Dor, memória e busca por justiça: ato marca 10 anos da Chacina de Osasco e Barueri

Familiares e ativistas realizam ato em homenagem às 17 vítimas executadas em 2015; apenas dois ex-policiais foram condenados, e o Estado ainda não foi responsabilizado

Dona Zilda, das Mães de Osasco, e Débora Silva, das Mães de Maio, durante ato em memória de seus filhos | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

O entregador Rodrigo Lima da Silva, 16 anos; o ajudante-geral Igor Silva Oliveira, 19; o operador de máquinas Jonas dos Santos Soares, 23; o ajudante Adalberto Brito da Costa, 38; o porteiro Antonio Neves Neto, 40; o artesão Eduardo Oliveira Santos, 41; o pintor Fernando Luiz de Paula, 34; o mecânico Leandro Pereira Assunção, 36; Manoel dos Santos, 37; o auxiliar de escritório Thiago Marcos Damas, 32; o atendente Tiago Teixeira de Souza, 17; Rafael Nunes de Oliveira, 23; a estudante Letícia Vieira Hildebrand da Silva, 15; o ajudante-geral Deivison Lopes Ferreira, 26; Wilker Thiago Correa Osorio, 29; Jailton Vieira da Silva, 28; e Joseval Amaral Silva, 37.

Neste sábado (15/8), familiares, amigos e ativistas de movimentos sociais participaram de um ato em memória dos dez anos da Chacina de Osasco e Barueri. Os nomes acima são das 17 vítimas executadas; outras sete sobreviveram. Os ataques armados nas duas cidades da Grande São Paulo ocorreram em vias públicas e pequenos comércios.

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A manifestação ocorreu na quadra de esportes do bairro Jardim Mutinga, em Osasco, onde o pintor Fernando Luiz de Paula costumava se reunir com os amigos depois de partidas de futebol ou basquete. Hoje, a mãe dele, Zilda Maria de Paula, 72, ocupa o espaço ao menos uma vez por ano para homenagear o único filho.

A cerimônia começa com um almoço na casa de Zilda e continua com uma caminhada pelas ruas do bairro, na periferia de Osasco — um evento que já se tornou tradição. Em 2022, ao chegar à quadra, Zilda chorou. Naquele ano, uma enorme bandeira com o rosto de Fernando foi carregada pelos companheiros do Bola +1 FC, time de várzea da comunidade do qual o jovem fazia parte. No ano passado, a ativista foi acolhida e levada ao hospital após sofrer uma queda de pressão.

Neste sábado, Zilda fez questão de agradecer o apoio que outras mães de vítimas da violência têm prestado ao longo da última década. Estiveram presentes no ato representantes das Mães de Maio, das Mães de Manguinhos e da Rocinha e do MNU (Movimento Negro Unificado). “Eu estou aqui de pé por causa de vocês”, disse ela.

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Fernando foi morto no mais letal dos ataques da chacina. Cinco homens desembarcaram de um Sandero prata e assassinaram oito pessoas, deixando outras duas feridas, no Bar do Juvenal, em Osasco. Antes de sair de casa, que ficava a dez minutos a pé do local, ele havia pintado uma parede da sala onde vivia com a mãe. Pouco antes das 21h, Zilda ouviu o barulho dos tiros, seguido de um silêncio incomum no bairro. Logo depois, recebeu a notícia de que Fernando havia sido baleado.

A manifestação chamou a atenção dos moradores e comerciantes do Jardim Mutinga. Wellington Quelis Pereira, 48 anos, se emocionou ao ver dona Zilda. Ele foi amigo de infância de Fernando, a quem descreve como “um menino de coração bom”.

“Era um cara trabalhador. Meu filho, que era pequeno na época, ainda lembra dele com carinho até hoje”, contou.

Faixa com linha do tempo com massacres em SP desde 1981 | Foto: Daniel Arroyo / Ponte Jornalismo

Dez anos de luto

Para Aparecida Gomes da Silva Assunção, 63, mãe de Leandro Pereira Silva Assunção, 36, uma das vítimas, passar pelo local é reviver a dor. “Esses dez anos passaram muito rápido. Foram dez anos terríveis”, disse ela, com os olhos cheios de lágrimas.

Antônia Gomes da Silva, 53, também perdeu o filho no Bar do Juvenal. O dia 13 de agosto marcou sua família para sempre. Jailton Vieira da Silva, 30, foi morto no mesmo dia em que a avó dele, Antônia Costa, 83, sofreu um AVC que a deixou debilitada até o fim da vida.

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Sem o filho, que era o responsável pelo sustento da casa, Antônia passou a cuidar sozinha dos três netos, que tinham 1, 5 e 8 anos quando o pai foi morto. Também assumiu os cuidados da mãe, profundamente fragilizada pelo AVC. Desde então, diz ela, não houve mais um dia de felicidade na vida da família.

Hoje, conta Antônia, os netos têm medo da polícia.

Famíliares de vitimas e ativistas dos direitos humanos participaram do ato em memória aos 10 anos da Chacina | Foto: Daniel Arroyo / Ponte Jornalismo

O que foi a chacina

A Chacina de Osasco e Barueri ocorreu em 13 de agosto de 2015. Dez anos depois, as famílias das vítimas ainda não têm todas as respostas sobre os responsáveis pelo crime.

Os ataques ocorreram em pouco mais de duas horas, em seis endereços de Osasco e dois de Barueri, envolvendo homens encapuzados e mais de um veículo, identificados por testemunhas e câmeras de segurança.

Ação dos matadores no último dos oito ataques da chacina foi filmada por câmeras de segurança | Foto: Reprodução

Desde o início, suspeitou-se que os envolvidos eram agentes de segurança pública, motivados a vingar um policial militar e um guarda civil mortos em casos de latrocínio na região.

O grupo de matadores, que atuava ilegalmente com “bicos” de segurança privada, via a chacina como uma forma de aterrorizar criminosos e moradores, mesmo que as vítimas não tivessem qualquer relação com os casos de latrocínio.

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As autoridades cogitavam que dez ou até 15 pessoas teriam participado dos ataques. No entanto, apenas quatro homens foram denunciados à Justiça, que já encerrou o caso na esfera criminal. Dois deles foram condenados e estão presos: os ex-policiais militares Thiago Barbosa Henklain e Fabrício Emannuel Eleutério — este último reconhecido por um dos sobreviventes como o homem que tentou matá-lo.

Os outros dois acusados, um PM e um guarda civil municipal de Barueri, foram inocentados pelo Tribunal do Júri, após obterem a anulação de um primeiro julgamento em que haviam sido condenados.

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Até hoje, as famílias das vítimas da Chacina de Osasco e Barueri tentam obter a responsabilização do Estado na esfera cível, já que os agressores se valeram de treinamento, informações e até munições de origem pública para cometer os ataques, dificultando o esclarecimento dos crimes.

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