora do Grupo de Estudos sobre Violência e Administração de Conflitos da Universidade Federal de São Carlos (GEVAC/UFSCar), afirma a que estratégia de empregar armamento de alto poder de fogo em regiões movimentadas da capital não é eficaz e pode expor a população ao risco.

“Você coloca o policial de moto, o que significa que você está prevendo uma ação de mais proximidade, mas você dá um armamento de alto poder de fogo. Então, há uma contradição”, analisa Sinhoretto. “São duas lógicas de policiamento totalmente diferentes. Ou ele está usando uma arma de guerra ou ele está num policiamento de proximidade. Não é para usar armamento de guerra nesses lugares”, completa.

No Brás, José Pedro Neto foi um dos trabalhadores que presenciou a morte do ambulante senegalês Ngagne Mbaye em abril de 2025,  baleado por um policial militar durante uma abordagem. O trabalhador acredita que, embora haja uma alternância no espectro político dos governantes, a violência da Polícia Militar continua crescendo.

Senegaleses protestam contra a morte do trabalhador ambulante Ngagne Mbaye, atingido por um PM no Brás  | Foto: Daniel Arroyo

De acordo com o trabalhador, a repressão ostensiva e o uso de fuzis por policiais já eram uma realidade no Brás mesmo antes da criação do novo batalhão, inclusive contra ambulantes.  Por vezes, segundo ele, os policiais da Operação Delegada chegam antes do rapa, como é chamada a apreensão de mercadorias pela Prefeitura de São Paulo. 

“Todos os dias trabalhadores no Brás perdem suas mercadorias .Eu acho que não faz nem uns 20 dias, eles vieram com essas armas grandes, eles correram atrás dos ambulantes, apontando a arma para as pessoas. E só depois disso foi que eles chamaram o rapa para atuar. Ou seja, a polícia hoje, em nome da Operação Delegada, atua independente da fiscalização”, conta.

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Já Felite enumera outros casos em que o uso de fuzis em ambientes de alta densidade populacional provocou mortes durante operações policiais no governo de Tarcísio.

“Nós já tivemos aqui em São Paulo casos muito tristes, na operação Verão, na operação Escudo, até com crianças perdendo as vidas por conta desse uso indiscriminado de armamento pelas instituições policiais numa suposta ação de combate ao crime. E é muito preocupante ver que mesmo com esses problemas já tendo acontecido em São Paulo, o governo tente ainda continuar a sua aposta nesse tipo de política. ”, afirma.

A SSP não respondeu aos questionamentos da Ponte sobre os protocolos para o uso de fuzis pelos policiais do novo batalhão.

Falta de inteligência

Segundo a SSP-SP, a distribuição das equipes do BRAvo se guia pelos dados de inteligência criminal e pelas informações da Muralha Paulista. A partir da análise das “manchas criminais”,  os efetivos se concentram nos locais com maior incidência de roubos e furtos.

Almir Felite considera essa estratégia é limitada. “Uma das questões centrais da implementação dessa nova patrulha, desse novo batalhão, é o uso de mapas de calor. Eles falam no uso de inteligência policial para ver as áreas onde o crime mais acontece. E isso já sabidamente em vários lugares do mundo foi aplicado e por muitas e muitas vezes o que acontece é uma flutuação só temporária dessa criminalidade”, reflete.

Para o pesquisador, o novo batalhão investe justamente na face mais superficial e que menos se beneficia financeiramente da estrutura ilegal de roubo de celulares: as ocorrências nas ruas. Segundo ele, há alternativas mais eficazes, como o foco na receptação, que conseguem atingir a “dimensão organizada” do crime. 

No dia 10 de setembro, por exemplo, uma operação conjunta do Ministério Público e da Polícia Civil, resultado de sete meses de investigação, prendeu 15 pessoas e apreendeu cerca de 10 mil celulares sem nota fiscal em São Paulo. A apuração identificou uma cadeia que começava com roubos e furtos e passava por invasão de aplicativos, adulteração de IMEI, oficinas clandestinas e emissão de notas fiscais falsas para recolocar os aparelhos no mercado.

“Não é nada novo o que está sendo implementado e já vimos esses erros acontecerem em muitos lugares”, reflete. 

Modelo defasado

Para Jacqueline Sinhoretto, o avanço da sociedade digital vem provocando um revés no modelo de segurança pública adotado pelos governos nos últimos 40 anos, historicamente focado na presença ostensiva de policiais nas ruas.

