‘O Luto e a Luta’: os antecedentes criminais do Jardim Munhoz Júnior

    Estreia esta quinta-feira (20/11) o primeiro episódio do podcast “O Luto e a Luta: os 10 anos da Chacina de Osasco e Barueri”, parceria da Central 3 com a Ponte Jornalismo sobre a maior chacina da história de São Paulo. Ouça aqui

    E lá se vão mais de 10 anos da Chacina de Osasco e Barueri, a maior da história de São Paulo. Neste 20 de novembro de 2025, Dia da Consciência Negra, é também a data de lançamento do primeiro episódio do podcast “O Luto e a Luta: os 10 anos da Chacina de Osasco e Barueri”.

    No mês em que viraliza, a partir das plataformas de streaming, a série “Tremembé”, sobre o complexo penitenciário paulista que abriga presos considerados vulneráveis a assédios e violências se colocados nos demais presídios — entre eles, nomes que a imprensa tornou famosos como Suzane von Richtofen, Elize Matsunaga e Alexandre Nardoni —, autores de crimes terríveis mas, em certa medida, privados, cabe perguntar: qual é o real interesse público nessas histórias, para além da venda de manchetes?

    A resposta a essa pergunta fica mais fácil quando se pensa que vivemos em um país em que pouca ou nenhuma atenção é dada aos crimes de Estado — aqueles que sistematicamente ultrapassam a barreira da barbárie e articulam nosso próprio modo de organização e reprodução social e política.

    Leia também: Podcast “O Luto e a Luta: os 10 anos da Chacina de Osasco e Barueri”

    Por isso, é curioso que ao mesmo tempo em que saibamos os nomes de suzanes, elizes e alexandres de cor e salteado, mas poucos saibam os nomes das vítimas, ou sequer as circunstâncias em que ocorrem diariamente, os massacres nas periferias brasileiras. Enquanto nossa imprensa escolhe a dedo alguns casos e criminosos para alçar à categoria de celebridades, a “operação” ocorrida a menos de um mês no Rio de Janeiro, durante a qual mais de 120 corpos foram empilhados nos complexos da Penha e do Alemão parece cair no esquecimento com facilidade.

    Imagine então as 29 vidas perdidas uma década atrás na Chacina de Osasco e Barueri. Por isso, o papel do jornalismo, do audiovisual e da pesquisa acadêmica é tão importante quando trabalha no sentido de resgatar as histórias e casos de interesse público, como o que contamos por aqui.

    Os “antecedentes” e a lógica da violência

    O problema, quando se compara essas duas vertentes de crimes, é perceber o quanto no país atua-se no sentido de colaborar com essa lógica violenta. Por exemplo: Suzane, Elise e Alexandre não tinham antecedentes criminais antes dos seus casos virem a público — e a imprensa consultou seus advogados antes de publicar tal informação. Já os mortos do Alemão e da Penha de 2025, e os de Osasco e Barueri em 2015, ainda quentes e não identificados, eram declarados pela mesma imprensa como portadores de supostos antecedentes criminais. Todos eles, sem exceção.

    “É a inversão do que diz a norma jurídica. Em vez de serem inocentes até que se prove o contrário, eles são culpados até que se prove o contrário”, comenta o cientista político Acácio Augusto durante conversa com a criminóloga e professora da UERJ, Vera Malaguti Batista, na live intitulada “O Alemão é muito mais complexo”. Acácio é coordenador do Laboratório de Análise em Segurança Internacional e Tecnologias de Monitoramento (LASInTec-Unifesp), um dos parceiros na produção do podcast ao lado da Ponte, da Central 3 e da Associação 13 de Agosto. Ele aparecerá por diversas vezes ao longo do podcast.

    Uma vizinhança marcada

    Neste primeiro episódio de “O Luto e a Luta” introduzimos a história a partir da descrição daquilo que seriam “os antecedentes criminais” do Jardim Munhoz Júnior e dos demais bairros da região metropolitana de São Paulo, onde um grupo de cerca de 10 agentes de segurança encapuzados e fora de serviço achou que ninguém notaria dezenas de mortos entre 8 e 13 de agosto de 2015.

    Escolhemos o Jardim Munhoz Júnior por ser o bairro de Dona Zilda Maria de Paula, a pessoa que aos 73 anos está à frente da Associação 13 de Agosto, que reúne mães e familiares das vítimas. Seu filho, o pintor Fernando Luís de Paula, à época com 34 anos, foi um dos mortos no Bar do Juvenal, que fica bem próximo de sua casa, por onde dona Zilda sempre tem de passar em frente quando vai ou volta de algum lugar. Ali, 10 pessoas que viviam um dia comum foram baleadas. Fernando está entre as 8 pessoas que morreram na hora. Os 2 sobreviventes morreram semanas e anos depois em decorrência dos ferimentos.

    “O Luto e a Luta” começa com o relato de Dona Zilda sobre o que faziam naquela tarde de inverno na periferia da região metropolitana de São Paulo. Na casa que havia lutado tanto para conquistar. O filho tinha acabado de pintar a sala e o quarto do lar que acabavam de reformar. Saiu para cortar o cabelo, parou no bar e não viu quando os matadores entraram e massacraram os presentes. Morreu com um tiro no rosto. Sem mais nem menos.

    Leia também: O que foi a Chacina de Osasco e Barueri

    Ao todo foram 6 mortos em 8 de agosto, 18 em 13 de agosto (incluindo uma vítima não identificada que depois seria ligada a outros ataques) e 3 sobreviventes que viriam a falecer posteriormente. A motivação: represália coletiva pelas mortes de 2 agentes de segurança que faziam bicos em comércios da região – um PM e um guarda municipal de Barueri.

