Governo Tarcísio atribui fila de criminológicos a lei aprovada por pressão do próprio governador

    Com demora para fazer exames, gestão estadual fala em “expressivo aumento” de pedidos em função da Lei das Saidinhas. Tarcísio e ex-secretário Guilherme Derrite foram principais articuladores da lei, junto de Flávio Bolsonaro

    Tarcísio de Freitas foi apoiador da Lei das Saidinhas, que criou obrigatoriedade dos exames criminológicos, assim como Flávio Bolsonaro e Guilherme Derrite, relatores do texto no Congresso | Foto: Reprodução

    O governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) atribuiu, em um comunicado enviado à Ponte, o gargalo dos exames criminológicos no estado de São Paulo às mudanças promovidas por uma lei aprovada com o apoio do próprio governador.

    Conforme mostrou a Ponte, o sistema prisional paulista tem demorado até mais de um ano para fazer os exames. Além disso, ao menos até fevereiro de 2026, haviam mais de 10 mil pedidos na fila à espera de serem realizados.

    Leia também: SP demora até mais de um ano para fazer exames criminológicos e mantém fila com 10 mil pedidos

    “A Secretaria da Administração Penitenciária paulista (SAP) adota medidas contínuas para atender ao expressivo aumento de solicitações judiciais para exames criminológicos, com média mensal de 5 mil novos pedidos, em razão das alterações promovidas pela Lei Federal nº 14.843/2024“, escreveu o governo, ao ser questionado sobre as razões para a demora na realização dos exames.

    “A pasta mobilizou os profissionais das áreas responsáveis, criou de Polos de Atendimento, equipes volantes e credenciamento de novas equipes para ampliar a capacidade de atendimento, que segue a ordem cronológica das solicitações. A média para a realização dos exames é de 60 dias”, acrescentou ainda a SAP, submetida ao governo Tarcísio, ao explicar o que tem feito para mudar esse cenário.

    A lei federal mencionada pela gestão paulista ficou conhecida nacionalmente como a “Lei das Saidinhas”. O texto passou a tornar obrigatória a realização de exames criminológicos antes da eventual concessão da progressão de regime a presos. Além disso, ele também restringiu as saídas temporárias dos presos, chamadas de “saidinhas”.

    Leia também: Tarcísio não prevê dinheiro para exame criminológico após apoiar exigência dele em presídios

    O comunicado cedido à Ponte não menciona, no entanto, que a Lei das Saidinhas foi aprovada mediante uma ampla mobilização do próprio governador paulista. Tarcísio cedeu o seu secretário da Segurança Pública à época, o deputado federal Guilherme Derrite (PP-SP), para que relatasse a lei e em mais de uma ocasião conversou com parlamentares para viabilizar a aprovação.

    Tarcísio cedeu secretário e foi a Brasília pressionar aprovação

    A Lei das Saidinhas teve início com um projeto de lei protocolado pelo deputado Pedro Paulo (PSD-RJ), o PL 583 de 2011, a princípio para tratar do uso de monitoramento eletrônico em apenados. A proposta tramitou devagar na Câmara dos Deputados, até ser arquivada. Em 2022, no entanto, ela foi retomada e passou a ter Guilherme Derrite como relator, em seu primeiro mandato como deputado.

    A partir dali, o texto ganhou um novo teor, passando a propor o fim das saídas temporárias e a obrigatoriedade dos exames criminológicos. Em agosto daquele ano, a versão de Derrite foi aprovada na Câmara e depois enviada ao Senado Federal, onde passou a tramitar como o PL 2253/2022.

    Leia também: ‘Lei das saidinhas’ acaba com regime semiaberto na prática e prevê custo de R$ 66 mi só em SP

    Entre os senadores, o texto teve novas mudanças, desta vez ao ter relatoria de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A proposta foi aprovada então pelo Senado em fevereiro de 2024. Conforme mostrou o jornal O Estado de S.Paulo à época, Tarcísio se mobilizou junto dos também governadores Romeu Zema (Novo-MG) e Ronaldo Caiado (União-GO) para pressionar a aprovação.

