Após reportagem da Ponte, Ministério da Justiça e Bancada Feminina acionam OAB por trend de advogados no TikTok

Ofício cita 31 profissionais que ridicularizaram vítimas de violência doméstica por desistirem de medidas protetivas. Com a repercussão, vídeos foram apagados

Advogados usam trend do TikTok para falar sobre mulheres que pedem a revogação de medidas protetivas | Foto: Reprodução/TikTok

Na última sexta-feira (14/8), o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e a Bancada Feminina da Câmara dos Deputados pediram que a Comissão de Ética da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Federal tome providências após a Ponte revelar a existência de vídeos publicados no TikTok em que advogados e advogadas ridicularizam mulheres vítimas de violência doméstica que pedem a revogação de Medidas Protetivas de Urgência (MPU).

Na trend, profissionais do Direito aparecem digitando no computador ou mexendo em papéis enquanto cantam a música “Baile de Marginal”, do MC Rodrigo do CN. A letra afirma que mulheres gostam de sarrar em armas e querem ter suas fotos estampadas em jornais policialescos.

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Variações da frase “pedindo o cancelamento da medida protetiva porque a cliente voltou com o amor da vida dela” aparecem como título dos 15 vídeos analisados pela Ponte, entre as dezenas de publicações semelhantes encontradas na rede social.

Sob a justificativa do “humor” e do “meme”, os profissionais zombam das escolhas de mulheres vítimas de violência e banalizam um dos principais instrumentos da Lei Maria da Penha, que completa 20 anos em 2026: a Medida Protetiva de Urgência.

Revelado pela Ponte, o caso ganhou destaque nas redes sociais após a publicação da reportagem e passou a ser repercutido por influenciadores, agentes de segurança, políticos e defensoras da agenda de enfrentamento às violências contra meninas e mulheres. O assunto também foi tema de reportagens televisivas.

O ofício enviado à OAB cita 31 profissionais de diferentes regiões do país, conforme noticiou a Folha de S. Paulo. O documento é assinado pela secretária nacional de Acesso à Justiça do Ministério da Justiça e Segurança Pública, Sheila de Carvalho, e pela coordenadora da Bancada Feminina da Câmara dos Deputados, a deputada Jack Rocha (PT).

Perfis removem publicações após repercussão do caso 

Nesta segunda-feira (17/8), três das 15 publicações analisadas pela reportagem haviam sido removidas dos perfis de seus autores. Duas contas também deixaram de ser públicas e passaram a restringir o acesso aos conteúdos.

Antes mesmo da publicação da reportagem, a Ponte baixou todos os vídeos mapeados e os enviou por e-mail à OAB, junto com o pedido de posicionamento sobre o caso. A reportagem optou por não identificar nominalmente os profissionais, uma vez que o foco era denunciar a disseminação dessa prática entre advogados de diferentes regiões do país, e não promover a exposição individual dos autores nem direcionar mais engajamento aos perfis e às publicações.

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Também foram enviadas à OAB capturas de tela que mostram advogados curtindo comentários que incitam a violência de gênero. Entre eles, um sugere a morte de uma mulher como presente de Dia dos Namorados, enquanto outro afirma que uma mulher vítima de agressão teria “apanhado pouco”. 

Seguidor comenta em vídeo sobre revogação de medida protetiva | Foto: Reprodução/TikTok

O que dizem as autoridades

Em resposta à reportagem, a OAB Federal informou que recebeu o ofício enviado pelo MJSP e, como parte do procedimento formal, encaminhou o documento à Coordenação de Fiscalização da Atividade Profissional da Advocacia. 

Já o MJSP reforçou, também em nota, que a exposição pública e a ridicularização de situações de violência doméstica podem reforçar estigmas e desestimular mulheres a buscar ajuda. 

“O fato de uma vítima retomar um relacionamento, por razões que podem envolver dependência econômica, vínculos afetivos, filhos, medo ou ausência de uma rede de apoio, não elimina a situação de violência nem transforma a proteção anteriormente solicitada em motivo de deboche”, diz a nota. 

A pasta acende um alerta para a transformação de situações de vulnerabilidade em conteúdo destinado a gerar engajamento: “Quando a violência doméstica vira piada, trend ou instrumento para conquistar audiência, o risco é deslocar o foco da proteção da vítima para o entretenimento de quem assiste”.

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