Maior chacina das ruas de São Paulo, que deixou 17 mortos em agosto de 2015, completa uma década e familiares das vítimas ainda buscam respostas. Foram apontados até 15 suspeitos, entre PMs e GCMs, mas só dois foram condenados

Era noite de 13 de agosto de 2015. Elias voltava para a casa a pé, na Rua Suzano, em Osasco, depois de jogar uma partida de futebol, quando um carro de cor prata com farois acesos se aproximou da calçada, no que aparentava ser alguém em busca de informações. Pelo vidro do passageiro à frente, com insufilm escuro e abaixado à meia altura, surgiu, no entanto, uma pistola 9mm. Quem a segurava era um homem branco de cabelo curto e rosto descoberto, com fisionomia que Elias jamais pôde esquecer. Sem dizer nada, o suspeito com a arma passou a atirar.
Acontecia ali um dos oito ataques orquestrados por um mesmo grupo naquela noite, no caso que ficou conhecido como a Chacina de Osasco e Barueri. O episódio teve 17 pessoas executadas a sangue frio e outras sete sobreviventes — baleadas nas ruas e em pequenos comércios das duas cidades na região metropolitana de São Paulo. Dez anos depois daquela que foi a maior chacina já registrada nas ruas do estado, as famílias das vítimas seguem no escuro, sem todas as respostas sobre os responsáveis.
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As autoridades cogitavam, a princípio, que dez ou até mesmo 15 pessoas teriam participado dos ataques. Apenas quatro homens, contudo, foram denunciados à Justiça, que já deu por encerrado o caso na esfera criminal. Dois deles foram condenados e estão presos: os ex-policiais militares Thiago Barbosa Henklain e Fabrício Emannuel Eleutério — este último foi reconhecido por Elias, um dos sobreviventes, como o homem que tentou matá-lo.
Os outros dois acusados, um PM e um guarda civil municipal de Barueri, foram inocentados perante um Tribunal do Júri, depois de obterem a anulação de um primeiro julgamento no qual foram condenados.
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Os ataques ocorreram em um intervalo de pouco mais de duas horas, em seis endereços de Osasco e outros dois de Barueri, com homens encapuzados e mais de um veículo identificado nas cenas dos crimes por testemunhas e câmeras de segurança. Já de início suspeitou-se de que os envolvidos eram agentes de segurança pública. Eles estariam motivados a vingar, com uma matança indiscriminada, um policial militar e um guarda civil mortos em casos de latrocínio em Osasco e Barueri.
Para o grupo de matadores, que atuava ilegalmente com “bicos” de segurança privada na região, a chacina era necessária para aterrorizar criminosos e moradores como uma resposta pela perda dos colegas, ainda que as vítimas da matança não tivessem relação alguma com os casos de latrocínio.
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A Chacina de Osasco e Barueri ainda foi precedida de outros quatro ataques que ficaram conhecidos como a “pré-chacina”: na madrugada de 8 de agosto de 2015, seis homens foram mortos em circunstâncias parecidas em Osasco, Itapevi e Carapicuíba, também na região metropolitana de São Paulo. Neste episódio, no entanto, ninguém foi responsabilizado.
Ainda hoje, famílias das vítimas da Chacina de Osasco e Barueri tentam obter a responsabilização do Estado na esfera cível, uma vez que os agressores se valeram de treinamento, informações e até munições de origem pública para cometer os ataques e dificultar o esclarecimento deles.

Quem são as vítimas da Chacina em Osasco
O primeiro dos ataques da chacina ocorreu em Osasco, na Rua Professor Sud Menucci, em frente à Bomboniere Sonho de Deus, por volta das 20h50 daquele dia 13, uma quinta-feira. Atiradores embarcados em um Peugeot prata dispararam duas vezes contra Rodrigo Lima da Silva, de 16 anos, quando a vítima conversava com o dono do estabelecimento. O adolescente morto trabalhava como entregador e aguardava o nascimento da primeira filha.
