Evandro Alves da Silva perdeu o baço e precisou passar 45 dias internado. Daniel Pereira Noda, Carlos Vinicius Batista Bruno e Thiago Freitas da Silva atiraram quando vítima estava nua e usava banheiro de cooperativa de mototáxi em Santos

A Justiça de São Paulo decidiu que três policiais militares vão a júri popular acusados de tentar matar um motoboy em Santos (SP) durante a Operação Escudo. Daniel Pereira Noda, Carlos Vinicius Batista Bruno e Thiago Freitas da Silva serão julgados por tentativa de homicídio qualificado, por motivo torpe e com uso de recurso que dificultou a defesa da vítima, com o agravante de abuso de poder.
A decisão de pronunciá-los partiu da juíza Thais Caroline Brecht Esteves Gouveia, da Vara do Júri da comarca de Santos, em sentença da última quarta-feira (12/8).
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O crime pelo qual os policiais são acusados ocorreu na manhã de 30 de agosto de 2023. Na ocasião, Evandro Alves da Silva, um homem negro de 46 anos, estava nu no banheiro de uma cooperativa de mototáxi quando passou a ser baleado pelos agentes.
Evandro teve de pular de uma janela para escapar dos tiros e despencou de uma altura de sete metros. Depois disso, ele precisou ser submetido a uma complexa cirurgia e passou 45 dias hospitalizado. Ainda em função do ataque, a vítima perdeu o baço, teve oito costelas quebradas e segue com um projétil alojado no pulmão, além de uma grande cicatriz no tronco.
À Ponte, a advogada Anna Marques, que é esposa de Evandro, disse que a ida do caso a julgamento popular é a confirmação de que a luta da família não tem sido em vão. “Tentaram silenciar uma história, mas o Evandro sobreviveu. E nós não vamos nos calar. Seguimos até o fim”, afirmou.
Na etapa de instrução, anterior à decisão da Justiça sobre a submissão do caso ao júri, os policiais se mantiveram em silêncio durante os interrogatórios.
“A defesa dos três policiais militares afirma que eles agiram no estrito cumprimento do dever legal e [em] legítima defesa, ao repelirem injusta agressão, e isso será provado”, escreveu, também à Ponte, o advogado Gilberto Quintanilha Pucci, que atua em favor dos réus.
Vítima foi abordada por PMs no dia anterior ao ataque a tiros
Conforme mostrou a Ponte à época, Evandro estava sozinho quando foi alvo do ataque armado. O imóvel no qual foi baleado havia sido recém-alugado para que ele e outros motoboys pudessem ter um ponto de apoio ao prestarem serviços de transporte para moradores do Morro José Menino.
Em entrevista anterior à Ponte, Evandro relatou que, quando usava o banheiro, ouviu uma batida na porta. “Só um minuto”, disse ele, enquanto saía para atender. No meio do percurso, no entanto, passou a ser atingido por uma série de tiros. O primeiro dos disparos partiu de Daniel, que surgiu em uma janela do cômodo portando uma espingarda calibre 12, sem sequer anunciar ser policial.
Posteriormente, Evandro reconheceu que, no dia anterior ao ataque, havia sido abordado por Daniel e outros policiais no mesmo imóvel. Os agentes fizeram a vítima e um outro motoboy se ajoelharem no local. Os PMs fotografaram os documentos de ambos e os questionaram sobre antecedentes criminais.
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À Justiça, Evandro disse que, após os primeiros disparos, ouviu a expressão “larga a arma”, embora não tivesse arma de fogo alguma. Ele quebrou, então, o vidro de uma outra janela do banheiro, no segundo andar do imóvel, e se jogou para tentar sobreviver. Depois disso, ao ser alcançado, precisou implorar pela vida aos policiais e foi xingado de “lixo” por um deles em frente a uma equipe de socorristas.
MPSP entendeu que policiais colocaram arma para fraudar cena
Em um boletim de ocorrência do caso, os policiais envolvidos deram uma versão diferente. Eles afirmaram que, durante um patrulhamento, avistaram pessoas correndo para o imóvel em que Evandro estava ao perceberem a viatura. Os agentes disseram ainda que as seguiram, ocasião em que viram, por uma janela, o motoboy armado. Ele teria negado uma ordem de rendição, quando passaram a atirar.
Evandro chegou a ser investigado pelos crimes de resistência e porte ilegal de arma de fogo. Essa investigação acabou, no entanto, arquivada, após o Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) entender que a versão dos PMs era mentirosa e que a arma atribuída à vítima havia sido colocada por eles na sede da cooperativa para fraudar a cena da tentativa de assassinato.
Em agosto do ano passado, o g1 e a GloboNews obtiveram imagens das câmeras corporais dos agentes envolvidos no caso. Em um trecho do vídeo tornado público, é possível ver que, durante a varredura do imóvel, um policial filma uma cama onde havia apenas um casaco. Dois minutos depois, uma pistola é encontrada no mesmo local por outro agente.
PMESP comete maior parte das mortes violentas em Santos
Evandro é um dos três sobreviventes da Operação Escudo, descrita por movimentos sociais, moradores da Baixada Santista e especialistas em segurança pública como uma ofensiva de vingança.
A operação foi desencadeada pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e pelo então secretário da Segurança Pública Guilherme Derrite (PP) após a morte do soldado Patrick Bastos Reis, 30, das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) — trata-se da tropa de elite da Polícia Militar Paulista (PMESP) e também do batalhão mais letal da corporação.
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Os policiais réus pelo caso integram o 5º Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep), com sede em Barueri (SP). À época, eles estavam em Santos para incrementar o efetivo policial no âmbito da Escudo.
Ao todo, 28 pessoas foram mortas nos 40 dias da operação. Conforme mostrou a Ponte, ao menos até janeiro deste ano, o MPSP arquivou 24 de 29 investigações que tratavam dela, sem responsabilizar ninguém, o que motivou uma denúncia das famílias das vítimas à Comissão Interamericana de Direitos Humanos.
A Ponte também mostrou que, em função das operações Escudo e Verão, a Polícia Militar foi responsável por 60% das mortes violentas intencionais (MVI) ocorridas em Santos no governo Tarcísio.