‘Não pode esquecer, tem que incomodar’: mãe pede memória e justiça dez anos após chacina

    Aos 72 anos, Dona Zilda mantém luta contra violência de Estado junto de outros familiares das vítimas da Chacina de Osasco e Barueri — a maior já registrada nas ruas do estado de São Paulo. Caso deixou 17 mortos em 13 de agosto de 2015

    Zilda Maria de Paula, de 72 anos, divide um dos dois sofás de casa com três cães vira-latas: Neguinho, Magrinho e Pim. Há dez anos, eram nove cães, que faziam parecer pequeno o imóvel no Morro do Piolho, divisa de Barueri com Osasco, na região metropolitana de São Paulo.

    Eles foram adotados pelo único filho dela, Fernando Luiz de Paula, apaixonado por animais desde criança. A mesma casa agora parece enorme, diz Dona Zilda, como é conhecida, conforme os bichos foram dando adeus à vida. O maior vazio do lar, no entanto, é pela falta de Fernando.

    O filho dela foi morto a tiros aos 34 anos na noite de 13 de agosto de 2015 — no caso que ficou conhecido como a Chacina de Osasco e Barueri.

    O episódio teve 17 pessoas executadas a sangue frio e outras sete sobreviventes, baleadas nas ruas e em pequenos comércios das duas cidades por agentes de segurança pública que formavam ilegalmente uma milícia de “bicos” de segurança privada. Os assassinos queriam vingar, com uma matança indiscriminada, as mortes de um policial militar e de um guarda civil.

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    Passada uma década daquela que foi a maior chacina das ruas do estado, o caso foi dado como encerrado pela Justiça na esfera criminal. Embora tenha sido cogitada a participação de até 15 pessoas nos ataques, dada a dinâmica deles, apenas dois matadores foram condenados. E Dona Zilda, junto de outras mães, esposas e filhos das vítimas, mantém-se ativa na luta por memória, verdade e justiça contra a violência de Estado, tendo fundado o movimento Mães de Osasco e Barueri.

    “Aqui nunca mais foi a mesma coisa. No Ano-Novo, eu fazia festa em casa, vinha todo o pessoal. Era aquela folia, os meninos se vestiam de branco, davam uma volta, entendeu? Até hoje encontro os colegas do Fernando, eles vêm me lembrar disso. Ninguém esqueceu. Eu falo que as lágrimas param, mas não secam”, conta ela. “Você imagina eu ficar sozinha. Para mim, isso aqui é uma mansão, sabe? Então, eu procuro me envolver com esse pessoal. Só que a realidade quando entro no meu portão é que falta tudo.”

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    “A gente faz porque não pode se calar”, afirma Zilda sobre a luta que leva há uma década, às vésperas de mais um ato, repetido a cada ano, para lembrar a chacina — o encontro de 10 anos foi agendado para o próximo sábado (16/8), a partir das 14h, em uma quadra poliesportiva na Rua Alagoinha, 940, no Jardim Mutinga, mesmo bairro que abriga o Morro do Piolho.

    “A gente faz isso para ver se ameniza um pouco as mortes, mas parece que não, né? Aqui no Brasil, não dá para levar a sério as coisas, porque tem tanto escândalo, tanta coisa errada, que não dá tempo de colocarem uma coisa em dia e já vem outra. É chacina aqui, é morte ali. Então, a gente não pode esquecer, a gente tem que estar sempre incomodando”, diz.

    Zilda Maria de Paula, mãe de Fernando, morto em 13 de agosto de 2015, fala com Ponte ao lado dos vira-latas Pim, Neguinho e Magrinho, suas únicas companhias: “A gente não pode se calar” | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

    Filho morreu no mais letal dos ataques da chacina

    Os ataques da chacina ocorreram em um intervalo de pouco mais de duas horas de uma noite de quinta-feira, em seis endereços de Osasco e outros dois de Barueri, com homens encapuzados e mais de um veículo identificado nas cenas dos crimes por testemunhas e câmeras de segurança. Houve ainda a pré-chacina, cinco dias antes, na qual seis homens foram mortos em circunstâncias parecidas em Osasco, Itapevi e Carapicuíba, também na região metropolitana de São Paulo.