Um veículo de modelo e cor semelhantes apareceu por volta das 20h55 em outro ataque a 800 metros dali, no Bar do Tim, na Rua Astor Palamin, também em Osasco. Atiradores embarcados no carro mataram Igor Silva Oliveira, de 19 anos, e Jonas dos Santos Soares, de 33. Amigos, eles aproveitavam na ocasião uma folga para conversar e beber cerveja. Igor trabalhava como ajudante-geral na Universidade de São Paulo (USP) e Jonas era operador de máquinas, além de ser casado e pai de três meninas.
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O mais letal dos ataques ocorreu por volta das 20h51, no Bar do Juvenal, na Rua Antonio Benedito Ferreira, em Osasco, próximo à divisa com Barueri. Desta vez, cinco homens encapuzados chegaram em um Sandero prata. Foram ali executados o ajudante Adalberto Brito da Costa, de 38 anos; o porteiro Antonio Neves Neto, 40; o artesão Eduardo Oliveira Santos, 41; o pintor Fernando Luiz de Paula, 34; o mecânico Leandro Pereira Assunção, 36; Manoel dos Santos, 37; o auxiliar de escritório Thiago Marcos Damas, 32; e o atendente que cuidava do bar na ocasião, Tiago Teixeira de Souza, de 17 anos.
Ficaram feridos outros dois homens no bar. Um deles é Amauri José Custódio, baleado após ter adormecido enquanto bebia cerveja. Ele despertou depois de 13 dias de coma, em um hospital, onde permaneceu 75 dias internado. Amauri faleceu no ano passado, aos 63 anos.
O quarto ataque ocorreu na Rua Professor Moacir Sales D’Ávila, também em Osasco, por volta das 21h29. Atiradores em posse de um Peugeot prata mataram Rafael Nunes de Oliveira, de 23 anos, e feriram a tiros outras três pessoas — menos de um mês antes, ele havia sido vítima de um abordagem abusiva da Polícia Militar paulista (PM-SP), segundo relatou uma testemunha.
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A menos de dois quilômetros dali, matadores embarcados também em um carro prateado protagonizaram um quinto ataque, aquele em que Elias identificou um dos suspeitos. O sobrevivente, que teve o nome preservado ao longo de todo o processo por ser uma testemunha protegida, foi atingido com três tiros, nas costas e nos braços. Ele conseguiu, ainda assim, escapar ao pular o muro de uma casa e correr até uma unidade de pronto-atendimento mais próxima, a UPA Vila Menck.
Enquanto ele fugia, os atiradores seguiram com os disparos, ocasião em que feriram duas mulheres que estavam nas calçadas da Rua Suzano — uma delas, Letícia Vieira Hildebrand da Silva, uma estudante de 15 anos, morreu após duas semanas hospitalizada.
O sexto e último ataque em Osasco ocorreu no cruzamento das ruas Vitantonio D’Abril e Serafina D’Abril, por volta das 21h55. Atiradores em um carro mataram Deivison Lopes Ferreira, de 26 anos, que caminhava pelo local para ir à casa de um amigo. Ele trabalhava como ajudante geral em uma empresa e fazia um “bico” de carga e descarga de caminhões.
Quem são as vítimas da Chacina em Barueri
O primeiro dos ataques em Barueri ocorreu por volta das 21h57, em frente ao Bar do Osvaldo, na Rua Carlos Lacerda. Na ocasião, atiradores em um Sandero prata, modelo semelhante ao do ataque no Bar do Juvenal, dispararam 21 vezes contra Wilker Thiago Correa Osorio, de 29 anos.
A 11 quilômetros dali, ocorreu o segundo ataque em Barueri, o último de toda a chacina, em um bar na Rua Irene, por volta das 22h51 — a ação foi inteiramente registrada por câmeras de segurança do estabelecimento. Chegaram ao local cinco homens em um Sandero prata com vidros escuros. Três deles entraram no bar, com armas em punho, encapuzados e utilizando jaquetas e luvas cirúrgicas, para evitar vestígios. Um quarto homem permaneceu do lado de fora, na calçada do comércio, enquanto o motorista seguiu dentro do carro, com as portas do lado direito abertas para agilizar a fuga.
Antes das execuções, os matadores questionaram quais dos clientes do bar tinham antecedentes criminais, separando uns dos outros. As duas vítimas que assumiram já terem tido problemas com a Justiça acabaram mortas: Jailton Vieira da Silva, de 28 anos, e Joseval Amaral Silva, de 37 anos.