Segundo a pesquisadora, esse modelo de segurança pública também produziu um crescimento das polícias militares, enquanto as polícias civis e as polícias técnicas passaram por um processo de “encolhimento”, como no caso de São Paulo. Como consequência, ela afirma que a maior parte das prisões realizadas atualmente no Brasil não resulta de investigações conduzidas pelas polícias civis, mas de prisões em flagrante realizadas pela Polícia Militar.

“De um lado, então, aumentou a capacidade da polícia militar de chegar mais rápido na ocorrência de crimes. De outro, diminuiu a capacidade das polícias civis de fazer investigação que levam à prisão de criminosos. Com menos investigação e mais policiamento de rua, temos hoje o aumento do ingresso de pessoas negras nas prisões em relação a pessoas brancas”, opina Sinhoretto.

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O foco no policiamento de rua sem aprimorar a capacidade de investigação de crimes aumentou, na visão de Sinhoretto, a desigualdade racial na segurança pública e agora facilita os crimes digitais. “O que está aumentando não é o crime de rua, o que está aumentando é o crime digital. E o policiamento de rua não vai combater o crime digital. Não é o fuzil que vai combater e nem a moto. Crime digital ele vai ser combatido em ambiente digital”, assinala.

“Claro que outros crimes de rua continuam acontecendo, mas em menor frequência. Então, no médio prazo, nós precisaremos menos dos policiais de rua, fardados e armados e precisaremos mais de especialistas em sistemas e transmissão de dados”, completa.

Roubos e letalidade policial

A estratégia de empregar policiais com fuzis em motocicletas chama a atenção em um estado que registra elevados números de mortes decorrentes de intervenção policial. Entre janeiro de 2013 e julho de 2026, foram registradas 10.155 mortes desse tipo no estado de São Paulo. A Polícia Militar aparece envolvida em cerca de 95,1% dos casos, com 9.656 registros.

Ao mesmo tempo, na capital, os roubos de celulares caíram 15%, passando de 70.480 em 2024 para 59.729 em 2025, segundo a SSP. 

“Às vezes a polícia mata mais, às vezes a polícia mata menos. E isso não corresponde à curva de ocorrência de crimes, isso corresponde às políticas internas da própria polícia e as políticas da Secretaria de Segurança Pública no sentido de aumentar a fiscalização do agente que está na rua ou de afrouxar essa fiscalização”, analisa Felite.

Para José Pedro, a violência policial persiste apesar da alternância de governantes.

“Lógico que você combate o crime organizado, a violência, com investigação, mas se não modular também a doutrina da Polícia Militar para o povo pobre, preto, trabalhador, a coisa fica do mesmo jeito, entendeu?”. opina.

Investimento em efetivo e câmeras corporais

O novo batalhão da PM foi formado a partir da transferência de pequenos efetivos de diferentes unidades da Polícia Militar, entre elas a Rádio Patrulha com Motos, a Rocam (Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas) e as Forças Táticas. Até o fechamento desta reportagem, a SSP não havia informado quanto investiu na criação do batalhão.

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A secretaria afirma que todos os policiais em serviço no BRAvo utilizarão câmeras corporais durante as operações. Na avaliação de Jacqueline Sinhoretto, porém, o uso dos equipamentos, por si só, não garante o registro das abordagens.

“O que a gente tem que perceber, e observar, não é o uso em si da câmera, mas é a relação entre o uso da câmera e o aumento da fiscalização, e o aumento da cobrança do protocolo e o aumento da identificação de abusos”, aponta.

Projeto político

O emprego ostensivo de policiais armados nas ruas de São Paulo também integra o debate eleitoral sobre segurança pública, no qual candidatos defendem o endurecimento das penas para determinados crimes.

O candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL), aliado de Tarcísio, defende o aumento das penas para furto de celulares. De sua autoria, o PL 494/2025 prevê pena de quatro a oito anos de reclusão, além de multa, para esse crime. A proposta foi aprovada pela Comissão de Segurança Pública do Senado em fevereiro de 2026.

“A gente tem visto no Brasil inteiro como esse tipo de política virou um ativo na política eleitoral, né? A gente tem, a partir da implementação dessas políticas, o aumento do poder policial, e a diminuição do controle sobre a atividade policial”, explica Almir Felite.

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Para o pesquisador, a circulação de policias com fuzis pelas ruas movimentadas do centro de São Paulo está relacionada a um projeto político que, em sua avaliação, se sustenta pela espetacularização da violência e pela própria letalidade policial.

“Você vê que as classes policiais, as instituições policiais, elas têm um ganho político, com a implementação desse tipo de política. E isso vai demonstrando como a letalidade policial é apenas ali um pano de fundo, não para ações que visam realmente a diminuição da criminalidade, a diminuição da violência, mas visam de fato um projeto político, um projeto de poder”, finaliza.

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