Família contesta versão de que Marcello Victor Carvalho de Araújo, 24, agrediu e tentou pegar arma de policial federal — e diz que jovem foi confundido com alvo da operação, “Marcelo da Sucata”, namorado da mãe da vítima, que acabou preso

Desde o dia 8 de outubro, a escrivã da Polícia Civil do Pará Ana Suellen Carvalho de Araújo, de 43 anos, não voltou para casa. “Tem sangue do meu filho no quarto, na sala, no corredor”, afirma. “Estou vivendo dopada, à base de remédios.”
Naquela manhã, seu único filho, o auxiliar administrativo Marcello Victor Carvalho de Araújo, 24, foi morto em uma operação da Polícia Federal na capital Belém. A assessoria da corporação alega que o jovem se deparou com a equipe tática em um dos corredores e “teria avançado contra o primeiro agente agente, desferindo-lhe um golpe e tentado alcançar sua arma de fogo” e que, por isso, “houve reação imediata, com uso proporcional da força, fato que infelizmente ocasionou na morte”.
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Ana, contudo, contesta essa versão. “Meu filho não tinha arma, não era um rapaz agressivo. Meu filho não tinha uma faca, nada que pudesse ser uma ameaça para eles [policiais]. Eles adentraram na casa, perguntaram o nome do meu filho, ele respondeu o nome e atiraram nele”, afirma a mãe do jovem.
Os agentes entraram no apartamento dela para cumprir um mandado de prisão contra Marcelo Pantoja Rabelo, o “Marcelo da Sucata”, que é namorado de Ana, no âmbito da Operação Eclesiastes. Segundo a PF, Rabelo é suspeito de liderar uma organização criminosa voltada ao tráfico internacional de drogas e à lavagem de capitais, com atuação em grupo de extermínio. A escrivã e o filho não eram alvos da ação.
‘Pensava que era bandido invadindo minha casa’
A policial civil denuncia que por volta das 5h30 da manhã ouviu um estrondo forte. “Em seguida, ouvi homens falando e o barulho de dois disparos de arma de fogo. Corri para a porta do meu quarto, depois consegui entender eles falando ‘polícia, polícia, abre a porta’ porque, até então, eu pensava que tinha sido bandido invadindo minha casa”, lembra.
Imagens de câmeras de segurança do corredor do prédio que Ana recuperou mostram ao menos cinco policiais federais paramentados com escudo e armas longas. Ela relata ter sido rendida pelos agentes e retirada do quarto. “Quando passei pela porta do quarto do meu filho, vi ele jogado no chão, e um policial federal do GPI [Grupo de Pronta Intervenção] na porta. Tentei entrar no quarto com ele e ele não deixou. Olhei, vi que tinha sangue e eles me empurraram. Saíram batendo na minha cabeça, me chamando de vagabunda e me botaram para sala”, denuncia.
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Ela afirma que não havia policial mulher na equipe e, ao pedir para usar o banheiro, foi constrangida ao ser acompanhada por um agente homem que a monitorava com a porta aberta. “Eles ficaram me olhando, inclusive um disse pra mim ‘não faz gracinha’. Eu disse pra ele ‘vocês mataram meu filho, como é que eu vou fazer gracinha?”.
Rabelo foi preso na ocasião e, segundo Ana, também teria sido agredido. Ela aponta que ficou custodiada por um agente em um dos quartos da casa sem saber o que estava acontecendo. “Fiquei três horas lá, chorando, clamando a Deus, pedindo para Deus ter misericórdia, perguntando do meu filho, pelo socorro, até o momento em que ouvi a voz de uma mulher chegando e dizendo que tinha sido um tiro no tórax”.
Depois, ela conta que os policiais federais apreenderam suas duas armas, que estavam guardadas, sendo uma particular e outra que usa no trabalho, e ela foi conduzida à Superintendência da PF para prestar depoimento. Marcello Victor teria morrido no local.

PF lamentou ‘desfecho da ocorrência’
A escrivã afirma que tinha um relacionamento “esporádico” com Rabelo e que nem ela nem o filho tinham envolvimento com suas supostas atividades. Para ela, os policiais podem ter confundido os dois, já que ambos se chamam Marcelo.
Em nota, a assessoria da PF disse que Rabelo “é conhecido por todas as forças de segurança pública, em razão de sua extensa ficha criminal e de seu histórico de atuação violenta” e que não houve confusão pois ambos são fisicamente diferentes. Também disse ter cumprido o mandado na casa de Ana porque Rabelo não estava na própria residência.
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A PF informou ainda que “lamenta o desfecho da ocorrência” e afastou os agentes das atividades operacionais enquanto o caso é investigado pela corporação. A Ponte fez questionamentos à assessoria sobre se houve uso de câmeras corporais e sobre as denúncias de agressão feitas por Ana, mas a corporação disse que o posicionamento se limita à nota emitida.
A escrivã aponta que o filho trabalhava como auxiliar administrativo na Polícia Civil do Pará desde 2023, tinha se formado em educação física e tinha o sonho de abrir uma academia para trabalhar como personal trainer. “Era eu por ele e ele por mim”, lamenta. Em nota, o MPF afirmou em que abriu um procedimento para apurar o caso e “requisitou informações à Superintendência Regional da PF no Pará, ao Instituto de Criminalística e ao Instituto Médico Legal (IML)”. O órgão também informou à reportagem que não poderia fornecer informações sobre o caso, pois ele está tramitando em sigilo.
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Ana afirma que não teve acesso ao registro da ocorrência feito na PF e que entrou com uma representação ao Ministério Público Federal para acompanhar a investigação da morte do filho. “Eu vou atrás de justiça. Vou provar que eles estão tentando macular a imagem do meu filho e a minha imagem para tentar justificar o injustificável. Eram nove homens armados com fuzil e escudo tático. Nove homens fortes perto de um menino de 24 anos franzino. Eles não tinham uma arma não letal. As únicas armas que tinham em mãos eram armas letais.”
Leia a íntegra da nota do MPF no Pará:
O Ministério Público Federal (MPF) instaurou um procedimento investigatório criminal (PIC) para apurar as circunstâncias da morte de Marcello Vitor Carvalho de Araújo, de 24 anos, ocorrida na manhã desta quarta-feira (8), durante operação da Polícia Federal (PF) no bairro do Jurunas, em Belém (PA). A morte ocorreu durante o cumprimento de mandados judiciais da Operação Eclesiastes.
Como parte da investigação, iniciada ainda nesta quarta-feira, o MPF requisitou informações à Superintendência Regional da PF no Pará, ao Instituto de Criminalística e ao Instituto Médico Legal (IML).
A decisão de instaurar o procedimento se baseia, entre outras normas, nas Resoluções nº 181/2017, nº 20/2007 e nº 310/2025 do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), que tratam do procedimento investigatório criminal, do controle externo da atividade policial e da atuação do Ministério Público em investigações de mortes cometidas por agentes de segurança pública.