    O filho de Dona Zilda, que trabalhava como pintor, foi vitimado no mais letal dos ataques, no Bar do Juvenal: ali cinco matadores embarcados em um Sandero prata assassinaram oito pessoas e deixaram outras duas feridas. Naquele dia, antes de ir ao bar, a dez minutos a pé de casa, Fernando havia pintado uma das paredes da sala da mãe, na qual ela mantém hoje penduradas fotos de diferentes momentos da vida e uma coleção de CDs do filho. Pouco antes das 21h, Zilda ouviu o barulho dos tiros.

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    “Como costumam soltar fogos aqui às vezes, eu saí no muro para ver, mas achei estranho, porque não tinha gritaria, cachorro latindo, fumaça, nada. Aquele silêncio”, relembra. “Aí os meninos vieram aqui e um deles falou assim: ‘Ô, tia Zilda, pega o seu documento porque o Abuse [apelido de Fernando] foi baleado’. Ficou aquele silêncio, e eu falei: ‘Morreu?’. Ninguém me respondeu.”

    A partir dali, Zilda precisou cuidar sozinha de todos os trâmites burocráticos para reconhecer, enterrar e, anos depois, exumar o filho. A vida toda foram apenas os dois: ela teve Fernando aos 27 anos, depois de ter sofrido quatro abortos, e se separou do pai dele quando o menino tinha três anos de idade. Criou o garoto, de pele preta como a da mãe, com o trabalho de empregada doméstica.

    “Eu falava: ‘Fernando, não fica em turma, porque a polícia não gosta de turma’. Eu cheguei a ver um pouco da ditadura. A polícia não gosta mesmo de grupo, ainda mais de preto e favelado. Eles vão para cima. Mas ele falava assim: ‘Eu não devo nada’. Mas e eles querem saber quem deve e quem não deve?”, questiona a mãe. “É revoltante, porque esses meninos nem sabem por que morreram.”

    Familiares relembram, a cada ano, a data da Chacina: o próximo ato será no próximo sábado (16/8), a partir das 14h, em uma quadra poliesportiva na Rua Alagoinha, 940, Jardim Mutinga | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

    Dor da perda piora em datas especiais

    Dona Zilda diz que a dor pela perda de Fernando não cessou, mas já foi sufocante. “No começo, eu sonhei que estava aqui em um dia de tarde, e ele estava sentado aqui. Ele tinha mania de sentar e ficar mexendo com alguma coisa. Eu levantei e falei: ‘Fernando, ainda tem bebida aqui de festa, um resto de batida’. Eu lembro que ele falou: ‘Não joga fora, não, mãe. Vai ter outra festa’. Mas eu não vi o rosto dele. Ele abriu a porta e foi indo embora, aí eu falei: ‘Fernando, não vai embora, não’. E aí acordei.”

    Os animais de estimação da casa também sentem a falta do companheiro: “Ele costumava chegar lá para umas 23h30, e esses cachorros ficavam todos latindo. Com o tempo [já depois da chacina], dava esse horário, e os cachorros latiam. Você ia ver e não tinha nada na rua.”

    Hoje em dia a mãe diz que a dor é mais latente em datas especiais. “Quando chega é a pior coisa: aniversário, que ele era de março, depois vem essa data agora [do dia da chacina], o Natal. No Natal, eu fiquei sozinha aqui. As meninas me chamaram, tinha lugar para ir, mas me isolei aqui, não estava afim. O que mais me dói é quando dá meia-noite [do Ano-Novo] e soltam os fogos. Ele poderia estar em qualquer lugar, mas vinha me dar um abraço antes de sair”, lembra-se.

