Especial com duas reportagens publicado pela Ponte essa semana sobre pobreza ginecológica nas prisões femininas traz dado estarrecedor: temos apenas 24 ginecologistas para mais de 29 mil pessoas encarceradas que menstruam

Há alguns anos, eu passei 45 dias sangrando. Não era um volume muito grande, mas todo dia eu perdia um pouco de sangue. Quando comecei a ficar fraca e preocupada, fui ao hospital. Lá, depois de ver meu hemograma feito no mesmo dia, a médica sentenciou: “Vamos te dar uma medicação, se você não melhorar, vai precisar de transfusão de sangue.” Mas por que cargas d’água essa mulher está falando sobre isso?, você pode perguntar, leitor. Garanto que há um método da minha digressão pessoal.
Na semana passada, a Ponte publicou um especial com duas reportagens feitas pelas jornalistas Mariana Rosetti e Paola Churchill, cujo tema foi pobreza ginecológica nas prisões femininas. Logo no primeiro parágrafo da reportagem “Prisões brasileiras dispõem de apenas 1 ginecologista para cada 1.214 mulheres”, minhas colegas contam a história de Amanda, que, na prisão, passou 4 meses sangrando sem nenhuma assistência médica.
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É isso mesmo: 4 meses ou 120 dias. Se eu estava perto de precisar fazer transfusão com 45 dias, imagina qual era o estado da Amanda? E some-se isso ao fato de que ela passou esse tempo todo em dor, o que também não é normal. E eu posso te garantir que dores na região pélvica por conta do sistema menstrual podem ser enlouquecedoras.
Enquanto eu, com acesso ao plano de saúde, tive a oportunidade de ir ao hospital, ser atendida, examinada e medicada com urgência e, depois, ser acompanhada por uma profissional, Amanda só conseguiu acesso a uma enfermeira que lhe deu dipirona, sem fazer nenhum exame nela. O caso de Amanda e de outras mulheres surge para ilustrar um dado estarrecedor, para dizer o mínimo: no Brasil inteiro, temos apenas 24 ginecologistas para o universo de mais de 29 mil pessoas encarceradas que menstruam.
Para mim, este dado se soma ao histórico de extremo abandono social que pessoas encarceradas do sexo feminino enfrentam. Logo em nosso primeiro ano de existência, a gente denunciou o caso de uma mulher que deu à luz a um bebê enquanto estava algemada. Os impactos de uma maternidade atrás das grades também já foram fruto de reportagem em 2019.
Filhos separados das mães
Segundo um relatório sobre mulheres presas feito em 2017 pelo Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), 71% das presas no País tinham, à época, mais de dois filhos, o que significa que, na maioria dos casos de prisão, crianças e adolescentes são separados de suas mães. “Eu não sei como funciona esse negócio deles ficarem com a guarda dos meus filhos, porque eu nunca assinei nada”, disse Andresa à Ponte no especial Depois das Grades. Ela havia visto o filho pela última vez quando ele tinha 2 anos de idade. Na época da entrevista, o garoto tinha 16 anos e estava com outra família. Andresa também teve uma filha na prisão, Laura, que dormia junto com a mãe em uma cela com berço. Em 2018, o Supremo Tribunal Federal (STF) concedeu prisão domiciliar a mães presas por tráfico.
O abandono dessas mulheres encarceradas passa pelo nível familiar. “Na saidinha dos homens, se você for ver, tá dando volta à fila. Já as mulheres são abandonadas”, disse Helen Baum, 51, bacharel em direito, egressa do sistema prisional e uma das gestoras do coletivo Por Nós, rede de cuidado e apoio de mulheres sobreviventes do cárcere, à Ponte em 2023.
Nessa mesma reportagem, conhecemos Daiane Alves Honorato, que tinha, à época, um câncer na tireóide em estágio de metástase. Sentenciada em 2020 pelo crime de tráfico, ela relatou que parou de receber medicamentos e tratamento adequado quando foi transferida. Na mesma ocasião, detentas relataram sobre a qualidade da comida e infecções de pele, de onde saíam larvas.
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Na segunda reportagem que lançamos na última semana, “Panos e camisetas usados como absorventes nos presídios”, as jornalistas analisaram relatórios de inspeções realizados pela Defensoria Pública do Estado que revelam como unidades prisionais femininas seguem descumprindo obrigações básicas de cuidado com a saúde íntima das detentas — mesmo após avanços legais e implementação de políticas públicas federais que garantem esse direito.
Para citar um exemplo: ao chegarem no CDP do Butantã, as mulheres recebem apenas “1 sabonete, 1 rolo de papel higiênico, 1 pacote de absorvente com 8 absorventes, 1 pasta de dente, 1 escova dental e 1 aparelho de barbear”. Sem receber reposição dos produtos, independente do tempo que passem a ali, tendo que “se virar” com panos, camisetas e o que mais tiver à mão.
Na crueldade das interseccionalidades, os abandonos a essas pessoas vão se amontoando num mil folhas de desgraças e esquecimento. É a silenciosa condenação à morte que não está na lei mas está na inação do Estado e de nós, como sociedade. Afinal, nem todas são presas que vão ganhar biografias por serem alçadas à fama pela imprensa ou se tornaram personagens em séries de streaming famosos sobre o tal “presídio dos famosos”. Seus nomes e vidas não importam e se morrerem não farão diferença.
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