Perfil intitulado “Militar do Paraná” foi excluído das redes sociais após denúncia do deputado estadual Renato Freitas (PT-PR). Conta no Instagram fazia postagens em colaboração com militares da ativa e era seguida por parlamentares de direita

Uma página de exaltação à Polícia Militar do Paraná (PMPR) nas redes sociais virou alvo de investigação do Ministério Público estadual (MPPR) ao comercializar vídeos de pessoas mortas e de vítimas de torturas supostamente praticadas por policiais militares. No Instagram, em que mantinha 22,9 mil seguidores, o perfil chegava a fazer publicações em colaboração com agentes da ativa da PMPR.
O caso veio à tona na última quarta-feira (22/7), ao ter sido exposto pelo deputado estadual Renato Freitas (PT-PR). Ainda no mês passado, o parlamentar havia encaminhado, junto do também deputado Arilson Chiorato (PT-PR), dois ofícios ao MPPR para que investigasse o perfil.
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A página era intitulada “Militar do Paraná” e mantinha contas em diferentes redes sociais. No Instagram, o perfil funcionava como uma espécie de vitrine em que fazia postagens enaltecendo a PMPR.
Ali, também eram publicados diariamente “stories” com imagens borradas de corpos ensanguentados, junto de um link que encaminhava o usuário para um grupo privado no Telegram — era neste grupo que eram vendidos sem qualquer censura os conteúdos das supostas vítimas de violência policial.

Grupo rendia ao menos R$ 2 mil mensais
O acesso ao grupo custava R$ 20 mensais. O mandato do deputado Renato Freitas identificou que havia ao menos 100 assinantes no perfil, o que rendia, portanto, R$ 2 mil por mês de faturamento.
Um dos vídeos comercializados no Telegram mostra um homem sendo obrigado por policiais a se deitar sobre uma fogueira para apagá-la. Após acatar a ordem, ele passa a ser chutado pelos agentes.
Em um outro registro, um homem aparece com o rosto machucado enquanto é atendido por socorristas. Ele reclama que está sendo gravado por um policial e afirma ter sido agredido por um grupo de agentes.
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Em um terceiro vídeo, um homem aparece entrando em um rio, ocasião em que é obrigado a gritar uma frase de exaltação à PMPR. É possível ouvir pessoas rindo ao fundo da cena. O vídeo foi publicado no grupo do Telegram um dia antes de Curitiba ter registrado a temperatura mais baixa deste ano.
No Instagram, com publicações menos explícitas, mas, ainda assim, de elogio à brutalidade policial, o perfil “Militar do Paraná” mantinha postagens em “collab” com ao menos 20 policiais militares da ativa, conforme identificou o jornal Plural, um veículo independente sediado em Curitiba.
Esse tipo de publicação na rede social exige o consentimento do perfil que aceita a colaboração, ocasião em que passa a ser, portanto, um coautor da postagem.

Página chegou a marcar o secretário da Segurança Pública
A página também costumava marcar perfis de militares em suas publicações no Instagram. Neste caso, não é necessário o consentimento da conta marcada, mas ela é notificada sobre a medida. Uma das pessoas marcadas em uma publicação foi o coronel reformado da PMPR Hudson Leôncio Teixeira, que é o secretário da Segurança Pública paranaense no governo de Ratinho Júnior (PSD).
O mandato do deputado Renato Freitas ainda identificou que policiais costumavam fazer comentários em agradecimento nas postagens do “Militar do Paraná” no Instagram. Além disso, a conta na rede social era seguida por parlamentares do estado filiados a partidos de direita e de extrema-direita.
Também no Instagram, o perfil chegou a fazer uma publicação de caráter nazista, conforme apurou o jornal Plural. Na ocasião, ele republicou, de maneira irônica, uma postagem do movimento social Rede Nenhuma Vida a Menos que denunciava dados da letalidade policial. A republicação exaltava as mortes e trazia dois emojis: o de um homem branco com o braço estendido e um outro da bandeira da Alemanha.
A rede de perfis “Militar do Paraná”, agora fora do ar, também mantinha um grupo no WhatsApp, ainda segundo publicou o Plural. Em áudios identificados pelo veículo, um administrador da página nas redes sociais chegou a dizer que havia apagado alguns conteúdos para não “comprometer uns policiais”.
Quem é o dono da página “Militar do Paraná”
À Ponte, o MPPR comunicou que investiga os fatos por meio de um procedimento administrativo sigiloso instaurado pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).
Já a Secretaria de Estado da Segurança Pública do Paraná (Sesp/PR), submetida à gestão Ratinho, afirmou, em nota à reportagem, conduzir um inquérito sobre o caso desde junho. Comunicou ainda que um administrador da página foi identificado: seria um homem de 22 anos que não é policial.
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A Ponte questionou, ainda assim, se foram identificados policiais que colaboravam com os conteúdos divulgados e comercializados pela página. Em resposta, a Sesp/PR comunicou fazer uma “rigorosa perícia” das imagens e do eventual envolvimento de outras pessoas. “Caso seja confirmada a participação de policiais, eles serão submetidos aos rigores da legislação”, escreveu a pasta.
Na terça (28/7), o secretário Hudson havia dito, em uma coletiva de imprensa, que o inquérito do caso era conduzido pela própria Polícia Militar, sob supervisão do Ministério Público Militar.
Leia a íntegra do que diz o MPPR
Os fatos são apurados no âmbito de procedimento administrativo instaurado pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) – Notícia de Fato 0046.26.176303-4. Como o procedimento tramita sob sigilo, o Ministério Público do Paraná não pode fornecer detalhes sobre a investigação.
Leia a íntegra do que diz a Sesp/PR
A Secretaria da Segurança Pública do Paraná (Sesp) não compactua com qualquer ação que afronte a legislação vigente e a dignidade humana. Desde junho já existe inquérito aberto para apurar o caso e a Sesp colaborará plenamente com o Ministério Público nas investigações. O dono da página no Instagram não é policial, tem 22 anos e já foi identificado pela inteligência das forças de segurança. Está sendo feita uma rigorosa perícia das imagens e sobre a participação de outras pessoas. Caso seja confirmada a participação de policiais, eles serão submetidos aos rigores da legislação.