Artigo | Em vez de verbas para a saúde, a promoção da morte

    Na contabilidade da atual gestão paulista, não há recursos para os servidores públicos que cuidam do bem-estar da população — mas bônus cada vez maiores para os responsáveis por reprimir e violentar populações periféricas

    Tarcísio de Freitas (Republicanos) na cerimônia 132 anos das Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (ROTA), em 1º/12/2023 | Foto: Francisco Cepeda/Governo de São Paulo
    Tarcísio de Freitas (Republicanos) na cerimônia 132 anos das Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (ROTA), em 1º/12/2023 | Foto: Francisco Cepeda/Governo de São Paulo

    Recentemente, os servidores públicos da Saúde do Estado de São Paulo ouviram do governo de Tarcísio de Freitas que não havia verba para reajuste de salários e do vale refeição. Mas quando nosso repórter Paulo Batistella foi dar uma olhada no orçamento viu que para a polícia o dinheiro estava jorrando muito bem, obrigada. A Polícia Militar recebeu R$ 829 milhões em bônus por resultados, de acordo com o levantamento do meu colega. Esse valor é 367 vezes maior do que o bônus já cedido à Saúde em todo o mandato de Tarcísio (R$ 2,3 milhões).

    Cito aqui um exemplo desenhado pelo Paulo em sua reportagem: “Em um cenário hipotético no qual o governador tivesse repartido os gastos com bonificação de modo equivalente à representatividade de cada órgão, a PM-SP teria recebido R$ 399 milhões a menos. Já os servidores da Saúde teriam tido direito a R$ 235 milhões a mais no mandato de Tarcísio”.

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    E não se engane, leitor, esse tal bônus por resultados para os policiais sequer leva em conta pontos como o combate a crimes como tráfico de drogas, estupro, estelionato, sequestro, desaparecimento forçado, lesão corporal seguida de morte e posse ilegal de arma de fogo, entre outros. E você pode imaginar que muito menos a diminuição da letalidade policial. Como se a coisa não pudesse piorar, as metas são definidas DEPOIS do prazo para batê-las.

    Para resumir: a PM de São Paulo recebe um bônus cuja meta é decidida depois do período que deveria ser alcançada. Um campo livre para se observar os resultados obtidos e estabelecer que a meta foi alcançada. 

    Herois e batalhas distintas

    Há quem exalte e defenda a polícia em nossas redes sociais (geralmente nos acusando de defender bandido) como se fossem responsáveis por grandes feitos heroicos dignos de tornarem-se lendas na mitologia contemporânea. Mas quem sempre tem estado na linha de frente em batalhas contra vírus, bactérias e toda sorte de doenças e fake news absurdas são os 45 mil funcionários públicos da Saúde. Quem lega à população um serviço de defesa da vida é a saúde.

    A pandemia foi a prova cabal e isso deveria ser mais do que suficiente para que os profissionais da saúde pública fossem recompensados. Entretanto, não houve nenhum pagamento de bônus pelo trabalho na pandemia. Mas a polícia — em um período que teve pouco a combater durante o período de lockdown — recebeu seu bônus na conta, graças aos governos Dória e Tarcísio. 

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    Atualmente, acompanhamos o aumento dos casos de intoxicações por metanol em bebidas destiladas. Ao retornar do seu passeio por Brasília, o governador comemorou que a Coca Cola não está na lista (e literalmente disse que ficaria preocupado se isso acontecesse por ser consumidor de tal iguaria) e descartou participação do PCC como se fosse um enorme absurdo que uma estrutura organizada em termos logísticos e financeiros esteja por trás disso. 

    Talvez achem que o grande responsável pela crise seja o alambique do Seu Zé (sim, contém ironia) em São Judas para lá das botas. Isso não é algo que tirei dos meus neurônios cansados (bem, a parte do Seu Zé sim), mas foi dito pelo senhor secretário de Segurança Pública de SP, Guilherme Derrite: “[…] o crime organizado no Brasil, em São Paulo, tem por objetivo principal o lucro, e esse lucro é exponencial no tráfico de drogas. Na questão da bebida, é infinitamente inferior. Porque uma organização criminosa que lucra exponencialmente com tráfico de pasta base de cocaína, inclusive com o tráfico internacional, iria migrar para um negócio muito menos rentável?”. Como se o crime organizado não diversificasse suas receitas para lavar dinheiro ou coisa do gênero. 

    Viés político e crise do metanol

    Enquanto a polícia tenta fazer um trabalho de inteligência para resolver esse caso, a saúde pública busca aumentar os estoques de antídotos e fiscalização de bares, além do trabalho de conscientização e cuidado com quem precisa. Sim, os mesmíssimos profissionais para quem o governo estadual disse que não há dinheiro nem para bônus, nem para reajuste e muito menos para elevar o vale refeição para além dos atuais R$ 12. E aqui faço um pequeno parêntesis (sim, mais um) para dizer: Intoxicação por metanol em bebida adulterada não é algo que começou ontem, provavelmente. A diferença é que agora é a boa gente diferenciada que frequenta bares nos Jardins que tem sido atingida. 

    Além do governador usar o bônus com viés político para sua base eleitoral, essa diferenciação no tratamento financeiro entre categorias de servidores também demonstra, mais uma vez, que a política adotada é a da morte. Para a surpresa de um total de zero pessoas que acompanham segurança pública em São Paulo. 

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    Valorizar servidores é valorizar serviço público de qualidade. Não apenas uma categoria, mas aquelas responsáveis por manter a vida, a saúde, a educação e o bem-viver da população paulista e também brasileira.

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