Como foram feitas as investigações
A hipótese de que os crimes haviam sido cometidos por uma milícia armada formada por agentes públicos foi levantada à imprensa já no dia seguinte à chacina pelo então secretário de Segurança Pública de São Paulo, o atual ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, sob ordens de Geraldo Alckmin (ex-PSDB, atual PSB), governador à época e hoje vice-presidente. Moradores do entorno também reforçaram essa impressão, conforme noticiou a Ponte à época.
A suspeita se baseou na forma como os ataques foram cometidos, nos relatos das testemunhas e nas correlações balísticas entre eles. Foram encontradas nas cenas dos crimes munições de lotes desviados da PM-SP (AAY68 e BAY18), do Exército brasileiro (BIZ91) e da Polícia Federal (BNT84 e UZZ18) — este segundo lote da PF também apareceu, anos depois, na morte da vereadora Marielle Franco (PSOL) e de seu motorista, Anderson Gomes. Foi também a partir dos vestígios de cartuchos e munições que as autoridades associaram os ataques da chacina àqueles ocorridos na pré-chacina.
Na matança prévia, foram executados a tiros Rodrigo Máximo de Souza, Lucas Roberto de Souza e Aldiberto Araújo dos Santos, por volta das 0h30 de 8 de agosto de 2015, um sábado, na Rua Pedro Paulino, em Itapevi; Rafael da Silva Santos, por volta da 1h44, na Avenida Santiago Rodilha, em Osasco; Diego Siqueira Pereira, às 3h, na Avenida Sport Club Corinthians Paulista, também em Osasco; e Michael do Amaral Ribeiro, na Rua Alvorada, em Carapicuíba, por volta das 2h56 daquela mesma madrugada.
A tese de envolvimento de uma milícia de agentes públicos também foi reforçada por dois episódios de latrocínio contra colegas de farda dos agressores. No dia anterior à pré-chacina, em 7 de agosto, foi morto por assaltantes o cabo PM Ademilson Pereira de Oliveira, de 42 anos, em um posto de combustíveis na Avenida dos Autonomistas, em Osasco, no qual fazia “bico” de segurança. O policial integrava o 42º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano (BPM/M), com atuação naquela região.
Já em 12 de agosto de 2015, véspera da chacina, foi morto também por três assaltantes o guarda civil de Barueri Jefferson Luiz Rodrigues da Silva, de 40 anos, em um estabelecimento do qual era dono na cidade, a Adega Paulista, na Avenida Marginal Direita.
Em um primeiro momento, a SSP-SP chegou a contabilizar 19 mortes na Chacina de Osasco e Barueri, mas depois desvinculou duas delas do episódio: a de Presley Santos Gonçalves e a de Eduardo Bernardino Cesar, ambos de 26 anos.
Os ataques foram investigados pela Corregedoria da Polícia Militar e por uma força-tarefa montada pela Secretaria da Segurança Pública paulista (SSP) com policiais civis do Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) e policiais técnico-científicos. Houve rusga entre as partes.
A PM ouviu, a princípio, 60 policiais do 42º BPM/M, a unidade do cabo que havia sido morto. Depois, montou, à revelia da Polícia Civil, uma operação para cumprir 18 mandados de busca e apreensão contra investigados, expedidos pela Justiça Militar. À época, a então presidente da Associação dos Delegados de Polícia de São Paulo (Adpesp), Marilda Pansonato Pinheiro, afirmou, ao jornal Folha de S.Paulo, que a Corregedoria foi afoita e comprometeu provas da chacina.
O ruído ficou ainda mais evidente no dia 26 de agosto de 2015. Durante a tarde, a Justiça comum negou um pedido da Polícia Civil para prender temporariamente um primeiro suspeito da chacina, o então soldado PM Fabrício Emannuel Eleutério, das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) — que viria a ser condenado pelo caso anos depois. À noite, contudo, a Justiça Militar atendeu a uma solicitação da Corregedoria da PM de prisão preventiva do mesmo militar.
Fabrício foi reconhecido pelo sobrevivente Elias como um dos matadores da chacina em mais de uma ocasião. Em depoimento durante uma audiência judicial, a vítima chegou a se urinar ao reconhecer o agressor.
