No último final de semana, moradores que passavam pela entrada da comunidade foram revistados. Comunidade passa por violento processo de remoção por parte do governo Tarcísio, com recorrentes episódios de intimidação policial

Policiais militares fizeram abordagens a moradores na entrada da favela do Moinho, na região central de São Paulo, no último final de semana, questionando a cada pessoa se já havia aderido ao plano de reassentamento da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) — empresa estatal submetida à gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos). A comunidade passa por um violento processo de remoção conduzido pelo governo estadual, com recorrentes episódios de intimidação policial.
Na ocasião, uma viatura da Polícia Militar paulista (PM-SP) permaneceu estacionada embaixo do viaduto Engenheiro Orlando Murgel, onde é possível acessar a favela ao atravessar trilhos de trem. Ali, policiais passaram a revistar e fazer perguntas aos moradores, conforme registrado em fotos e vídeos cedidos à Ponte. À reportagem, uma moradora relatou, na condição de anonimato, ter sido abordada ao voltar do trabalho, quando trazia um saco de batatas na garupa de uma bicicleta.
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“Me levaram para um canto, olharam as coisas, revistaram a bicicleta, e aí perguntaram: ‘Tem certeza que você tem cadastro na CDHU?’. Eu falei: ‘É só você puxar pelo meu nome'”, contou a moradora, que vive há oito anos no Moinho e aguarda a CDHU concluir a compra do imóvel gratuito prometido pelos governos Tarcísio e Lula (PT) para deixar a comunidade junto da família.
A blitze ocorreu entre sábado (22/11) e domingo (23/11). Já nos dias seguintes, manteve-se na rua Doutor Elias Chaves, que dá acesso à entrada comunidade, apenas a base móvel da PM-SP, o que já era comum — os agentes ali postados não têm interagido, nem feito abordagens a quem passa.
À Ponte, a Secretaria da Segurança Pública paulista (SSP-SP) comunicou que a ação da PM-SP no local “têm como objetivo garantir a segurança dos moradores e das equipes envolvidas no processo de realocação das famílias”. Além disso, as abordagens, segundo a pasta, “seguem estritamente os parâmetros legais e ocorrem somente diante de atitudes ou situações suspeitas.
Por que ainda há famílias no Moinho
Localizada no Centro da capital, a favela do Moinho passa por um processo de reassentamento iniciado pela CDHU no ano passado. Os moradores começaram a deixar o local em abril de 2025, pressionados pela violência policial. Naquele mesmo mês, tiveram início os protestos contra a remoção das famílias sem uma reparação. As manifestações de maior projeção ocorreram em maio, ocasião que a PM-SP montou um cerco à comunidade para apoiar a CDHU em demolições de casas.
Permanecem no Moinho cerca de 300 famílias, muitas delas de mãos atadas: elas não têm para onde se mudar, ao mesmo tempo em que a CDHU tem feito da comunidade um espaço cada vez mais hostil ao avançar com as demolições de casas e de espaços de uso comum. Conforme mostrou a Ponte, os destroços dos imóveis derrubados tornaram o local um aparente cenário de guerra.
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A CDHU diz que, no começo do processo de remoção, identificou 931 moradias no local e teve a adesão de 880 famílias ao plano de reassentamento. A companhia alega ainda que 780 famílias já teriam uma unidade habitacional de destino selecionada. No entanto, segundo a Caixa Econômica Federal, 655 foram consideradas até aqui elegíveis a receber um imóvel gratuito. O banco estatal é responsável por concluir a compra da moradia escolhida por cada morador, enquanto a CDHU faz a triagem dos beneficiários.
A quem quis deixar a favela já antes de ter um imóvel em definitivo, o governo estadual ofereceu um auxílio-moradia de R$ 1,2 mil mensal — valor que destoa dos preços de aluguel praticados na região central de São Paulo — e um auxílio-mudança de R$ 2,4 mil a ser pago em uma parcela única.
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A gestão Tarcísio insere a remoção da favela no contexto da alegada revitalização da região central: a comunidade está a menos de um quilômetro da Praça Princesa Isabel, para onde o governador pretende levar parte da sede administrativa do governo. O governo estadual também alega que a comunidade estaria submetida ao controle da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).
A favela do Moinho ainda está localizada em uma área de grande interesse imobiliário. O governador diz que, caso desocupe o espaço, pretende transformá-lo em um parque. Para isso, a União, ente sob gestão Lula e ao qual pertence o terreno atualmente, terá de cedê-lo ao estado.
Leia na íntegra a nota da SSP-SP
A Polícia Militar esclarece que não restringe o acesso à comunidade e respeita integralmente o direito de ir e vir dos moradores. Todas as ações policiais no local têm como objetivo garantir a segurança dos moradores e das equipes envolvidas no processo de realocação das famílias em unidades habitacionais disponibilizadas pela CDHU. Abordagens e revistas pessoais realizadas pela PM seguem estritamente os parâmetros legais e ocorrem somente diante de atitudes ou situações suspeitas, conforme previsto na legislação e nas normas operacionais da corporação.