Cenas de atores sendo arrastados e uso de gás em ação da GCM no Teatro do Contêiner mostram que projeto higienista de Nunes e Tarcísio para o centro de São Paulo não perdoa usuários de drogas, moradores pobres nem artistas

É com profunda indignação e tristeza que eu falo sobre uma cena lamentável, horrível, que eu vi ontem e, infelizmente, me remeteu aos piores tempos de uma ditadura que eu vivi, onde os teatros eram invadidos e os atores eram ameaçados. É um tipo de cena que nunca imaginei que pudesse voltar, que a gente pudesse ver de novo. Porque, se há algum impasse ali, em relação a um teatro que está plantando cultura, relação, comunicação com as pessoas, fomentando o que há de melhor nas nossas vidas, que é a arte e a cultura, por que essa resposta assim?
O depoimento acima, da atriz Marieta Severo, divulgado nas redes sociais na quinta-feira (22/8), tentava entender o espetáculo de truculência da Guarda Civil Metropolitana (GCM) de São Paulo, ao desocupar na terça (19/8) um edifício anexo ao Teatro de Contêiner — erguido em 2017 pela Cia Mungunzá de Teatro em um terreno público em desuso na Rua dos Gusmões, na Santa Ifigênia, então uma das áreas mais degradadas da cidade.
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Estamos na São Paulo do prefeito neobolsonarista Ricardo Nunes (MDB), de modo que uma iniciativa cultural que valoriza e recupera uma área negligenciada há décadas pelo poder público, é vista — no gaslighting político cotidiano em que vivemos — como problema, não como solução.
Não por acaso, a explicação dada pelo secretário municipal de Cultura, Totó Parente, diante da dramaturgia tosca dos guardas da IOPE imobilizando e arrastando artistas e jogando gás de pimenta em um espaço ocupado por crianças e idosos, revela o tamanho de seu parentesco com a área cultural: “A prefeitura é a favor da cultura, não da baderna.”
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A verdade é que Nunes e seu padrinho político, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), conduzem de forma autoritária um processo de “readequação e reurbanização” do centro, de indisfarçável tom higienista, que a Ponte denuncia há mais de um ano. Antes dos atores da Mungunzá, vimos a dispersão de usuários da chamada Cracolândia e as tentativas de desocupação, à força de bombas e violência policial, dos moradores da Favela do Moinho, a última remanescente na região.
A tentativa de despejo do Teatro de Contêiner — criticada em carta assinada por mais de 7 mil pessoas, entre intelectuais, artistas e profissionais de diversas áreas, foi barrada pela Justiça em caráter cautelar, como informamos na sexta-feira (22/8) — é o terceiro ato de uma farsa que pretende convencer os paulistanos de que a vida urbana se constrói à base de cassetete e violência, sem ouvir os cidadãos que efetivamente vivem, trabalham e produzem a cultura de uma grande metrópole.
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