Lucas Almeida de Lima, de 25 anos, levou dois tiros durante abordagem policial no Jardim Mutinga, em março. Vídeos mostram que jovem foi agredido antes dos disparos, informação que foi ignorada pelo Ministério Público

O promotor do Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP), Vitor Petri, pediu o arquivamento do inquérito policial que apura a morte de Lucas de Almeida de Lima, de 25 anos, durante uma abordagem conduzida pelos soldados Jonas Takizo Hashimoto e Mayck Moreira dos Santos.
Lucas foi morto por volta das 17h do dia 15 de março, no Jardim Mutinga, em Barueri, na Grande São Paulo. Ele chegou a ser levado para o pronto-socorro do Parque Imperial, mas não resistiu. O jovem foi atingido por dois tiros, um no peito e outro na axila, disparados por Mayck.
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A Ponte teve acesso ao pedido de arquivamento, publicado esta terça-feira (19/8). Nele, o promotor baseia o pedido na análise de um vídeo que registrou parte da abordagem. Ele afirma ter examinado as imagens em câmera lenta e com tela ampliada, concluindo que é possível ver o momento em que Lucas tenta desarmar o policial.
Segundo Petri, os policiais agiram em legítima defesa, motivo pelo qual solicitou o arquivamento pela “inexistência de crime”.
No relatório final do inquérito da Polícia Civil foram anexadas reportagens que mostravam Lucas sendo agredido por policiais antes de ser morto, com testemunhas relatando socos e pontapés. A irmã do jovem afirmou que ele já havia sofrido abordagens violentas, e o Ouvidor da Polícia criticou a forma da ação, classificando-a como um “absurdo”.
Apesar disso, o pedido de arquivamento do MP-SP não mencionou essas agressões nem os protocolos adotados pelos PMs.
Família relatou medo de abordagens
Durante a investigação, Jonas e Mayck afirmaram estar em patrulhamento de rotina quando, próximo à Avenida Petrobrás, avistaram “dois indivíduos em atitude suspeita mexendo em um carro”. O dono do veículo, em depoimento, disse que o carro havia sofrido uma pane elétrica e que, enquanto faziam o reparo, os policiais se aproximaram. Lucas então teria corrido sem motivo aparente, sendo perseguido pelos PMs.
Após a perseguição, ele acabou detido, mas teria entrado em luta corporal com Jonas e tentado desarmá-lo. Neste momento, Mayck disparou. Os policiais não mencionaram a agressão sofrida por Lucas, registrada em vídeos e relatada por testemunhas à imprensa.
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Segundo os PMs, Lucas teria dito “esse B.O. não é meu” ao ser questionado sobre o carro. Eles afirmaram ainda que, depois de detê-lo, abriram a porta traseira da viatura para levá-lo até a delegacia, instante em que ele teria tentado desarmar Jonas.
Só depois de Lucas ter sido ferido e baleado, os policiais disseram ter descoberto que ele ajudava o proprietário do carro a consertá-lo e que teria transtornos mentais. Em depoimento posterior, o amigo afirmou apenas que notava que Lucas era muito calado.
A investigação também ouviu a família da vítima. A irmã de Lucas, Letícia Almeida de Lima, contou que o jovem trabalhou como assistente em uma gráfica até ser demitido em janeiro por corte de gastos. Nos meses anteriores à morte, a família havia notado que o jovem passou a ficar mais isolado, demonstrando medo. O receio da polícia seria derivado de situações anteriores de abordagens agressivas.
O pedido do MP menciona que Mayck usava câmera corporal, mas o equipamento teria caído durante a luta corporal. O promotor não descreve as imagens registradas pelo dispositivo para além dessa citação.

‘Meu irmão é negro, de favela. Eles olham e acham que é bandido’
No relatório final do inquérito, o delegado Eymar Bertho Ferreira Júnior anexou três reportagens sobre a abordagem policial. A primeira, do programa Balanço Geral, da TV Record, mostra Lucas sendo agredido por um dos policiais enquanto o outro o segura. A matéria cita testemunhas que afirmaram que Lucas levou socos e pontapés assim que foi alcançado. Ele teria conseguido se desvencilhar e corrido mais alguns metros, até ser novamente alcançado, abordado e morto.
Em entrevista à mesma reportagem, a irmã de Lucas, Letícia, contou que ele já havia sido alvo de abordagens violentas e chegou a levar uma coronhada. “Meu irmão é negro, de favela, tem tatuagem. Eles [policiais] olham para ele e já acham que é criminoso, bandido”, disse.
Os soldados Jonas e Mayck chegaram a ser afastados das ruas após o caso. A Ponte questionou a Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP) sobre a manutenção da medida e o andamento do Inquérito Policial Militar (IPM). Em nota, a pasta informou que os policiais seguem em atividade e que o IPM foi remetido à Justiça. À época, o ouvidor das Polícias, Mauro Cesari, criticou a abordagem em entrevista à TV Record.
“No meu ponto de vista, é um absurdo o todo. A abordagem de dois policiais tentando conter uma pessoa… se você perceber, na imagem, os dois policiais estão com armas nas mãos. Você vai tentar abordar alguém segurando uma arma, com um único braço? Eu acho um equívoco. No meu ponto de vista, não deve haver nenhum protocolo que justifique”, disse. O pedido de arquivamento do MP-SP não questiona os protocolos utilizados pelos PMs.
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Após o pedido de arquivamento, a Ponte voltou a procurar o ouvidor. Cesari reafirmou sua posição, criticando a forma como a abordagem foi conduzida.
“A abordagem que resultou na morte de Lucas Almeida Lima, é fruto de uma sequência de erros. Inicia-se com uma violência desnecessária, que escala e desvia os profissionais de um procedimento técnico, como, por exemplo, de algemarem o jovem, o que teria evitado o trágico desfecho. Imperícia que cobra vidas e termina com o arquivamento sistemático dos casos como tem demonstrado recentes estudos. A impunidade precisa ter um preço, para que vida não veja sequestrado seu devido valor”, disse.
Outras duas reportagens, do g1 e da CNN, também foram anexadas ao inquérito. Ambas destacaram a agressão sofrida por Lucas, fato que também não foi mencionado pelo MP-SP.
O que diz a SSP-SP
Em nota enviada à Ponte, a SSP-SP informou que as investigações da Polícia Civil e da Polícia Militar foram concluídas e encaminhadas à Justiça, e que os policiais seguem em atividade.
Leia nota na íntegra
O caso foi investigado pelo Setor de Homicídios e Proteção à Pessoa (SHPP) de Carapicuíba, que relatou o inquérito policial à Justiça em 31 de julho deste ano. Com relação ao Inquérito Policial Militar (IPM), o procedimento foi encaminhado para a Comarca de Barueri, após requerimento do Ministério Público. Os policiais envolvidos seguem desempenhando funções operacionais no 14º BPM/M. Novos questionamentos devem ser encaminhados ao Poder Judiciário.
Matéria atualizada às 14h30 de 21/8/2025 para incluir a manifestação do ouvidor das Polícias, Mauro Cesari. O texto foi novamente atualizado às 9h30 de 22/8/2025 para acrescentar a nota da SSP-SP.