Número de chacinas policiais cresce 235% na Bahia no 1º semestre de 2025

Estado gerido pelo governador Jerônimo Rodrigues (PT) lidera ranking nacional de letalidade policial. Durante o carnaval, uma operação da Polícia Militar deixou 12 mortos em Salvador

Bahia é o estado em que as políciais mais mataram no 1º semestre deste ano | Foto: PM-BA/Divulgação

Era carnaval deste ano quando o bairro Fazenda Coutos, na periferia de Salvador, foi palco de uma chacina. Doze pessoas foram mortas em uma operação da Polícia Militar da Bahia — a que mais mata no Brasil. Entre os mortos estavam dois adolescentes de 17 anos; os mais velhos tinham 27. Os policiais alegam que houve confronto, mas nenhum agente ficou ferido. Nenhum dos envolvidos usava câmeras corporais.

Segundo dados do Instituto Fogo Cruzado, as mortes em chacinas policiais aumentaram 235% no primeiro semestre de 2025 em comparação com o ano anterior. Foram 57 mortos nesse contexto. O dado faz parte de um levantamento divulgado pela organização nesta segunda-feira (21/7).

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A coordenadora regional do Fogo Cruzado, Tailane Muniz, explica que uma chacina policial é caracterizada por episódios em que três ou mais pessoas são mortas numa ação ou operação policial, geralmente no mesmo tempo e espaço. Mas também existem chacinas em espaços e tempo variáveis. Os casos apurados pelo instituto têm como figuras policiais da ativa, em serviço, que figuram em ações policiais resultantes em múltiplas mortes.

“É fundamental entender que essas chacinas não são casos isolados, mas resultado de políticas de segurança que estruturalmente priorizam o confronto armado em detrimento do planejamento e da proteção à vida. A ausência de fiscalização, controle externo adequado e a persistência de um modelo operacional baseado no enfrentamento direto contribuem para que esses episódios se tornem um padrão. Também é fundamental compreender esse como um fenômeno sociológico específico que não pode ser observado pontualmente, porque é sistemático”, diz Tailane.

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O aumento das chacinas, avalia, resulta de uma combinação de fatores que revelam o aprofundamento de uma crise estrutural nas políticas de segurança pública.

“Em Salvador e região metropolitana, 42% dos tiroteios no primeiro semestre de 2025 ocorreram em ações policiais. Isso demonstra que as forças de segurança estão cada vez mais envolvidas em confrontos diretos, uma estratégia que há três décadas não consegue conter o crescimento dos grupos armados no Brasil. Sem investigação, perícia adequada ou responsabilização, essas práticas se perpetuam”, completa.

Mortes em ações policiais e número de tiroteios também aumentam

O mesmo levantamento também apontou crescimento em alguns indicadores relacionados à violência armada em ações policiais, em comparação ao primeiro semestre de 2024.

No primeiro semestre foram registrados 839 tiroteios, com 700 mortos e 164 feridos. Deste total, 42% das trocas de tiro ocorreram em ações policiais, que concentraram 43,5% dos mortos e 26% dos feridos.

O número de baleados em ações policiais cresceu 12% em comparação ao primeiro semestre de 2024. No ano passado, foram 309 pessoas baleadas (248 mortas e 61 feridas) em ações policiais de janeiro a junho; já em 2025, esse número subiu para 347 (305 mortas e 42 feridas).

Negros são maioria entre as vítimas

A maioria das vítimas baleadas no primeiro semestre deste ano era negra. Ao todo, 370 pessoas foram identificadas como negras, 17 como brancas, e 476 não tiveram o recorte racial identificado.

O Fogo Cruzado também identificou que 94% dos baleados eram adultos, mas houve 35 adolescentes entre as vítimas: 23 morreram e 12 ficaram feridos.

Para Tailane, os dados de Salvador e região metropolitana refletem o padrão nacional de violência armada que expressa as desigualdades sociais e raciais do Brasil.

“A persistência desse padrão ano após ano evidencia que a violência armada na Bahia tem cor, classe e território definidos. A Bahia continua insistindo numa fórmula que deu errado, e segue com uma política que historicamente afeta desproporcionalmente a população negra e periférica, seja como vítima de grupos armados ou da própria ação policial”, afirma.

Bahia mantém posto de polícia mais letal do Brasil

Governada pelo PT há mais de uma década, a Bahia tem registrado intensificação na violência policial. Jaques Wagner, Rui Costa e o atual governador Jerônimo Rodrigues não conseguiram implementar medidas eficazes para reduzir a letalidade policial. Desde 2022, o estado lidera o ranking de mortes provocadas por policiais, segundo o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

A Bahia foi o estado com mais mortes decorrentes de intervenção policial no primeiro semestre de 2025, conforme a mesma base de dados. Foram 836 mortes entre janeiro e junho — número 158% maior do que o registrado no Pará, segundo estado com mais óbitos.

A Ponte mostrou, em 2023, que metade das dez cidades mais violentas do país estão na Bahia. No mesmo ano, revelou que uma “operação vingança” realizada pela gestão Jerônimo com apoio do governo Lula (PT) deixou mais de 50 mortos. Também noticiou que, no ano em que a polícia baiana se tornou a mais letal do país, 94% das vítimas eram negras.

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Os registros de violência continuam. No início de julho, os jovens negros Ilson Jardas de Jesus Santos, de 18 anos, e Luan Henrique, de 20, foram mortos a tiros por policiais militares em Camaçari, na região metropolitana de Salvador. Os PMs alegaram que houve troca de tiros, versão contestada pelas famílias dos amigos de infância.

O que dizem as autoridades

A Ponte procurou as polícias Civil e Militar questionando o andamento das investigações sobre a chacina de Fazenda Coutos. O Ministério Público Federal (MPF), que à época abriu apuração sobre o caso, também foi procurado.

Em nota, a Polícia Civil informou apenas que as investigações continuam. As demais instituições não se pronunciaram.

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