A DHPP prendeu temporariamente, em outubro de 2015, outros seis suspeitos de participação na chacina, entre os quais cinco eram policiais militares e um era guarda civil municipal. Os locais que eles informaram ter estado na noite dos ataques divergiram do que foi descoberto posteriormente a partir do rastreio de seus celulares. Na ocasião das prisões, ainda foram detidos em flagrante outros dois PMs, por terem sido pegos com munições irregulares em suas residências.
No curso da investigação, testemunhas relataram terem sido intimidadas e precisaram aderir a um programa de proteção, o Provita. Alguns dos investigados apresentaram justificativas para se descolar do episódio que não se sustentaram ou indicaram até mesmo outros policiais como álibis. Os envolvidos recolheram cápsulas deflagradas nas cenas dos crimes, segundo foi relatado por sobreviventes. Investigados também apagaram o histórico de mensagens e contatos que mantinham no celular.
Ao colher depoimentos, a Corregedoria da PM identificou, com estranhamento, que, por volta das 23h da noite da chacina, sete policiais do 42º BPM/M se reuniram em uma casa noturna no Parque São Domingos, em São Paulo, na divisa com Osasco, em aparente celebração ou tentativa de formar um álibi. Funcionários do local, o Razzi Bar, teriam sido ameaçados posteriormente para não contribuir com a apuração. Ao final, nenhum dos agentes presentes na ocasião foi associado aos ataques.
A Polícia Civil indiciou seis policiais militares e um guarda civil. O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) deixou de denunciar três desses PMs, por entender não haver provas suficientes contra eles, e levou os outros quatro indiciados à Justiça.

Quem são os ex-PMs condenados pela chacina
Dois dos quatro denunciados foram condenados em um Tribunal do Júri encerrado em 22 de setembro de 2017, depois de cinco dias de julgamento: Fabrício Emannuel Eleutério foi sentenciado a penas que somaram 261 anos, 7 meses e 10 dias de reclusão; e Thiago Barbosa Henklain, a 253 anos, 7 meses e 10 dias de reclusão. A sentença impunha o cumprimento em regime inicial fechado.
Eles foram condenados pela prática de atos diversos na execução dos 17 homicídios consumados e dos sete tentados na Chacina de Osasco e Barueri e pelo crime de constituição de milícia privada. Ambos tentaram recorrer para ter um novo julgamento, mas tiveram o pedido negado.
À época da chacina, Fabrício já era investigado por ataques parecidos, inclusive com similaridade balística, ocorridos desde 2012. Um desses episódios ocorreu na noite de 17 de abril de 2013, no bar Nação Corinthiana, na Rua Padroeira, em Osasco, ocasião em que um homem foi morto e outros três foram feridos a tiros. Conforme denunciou o MP-SP, o ataque teria sido cometido pelo ex-PM e mais três vigilantes privados em vingança pela morte de um outro policial militar, assassinado em 5 de fevereiro daquele ano quando chegava de carro em uma farmácia onde fazia “bico” de segurança.
Uma testemunha-chave daqueles ataques, que havia trabalhado na mesma farmácia, depôs, à Polícia Civil, ter ouvido de Fabrício e dos comparsas dele detalhes de ataques que cometiam, com os quais pretendiam fazer uma “limpeza social” da região ao matar pessoas com antecedentes criminais ou frequentadoras de locais que julgavam ser ocupados por criminosos. O depoente acabou, contudo, assassinado em 6 de novembro de 2015, um dia depois de ter relatado à DHPP que estava sofrendo perseguição dos envolvidos.
Fabrício sempre negou autoria desses ataques, apurados em diferentes processos, afirmando que a testemunha mentia. Ele também alegava inocência em relação à Chacina de Osasco e Barueri.
O outro matador responsabilizado pela chacina também afirmou ser inocente ao longo do processo. Pesou para a condenação de Thiago, no entanto, o relato de uma testemunha protegida, que, posteriormente, descobriu-se ser um tio de sua esposa. O depoente narrou ainda na etapa de investigação do caso ter tido ciência de uma discussão entre o suspeito e a mulher, após ela ter reconhecido algumas roupas dele como iguais às de um dos matadores filmados no ataque na Rua Irene.
