Embora a operação da PF na Faria Lima e o caso Gritzbach tenham mostrado o real endereço do crime organizado, as periferias seguem transformadas em territórios sob o signo da violência na visão das forças de segurança do estado

Nos últimos anos, a morte de policiais na Baixada Santista passou a significar operações de vingança nas comunidades locais. O saldo foram 84 mortes nas operações Escudo e Verão em 2023 e 2024. Por isso não é surpresa alguma que a morte do ex-delegado geral da Polícia Civil, Ruy Ferraz Fontes, durante uma emboscada na Praia Grande, deixou moradores e movimentos sociais preocupados.
Em nota de solidariedade à família e amigos do policial, o Movimento das Mães de Maio foi cirúrgico: “A favela e a periferia não podem pagar o preço alto sobre o que vem acontecendo há mais de duas décadas.” E completaram: “As mães estão profundamente abaladas, pois quando ocorrem situações como essas, elas revivem todo o sofrimento da perda de seus filhos, assassinados pelo Estado, por vingança.”
Ações de vingança após a morte de agentes de segurança não são novidade na segurança pública brasileira. A Chacina de Vigário Geral de 1993 ou mesmo os crimes de Maio de 2006, a Chacina de Osasco e Barueri e a Chacina do Curió, ambas de 2015, são exemplos do que acontece nas comunidades quando um policial é morto. Essas chacinas representaram dezenas de pessoas mortas ou desaparecidas por agentes do Estado em diferentes lugares do país.
Vejo um bocado de gente falando que só morre quem é bandido nessas operações, são os crentes da infalibilidade policial. (Acredite, leitor, os comentários de nosso conteúdo nas redes, às vezes, são insalubres.) Qual foi o crime que Ryan de 4 anos cometeu? Ou para essas pessoas a morte do pequeno é um efeito colateral, como o das crianças mortas em Gaza?
Será que quem matou o delegado está mesmo nas periferias? Ou será que podem estar em viaturas, gabinetes, casas legislativas, mansões de luxo? A operação na Faria Lima não me deixa mentir. O caso Gritzbach também, pois, com os dias, se descobriu que o dedo que matou o delator do PCC era uma aliança do crime organizado com policiais.
Falar que operações de vingança fazem parte de uma política de desinteligência é quase um pleonasmo. Mas esta é a verdade. O que as operações Escudo e Verão resolveram efetivamente? A Operação na Faria Lima, feita sem o disparo de um tiro sequer, foi mais eficaz e, veja bem, fez uso de inteligência (artigo tão desvalorizado hoje em dia) para ferir o crime organizado na parte de cima da pirâmide.
A criminalização de territórios periféricos é uma herança escravocrata que permanece na nossa sociedade. Uma das muitas, devo dizer. São territórios considerados de não-vida, habitados, em sua maioria, por não-humanos cuja pele denuncia o “defeito de cor” e a lei maior é a da bala. Quem mora nesses espaços sabe disso e é por isso que essas pessoas estão com medo da reação policial diante da morte do ex-delegado da Polícia Civil de São Paulo.
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