Relatório final da investigação aponta que o cabo Fábio Almeida matou Guilherme Dias sem legítima defesa. O Policial Militar foi indiciado por homicídio qualificado

O cabo da Polícia Militar de São Paulo Fábio Anderson Pereira de Almeida foi indiciado por homicídio qualificado pela morte de Guilherme Dias dos Santos Ferreira, de 26 anos. Para os delegados responsáveis pela investigação, imagens de câmeras de segurança desmentem a versão inicial de que o policial reagiu a uma tentativa de roubo. Segundo a Polícia Civil, a ação teve “caráter de vingança”.
A Ponte teve acesso ao relatório final do inquérito, concluído na quarta-feira (6/8) pelos delegados Gabriel Tadeu Brienza Vieira e Kauê Danillo Granatta. Eles pedem a prisão preventiva de Fábio e o indiciam por homicídio qualificado, com base na impossibilidade de defesa da vítima. Até o momento, não houve denúncia por parte do Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) nem movimentação no Judiciário relacionada ao relatório da Polícia Civil.
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O crime ocorreu em 5 de junho, na Estrada Ecoturística de Parelheiros, na zona sul de São Paulo, quando Guilherme saía do trabalho. Inicialmente, o PM alegou ter sido vítima de uma tentativa de roubo e disse ter reagido à ação matando um dos suspeitos. O 25º Distrito Policial (Parelheiros) instaurou inquérito para apurar o suposto roubo. Posteriormente, o caso passou a ser investigado também pelo Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).
No inquérito que apura a morte de Guilherme, foram ouvidos os policiais que atenderam a ocorrência, um entregador de aplicativo que também relatou ter sido assaltado e colegas de trabalho da vítima. Fábio permaneceu em silêncio durante os depoimentos.

Imagens derrubaram versão de legítima defesa
Segundo os delegados, a tese de legítima defesa perdeu força após a análise de câmeras de segurança de dois estabelecimentos próximos. As imagens mostram Fábio descendo de sua moto com dois indivíduos, um deles de capacete. Ambos têm porte magro e estatura média e fogem enquanto o PM atira. Um veste moletom azul, o outro, blusa escura e capacete branco.
Em seguida, Fábio retorna ao local sem perseguir os suspeitos, e a via começa a encher de pessoas. Em outro momento, um homem com roupas diferentes dos supostos assaltantes — calça jeans clara, blusa escura estampada sobre camisa branca e mochila — aparece correndo na calçada oposta, pouco antes de Guilherme ser baleado.
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As gravações desmentem o relato inicial registrado no Plantão Policial, que falava em criminosos em várias motocicletas. As imagens indicam que mais de cinco minutos se passaram entre a tentativa de roubo e o disparo que matou Guilherme quando ele passava no local. Nesse intervalo, houve aglomeração de pessoas, inclusive motociclistas.
As cenas mostram Guilherme e seu colega de trabalho Deillan Ezlan da Silva Oliveira atravessando a rua e correndo em direção ao ponto de ônibus, enquanto Fábio, cercado por populares, parecia aguardar reforço policial — o que contraria a versão de que os dois teriam se aproximado da moto do policial.

A Polícia Civil também apontou que Guilherme deixou o trabalho às 22h28, conforme o ponto eletrônico, e foi morto a cerca de 850 a 900 metros do local — percurso que leva cerca de 12 minutos a pé. Para os investigadores, isso indica que o PM teve tempo para se recuperar do susto inicial, reforçando que não havia justificativa para uma reação precipitada.
Com base nas imagens, os delegados concluíram que não havia vulnerabilidade por parte de Fábio, que estava cercado por populares e não corria risco iminente. Mesmo que tenha confundido Guilherme com um dos assaltantes, sua ação não se enquadra como legítima defesa nem configura erro que exclua o dolo, escreveram. “[…] a conduta teria sido praticada com caráter de vingança, como se uma vítima policial tivesse o direito não de prender criminosos que o vitimaram, mas de executá-los”.
Os delegados também afirmam que o uso da arma de fogo não foi legítimo, pois Guilherme não representava risco. Além disso, Fábio conseguiu abordar e conduzir Deillan, que estava com Guilherme, até a delegacia, o que reforça a ausência de ameaça real.
Versão do entregador diverge de imagens
O depoimento do entregador do Ifood contrasta com o que foi registrado pelas câmeras. Ele afirmou ter sido abordado por dois homens armados em meio a diversas motocicletas, que o obrigaram a abaixar a cabeça e tomaram seu celular. Em seguida, disse ter visto a dupla se aproximar de uma moto da marca Triumph — modelo que pode custar até R$ 85 mil — pilotada por Fábio. Segundo ele, houve luta corporal entre os três, encerrada com a fuga dos assaltantes.
O entregador também afirmou que ouviu de funcionários de uma adega que os assaltantes voltariam para matar o policial. Quando retornou ao local, disse ter presenciado o momento em que “uma pessoa se aproximou” de Fábio, que fez o disparo. Ele disse ter certeza de que Guilherme participou do assalto.
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Além de Guilherme, uma mulher que aguardava ônibus também foi baleada. Um tiro atingiu seu braço. Ela foi socorrida ao Hospital Municipal de Parelheiros. Em depoimento, relatou apenas ter escutado barulhos semelhantes a escapamentos de moto.
Diante da hipótese de que Fábio, após ter sido roubado e ameaçado, confundiu Guilherme e Deillan com os autores do crime, a Polícia Civil inicialmente aplicou o artigo 20, §1º, do Código Penal, entendendo que houve erro de fato, o que afastaria o dolo e configuraria homicídio culposo.
Na ocasião, foi determinado o pagamento de fiança de R$ 5 mil, paga pelo policial, que foi liberado.

Colega de trabalho desmente versão policial
Deillan, colega de trabalho de Guilherme, contou que ambos estavam indo ao ponto de ônibus após o expediente quando tudo aconteceu. Disse ter visto Guilherme ferido na cabeça e, em seguida, foi acusado de roubo e algemado.
Inicialmente, Deillan afirmou não ter presenciado ou ouvido nada. Depois, explicou que ficou em silêncio por se sentir coagido pelos policiais.
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Outro colega de trabalho também foi ouvido. Ele relatou que os três trabalhavam em uma fábrica de camas box próxima ao local dos fatos. Disse que Guilherme bateu o ponto às 22h28 e apresentou fotos dos status de WhatsApp com registros dele trabalhando, inclusive uma foto da hora da saída. Também afirmou que Guilherme não sabia pilotar motos. O diretor da empresa confirmou que o jovem trabalhou naquele dia e deixou o local para pegar o ônibus.
O que dizem as autoridades
A Ponte procurou a Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) pedindo um posicionamento sobre o caso e questionando se a pasta pretende adotar alguma medida administrativa ou disciplinar contra o policial. Não houve retorno até a publicação do texto. Caso haja, o material será atualizado.