    “Municípios como Osasco e Barueri, localizados em regiões metropolitanas das grandes cidades brasileiras, costumam conviver com certa frequência com morticínios como esse. Não fossem as vozes dessas mães e familiares, muitos desses crimes de Estado ficariam esquecidos. Mas é graças a essas mulheres que não caem no esquecimento”, afirma Joana Barros, arquiteta, socióloga e vice-coordenadora do LASInTec.

    Ouça o episódio 1 – Os antecedentes criminais do Jardim Munhoz Júnior – e siga o podcast “O Luto e a Luta: os 10 anos da Chacina de Osasco e Barueri” na sua plataforma de preferência:

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    Referências e pesquisa do episódio:

    BOLETIM (ANTI) SEGURANÇA – LASInTec-UNIFESP

    #44 – Uma década de luta, uma vida inteira dedicada à memória: os 10 anos da chacina de Osasco e Barueri. 13/08/2025.

    #38 – 9 anos da maior chacina de SP: nem perdão, nem esquecimento. 16/08/2024.

    #25 – Ato em memória dos executados pela Chacina de Osasco e Barueri em 2015. 12/08/2022.

    #21 – Estado = Milícia: Fluxos de extermínios na democracia securitária e a incontrolável abolição da polícia. 25/03/2022.

    REPORTAGENS TELEVISIVAS DA ÉPOCA DOS ACONTECIMENTOS

    Rede CNT – Jornal de 14/08/2015.

    Rede TVT: Chacina de Osasco e Barueri pode ter tido participação de policiais militares. 14/08/2015.

    SPTV/TV GLOBO: Moradores mudam rotina após chacina em cidades da Grande São Paulo. 15/08/2015.

    SP no Ar/SBT: Entenda mais sobre a chacina de Osasco (SP). 18/08/2015.

    Jornal da Gazeta/TV Gazeta: Chacinas na região de Osasco deixam 19 mortos. 14/08/2015.

    Fantástico/TV GLOBO: Testemunhas que escaparam de chacina em SP revelam ação de criminosos. 16/08/2015.

    Café com Jornal/BAND NEWS: Imagens do telejornal de 14 de agosto de 2015.

    GLOBONEWS: Chacina em Osasco e Barueri mata, pelo menos, 16 pessoas.

    SP1/TV GLOBO: Famílias começam a reconhecer corpos de vítimas de chacinas na Grande São Paulo. 17/08/2015.

    TV Cultura – Jornal da Cultura 14/08/2015.

    REPORTAGENS ESCRITAS E PRODUÇÕES EM AUDIOVISUAL UTILIZADAS

    Podcast 1409 – Episódio 13. Mães 13 de Agosto e a luta por Justiça. CAAF (Centro de Arqueologia e Antropologia Forense da Unifesp).

    PODCAST #8: Coronel Telhada – Abordagem Policial – Dacunha na Escuta – PCSP. Canal do Delegado Dacunha. 31/05/2021.

    Ponte: MP denuncia PM por participação em chacina de Carapicuíba. Luís Adorno e André Caramante, 13 de novembro de 2015.

    Ponte: Justiça absolve PM acusado de participar da chacina de 8 de agosto de 2015 em Carapicuíba. Luís Adorno, 13 de dezembro de 2016.

    Ponte: Zilda Maria de Paula: ‘Não sossego enquanto não houver justiça’. Luís Adorno em 14 de maio de 2021.

    Caio Castor: “Eu já tô morta. Não dá pra morrer duas vezes”, diz Dona Zilda, mãe de vítima da maior chacina de SP. Agência Pavio e El País Brasil.

    Brasil de Fato: Com mães em luta contra a violência que se repete, chacina de Osasco e Barueri completa 7 anos. Gabriela Moncau, 13 de agosto de 2022.

    Revista Fórum: Acusado de envolvimento na Chacina de Osasco e Barueri é reintegrados à PM por Tarcísio. Raphael Sanz, 03 de agosto de 2023.

    Correio da Cidadania: Prestes a completar 6 anos, a maior chacina já registrada em SP tem novo episódio de impunidade. Raphael Sanz em 9 de março de 2021.

    Associação 13 de Agosto: Pela afirmação da vida, pela liberdade e contra a brutalidade policial. Nota pública, fevereiro 2021.

    Memórias da Ditadura. Dona Zilda – Na luta por Justiça pelo filho, Dona Zilda se mantém de pé

    Ficha técnica:

    • O Luto e a Luta é apresentado por Raphael Sanz e Gil Luiz Mendes.
    • O podcast é fruto de parceria entre a Central 3, a Ponte Jornalismo, o LASInTec-Unifesp e a Associação 13 de Agosto (de mães e familiares de vítimas da chacina).
    • O roteiro é de Raphael Sanz.
    • A identidade visual é de Lucas Richardson e Carlos Ghiraldelli da Seppia Conteúdo.
    • Domenica Mendes fez a revisão dos roteiros e episódios.
    • A edição é de Gil Luiz Mendes. 
    • Trilha Sonora: Epidemic Sounds.

    Gil Luiz Mendes é jornalista, repórter na Ponte Jornalismo e apresentador na rádio Central 3.
    Raphael Sanz é jornalista, pesquisador ligado ao LASInTec-Unifesp e acompanha movimentos sociais há 20 anos.

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