Anos depois, a testemunha passou a alegar que mentiu sobre o episódio em razão de uma desavença que teria com a sobrinha e por ter tido interesse na recompensa de R$ 50 mil anunciada pelo governo Alckmin à época da chacina para quem prestasse informações que ajudassem no esclarecimento dela.

Quem são os agentes inocentados pela chacina
Foram também denunciados, mas, posteriormente, inocentados pela Chacina de Osasco e Barueri o policial militar Victor Cristilder Silva dos Santos e o guarda civil de Barueri Sérgio Manhanhã.
Victor foi associado ao caso por uma testemunha de um dos ataques da pré-chacina, no qual Michael do Amaral Ribeiro foi morto. O depoente disse que conversava com Michael em uma via pública quando encostou junto deles um Honda Civic preto. Do carro, teriam descido dois homens que atiraram contra a vítima. Um dos matadores seria Victor, também conhecido pela testemunha como “Boy”. Os dois suspeitos ainda teriam lançado o corpo de Michael em um córrego próximo ao local.
Os projéteis encontrados na cena daquele assassinato corresponderam a outros achados no bar da Rua Irene, onde houve o último dos ataques da Chacina de Osasco e Barueri, o que fez a acusação vincular Victor também aos episódios do dia 13. Segundo o MP-SP, ele teria dirigido o Sandero prata em três dos ataques, além de atuar como organizador dos “bicos” ilegais dos agentes públicos envolvidos no caso.
Já Sérgio foi associado à chacina por conta de uma conversa de WhatsApp que teve com Victor. Às 19h02 de 13 de agosto de 2015, ele recebeu do outro envolvido quatro emojis com sinal de positivo e, cinco minutos depois, respondeu de igual modo. Às 22h58 do mesmo dia, Victor enviou um novo sinal de positivo, e Sérgio respondeu com o mesmo símbolo acompanhado de um emoji de braço forte.
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A troca de mensagens foi apagada por Sérgio, mas acabou descoberta pela Polícia Civil após uma perícia no celular dele. Para o MP-SP, os símbolos indicariam o começo e o fim dos ataques, que teriam exigido um acobertamento de Sérgio. À época, ele era supervisor de um destacamento especial da Guarda Municipal de Barueri, o Grupo de Intervenções Táticas e Estratégicas (Gite). No caso do ataque ao Bar do Juvenal, o mais letal da chacina, uma testemunha disse que, minutos antes da matança, duas viaturas do Gite passaram bem devagar em frente ao local, com os agentes olhando para dentro do estabelecimento. Ou seja, a acusação entendeu que Sérgio deslocou viaturas e prestou apoio aos matadores.
Sérgio e Victor alegaram que a troca de emojis se referia ao empréstimo de um livro de Direito Administrativo combinado entre eles. O guarda civil afirmou ainda que teria apagado a conversa por ser já um costume para liberar espaço na memória do celular.
Ambos chegaram a ser condenados a mais de 100 anos de reclusão em um primeiro Tribunal do Júri, mas tiveram seus julgamentos anulados em 2019 pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, que entendeu que os jurados foram contrários às provas apresentadas no processo. Em um novo julgamento, em 26 de fevereiro de 2021, ambos foram absolvidos pelo júri. Antes disso, em 2020, Victor também foi inocentado das acusações às quais respondia pela pré-chacina. Eles sempre alegaram inocência.
Fez parte da estratégia da defesa de Victor e Sérgio fazer ataques às famílias das vítimas, na tentativa de descredibilizá-las. Conforme mostrou a Ponte à época, o advogado João Carlos Campanini chegou a exibir ao júri um vídeo em que a promotora de Justiça Ana Maria Frigério Molinari acusava, sem prova alguma, o Movimento Independente Mães de Maio, que apoiava as mães de Osasco e Barueri, de ter ligação com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).
Depois de absolvido, o policial militar Victor Cristilder processou a Fazenda Pública para ser reintegrado à PM, já que havia sido expulso da corporação após a condenação em um primeiro momento. Ele voltou ao trabalho em 2023, por determinação do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).