    Devido aos acréscimos no Senado, o texto precisou ser mais uma vez submetido à Câmara. Na altura deste retorno, Derrite já era chefe da SSP-SP, mas contou com aval do governador para se licenciar do cargo e voltar a ser relator do projeto. O próprio Tarcísio também se deslocou a Brasília naqueles dias para mais uma vez pressionar a aprovação do texto, conforme mostrou a CNN.

    Em março de 2024, o projeto foi então aprovado na Câmara, o que Tarcísio celebrou como um “dia de vitória” nas redes sociais. “São Paulo agradece os nobres deputados federais pelo cumprimento do dever e também o brilhante trabalho do relator [Derrite]”, publicou à época.

    Leia também: Direito de pessoas presas, saídas temporárias viram palanque para figurões da extrema-direita

    O texto seguiu então para as mãos do presidente Lula (PT), que o sancionou com veto a um trecho que proibia a saída temporária de presos para visitar familiares, mantendo a obrigatoriedade dos exames. Em maio daquele mesmo ano, contudo, o Congresso derrubou o veto em uma sessão conjunta da Câmara e do Senado. Mais uma vez, conforme publicou o Valor Econômico à época, Tarcísio se mobilizou para isso, fazendo ligações a parlamentares para convencê-los da derrubada.

    Exames criminológicos têm uso questionado e carecem de orçamento

    Os exames criminológicos se tratam de avaliações multidisciplinares, em geral compostos por relatórios de um psicólogo e de um assistente social. Eles são solicitados pela Justiça antes que seja concedida a progressão de regime ou mesmo liberdade condicional às pessoas presas.

    Em tese, eles deveriam ajudar o Judiciário a entender se um preso tem ou não condições de retomar o convívio em sociedade. No entanto, não existe validação científica sobre o método a ser adotado na realização dos exames e sobre a utilidade deles, uma vez que eles não permitem atestar se uma pessoa voltará ou não a cometer um crime.

    Leia também: Idosa doente é mantida presa à espera de criminológico e morre quatro dias após ser solta em SP

    Conforme mostrou a Ponte, com a obrigatoriedade dos exames, a demora para realizá-los passou, em 2025, para 60 dias em média, o que no período anterior à Lei das Saidinhas estava em 37 dias.

    À época da promulgação da lei, a Ponte noticiou que a obrigatoriedade dos exames poderia causar um colapso do sistema carcerário, uma vez que não haveria dinheiro e profissionais o bastante para realizá-los. Sem que eles fossem feitos, os presos deixariam de ser soltos no tempo devido e, por consequência, a superlotação das cadeias iria aumentar, gerando ainda mais custos ao Estado para manter a massa carcerária, além de impor maiores riscos e sobrecarga de trabalho aos policiais penais.

    Assine a Newsletter da Ponte! É de graça

    Em dezembro do ano passado, a Ponte ainda mostrou que o governo Tarcísio estabeleceu um valor de apenas R$ 3,7 milhões para o custeio dos exames em 2026, o equivalente a 10% do que seria exigido para dar conta do volume real de pedidos — segundo a plataforma Justa, que monitora o orçamento público no sistema de Justiça, seriam necessários ao menos R$ 37,9 milhões.

    Já que Tamo junto até aqui…

    Que tal entrar de vez para o time da Ponte? Você sabe que o nosso trabalho incomoda muita gente. Não por acaso, somos vítimas constantes de ataques, que já até colocaram o nosso site fora do ar. Justamente por isso nunca fez tanto sentido pedir ajuda para quem tá junto, pra quem defende a Ponte e a luta por justiça: você.

    Com o Tamo Junto, você ajuda a manter a Ponte de pé com uma contribuição mensal ou anual. Também passa a participar ativamente do dia a dia do jornal, com acesso aos bastidores da nossa redação e matérias como a que você acabou de ler. Acesse: ponte.colabore.com/tamojunto.

    Todo jornalismo tem um lado. Ajude quem está do seu.

    Ajude
    Inscrever-se
    Notifique me de
    0 Comentários
    Mais antigo
    Mais recente Mais votado

    mais lidas

    0
    Deixe seu comentáriox
    Sobre a sua privacidade

    Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.