Podcast da Central 3 com apoio da Ponte Jornalismo discute a maior chacina da história de São Paulo e traz reflexão sobre a violência que permeia o cotidiano brasileiro e que, de tempos em tempos, produz novas chacinas

“O caso expõe o alto grau de violência que se vive na sociedade brasileira. A própria palavra ‘chacina’, que se consolidou na mídia como forma de tratar esse tipo de ação letal da polícia, revela a naturalização da violência. É uma palavra difícil de ser traduzida para outros idiomas, que originalmente refere-se ao abate de animais, especialmente de porcos. Ou seja, já nas capas dos jornais é possível notar uma constante e permanente operação de desumanização das pessoas que se tornam vítimas do Estado” Gabriella de Biaggi, pesquisadora do LASInTec-Unifesp.
A maior chacina da história de São Paulo. Pelo menos 29 mortos — 6 na pré-chacina (08/08), 21 na chacina em 13/08 (somando 17 vítimas identificadas, 1 não identificada e 3 sobreviventes que faleceram posteriormente) e os 2 agentes de segurança cujas mortes motivaram a realização dos ataques. Os autores: policiais militares e guardas civis metropolitanos fora de serviço e encapuzados. As armas: desviadas das forças de segurança do Estado Brasileiro. As munições: as mesmas usadas para matar Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes 3 anos depois em outro Estado.
Na fila do IML, mães se conhecem e formam juntas a Associação 13 de Agosto. Lideradas por Dona Zilda Maria de Paula, o grupo mantém-se unido e em busca de justiça e memória em uma sociedade que se acostumou com a indiferença e as obrigou a transformar o seu luto em luta.
Leia também: O que foi a Chacina de Osasco e Barueri
Na próxima semana a Ponte Jornalismo e a Central 3 lançam o podcast O Luto e a Luta — os 10 anos da chacina de Osasco e Barueri, em parceria com o LASInTec-Unifesp (Laboratório de Análise em Segurança Internacional e Tecnologias de Monitoramento) e a Associação 13 de Agosto.
A Ponte você já conhece: desde 2015 atuando como referência na cobertura de direitos humanos e segurança pública no Brasil. A Central 3 é um pouco mais velha, nasceu em 2013, e também é uma referência em jornalismo e nas comunicações: pioneira na produção de podcasts. O LASInTec, por sua vez, é um laboratório da Unifesp-Osasco que desenvolve pesquisa sobre segurança pública e internacional e, entre suas linhas de pesquisa está a chacina de Osasco e Barueri. Por essa razão sua atuação o aproxima da Associação 13 de Agosto, que reúne mães e famíliares das vítimas da chacina. As entrevistas com Dona Zilda e outras mães foram feitas no âmbito da pesquisa acadêmica.
E foi juntando nossas forças o ofícios, com o objetivo de contar a história dessas mães, que nasceu O Luto e a Luta: os 10 anos da chacina de Osasco e Barueri. Uma série documental em podcast, ou melhor, um ANTI-TRUE CRIME. Isso significa que ao contrário da individualização e isolamento da conduta violenta que vemos no gênero true crime, O Luto e a Luta retira a violência do campo do absurdo e do anormal, trazendo-a para uma perspectiva crítica e coletiva. E mostrando-a não como algo distante ou pitoresco, mas como um triste espelho da vida que levamos em sociedade — e de como essa sociedade se organiza.
O podcast:
Com apresentação de Raphael Sanz e Gil Luiz Mendes, o podcast O Luto e a Luta: Os 10 anos da chacina de Osasco e Barueri é dividido em 9 episódios que vão discutir diversos aspectos do caso com foco nas transformações que a matança forçou às vidas das mães das vítimas, organizadas na Associação 13 de Agosto.
Nos dois primeiros episódios há uma reconstituição dos ataques, do que vítimas e familiares faziam naquele 13 de agosto de 2015, a motivação para a chacina por parte dos seus autores e a cobertura dos meios de comunicação tradicionais que automaticamente começam a procurar antecedentes criminais nas vítimas quando se deparam com um caso desse tipo.
O terceiro episódio traz uma breve história das polícias brasileiras e rememora os principais massacres ocorridos em São Paulo desde a abertura democrática nos anos 80, mostrando que a violência de Estado vai além de ascensão de regimes ou governos autoritários, mas está inequivocamente ligada à colonização de nossas democracias pela questão da segurança.