    No plenário da Câmara Municipal de São Paulo, no dia 22 de março de 2024, ao receber o Prêmio Marielle Franco de Direitos Humanos: “Somos vítimas da mesma bala” | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

    ‘Documento de favelado e negro é título de eleitor’

    Ao longo dos anos, Dona Zilda viu dois policiais militares serem condenados a mais de 200 anos de prisão pela chacina. Outros dois denunciados à Justiça, sendo um PM e um guarda civil, foram inocentados depois de terem tido um primeiro julgamento anulado. As famílias das vítimas da Chacina de Osasco e Barueri tentam ainda hoje obter a responsabilização do Estado na esfera cível.

    A mãe de Fernando diz que também nunca teve respostas de quem prometeu buscar pelos culpados: à época dos ataques, o estado era governado pelo atual vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e tinha o hoje ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes à frente da Secretaria da Segurança Pública paulista (SSP-SP). Nenhum deles a recebeu em seus gabinetes. “Para você ver como são as coisas da vida: na época em que o filho do Alckmin morreu [por uma queda de helicóptero, em abril de 2015], o meu filho estava vivo. Eu vi o Alckmin [pela televisão] subindo aquela escada para ir ao IML e falei: ‘Meu Deus, coitado desse pai’. Não deu dois meses, e aconteceu o mesmo comigo.”

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    Zilda diz que, além da descrença no sistema de Justiça, amadureceu nesses anos a percepção sobre como a memória de pessoas negras é apagada no país. “Às vezes eu falo: ‘Qual é o documento de um favelado, de um negro? O título de eleitor’. No dia da eleição, o nosso documento é válido. Outra coisa que eu falo: ‘Sabe quanto custa um quilo de pescoço de frango ou uma carcaça? Eles têm preço, e a carne negra, não’. Falam que é o mais barato, mas a carne negra não tem preço.”

    “A nossa história é muito mentirosa. Falavam que o português gostava muito de negra, mas por quê? Porque estupravam elas, faziam o que não podiam fazer com a sinhazinha. O [engenheiro André] Rebouças era negro, eu não sabia. Me falaram que o Tebas [Joaquim Pinto de Oliveira] também [era negro], que foi um dos arquitetos da igreja da Praça da Sé. Entendeu?”, questiona Zilda. “Aquele escritor, Machado de Assis, para mim era um branco, por causa da foto.”

    ‘Sempre penso que falta o meu filho aqui’

    Zilda diz que, às vezes, se sente cansada, mas que segue combativa porque precisa acolher outras mães de vítimas de violência policial. “Enquanto a gente tiver força e luta, vamos levantar a bandeira, porque [os denunciados] já foram julgados. Eu acho que esses meninos [as vítimas] nos juntaram. Eu fico com um pouco de ansiedade. A gente quer que dê tudo certo, porque é nós por nós mesmo, e acabou.”

    Ela afirma que, mais recentemente, conseguiu deixar de se sentir ansiosa ao ouvir Zeca Pagodinho, de quem aprendeu a gostar com o filho, assim como os Racionais MC’s — a dor da perda a fazia evitá-los. “A última que eu ouvia com ele do Zeca era ‘Ogum’, era lançamento naquela época. Aí eu falei: ‘Fernando, o Zeca está cantando coisa de Ogum?’. ‘É, mãe.’ Eu agora estou conseguindo ouvir o Zeca, mas, no começo, eu falava para o pessoal: ‘Não, gente, o Zeca não’. E dos Racionais, eu toco aquela de São Jorge [Jorge da Capadócia]. Você vê como são as coisas: fala tudo sobre nós”, conta.

    Dona Zilda diz que também já consegue ter a casa cheia — e pequena para ela e os cachorros — ao menos no aniversário e nos dias de ato em memória da chacina, ocasião em que reúne as famílias das vítimas para um almoço. “Agora, no meu aniversário, faço uma feijoada. É a vida que segue, né? Mas eu sempre penso que está faltando o meu filho aqui.”

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