Leia também: Dor, memória e busca por justiça: ato marca 10 anos da Chacina de Osasco e Barueri
Os episódios 4 e 5 mergulham na vida de dona Zilda Maria de Paula, mãe do Fernando Luiz de Paula, morto aos 35 anos com um tiro no rosto no bar do Juvenal em Osasco. Mais do que a principal figura por trás da Associação 13 de Agosto, a vida de dona Zilda traduz os próprios movimentos geográficos e sociais das classes trabalhadoras na periferia de São Paulo ao longo da segunda metade do século XX. No episódio 6 contaremos a história e os afazeres da Associação 13 de Agosto, que vão muito além dos protestos e presenças nos tribunais, através das histórias de outras duas mães: Cida e Antonia. Um spoiler: você ouvir muito a palavra “solidariedade”.
O sétimo episódio detalha a passagem das mães da Associação 13 de Agosto pelos tribunais que inicialmente condenaram 4 agentes pelos crimes, mas que anos depois absolveram dois deles, justamente aqueles apontados pela promotoria como mentores da chacina.
O episódio 8 retrata a desilusão das mães com o sistema de Justiça após a reintegração de um desses agentes absolvidos à PM, em contraste com o cuidado e a solidariedade que receberam durante o processo de exumação dos corpos.
Por fim, o episódio 9 encerra O Luto e a Luta com áudios exclusivos e relatos do ato em memória dos 10 anos da chacina, ocorrido em 16 de agosto de 2025 em Osasco, além das reflexões finais sobre o morticínio que acompanhamos ao vivo nas periferias das grandes cidades brasileiras, entre eles a chacina de Osasco e Barueri.
Ficha técnica:
- O Luto e a Luta é apresentado por Raphael Sanz e Gil Luiz Mendes.
- O podcast é fruto de parceria entre a Central 3, a Ponte Jornalismo, o LASInTec-Unifesp e a Associação 13 de Agosto (de mães e familiares de vítimas da chacina).
- O Roteiro é de Raphael Sanz.
- A identidade visual é de Lucas Richardson e Carlos Ghiraldelli da Seppia Conteúdo.
- Domenica Mendes fez a revisão dos roteiros e episódios.
- A edição é de Gil Luiz Mendes.
Ouça o teaser e siga o podcast O Luto e a Luta: os 10 anos da Chacina de Osasco e Barueri na sua plataforma de preferência:
Confira reportagens e artigos sobre os 10 anos da Chacina de Osasco e Barueri:
- Dor, memória e busca por justiça: ato marca 10 anos da Chacina de Osasco e Barueri (Catarina Duarte, 16/08/2025)
- Coluna LASInTec | O que resiste à matança é a memória e a luta (LASInTec-Eppen-Unifesp, 15/08/2025)
- ‘Não pode esquecer, tem que incomodar’: mãe pede memória e justiça dez anos após chacina (Paulo Batistella, 13/08/2025)
- O que foi a Chacina de Osasco e Barueri (Paulo Batistella, 12/08/2025)
LASInTec-Unifesp / Associação 13 de Agosto:
COLUNA LASInTec na Ponte Jornalismo
- Coluna LASInTec | Cães de guarda e o policiamento hightech (07/05/2025)
- Coluna LASInTec | A muralha invisível: controle a céu aberto e polícia preditiva (12/08/2025)
- Artigo | Violência contra a Mulher: baixos sentimentos de vingança (03/10/2025)
- Coluna LASInTec | Quando a pior chacina é sempre a próxima (07/11/2025)
Apoie o podcast O Luto e a Luta. A partir de R$ 9,90 por mês na Orelo*, você contribui com esse projeto. Toda a renda deste podcast será revertida para a Associação 13 de Agosto por meio da Dona Zilda Maria de Paula.
*link da Orelo: https://orelo.cc/olutoealuta
Gil Luiz Mendes é jornalista, repórter na Ponte Jornalismo e apresentador na rádio Central
Raphael Sanz é jornalista, pesquisador ligado ao LASInTec-Unifesp e acompanha movimentos sociais há 20 anos.
