Casos de Paraisópolis e do Carandiru mostram como a demora na responsabilização prolonga a violência contra vítimas e familiares e pode permitir que novos crimes aconteçam

Há algumas semanas comecei a ler Milicianos, do jornalista Rafael Soares, repórter d’O Globo. O livro tem um subtítulo que já dá uma boa dimensão do que está por vir: *Como agentes formados para combater o crime passaram a matar a serviço dele*.
Estou na página 150. Já passei pelos capítulos sobre Ronnie Lessa, assassino de Marielle Franco, e sobre a Patamo 500, unidade de um batalhão da Polícia Militar do Rio de Janeiro, onde ele e outros policiais foram tratados como heróis antes que alguns de seus integrantes aparecessem envolvidos em crimes. Passei também pela história de policiais que fizeram a segurança de figuras centrais do jogo do bicho, tornaram-se sócios de negócios ilegais e acabaram mortos em disputas desse mesmo universo, além dos capítulos sobre a entrada de armas e munições no Rio de Janeiro.
É um livro sobre muitas coisas, mas principalmente sobre a promiscuidade entre agentes do Estado e o crime. E, pelo menos até onde cheguei, também é um livro sobre investigações. São elas que, muitas vezes depois de anos, permitem reconstruir essas histórias, identificar os envolvidos e entender relações que permaneceram escondidas durante muito tempo. E foi justamente o tempo que ficou na minha cabeça durante a leitura.
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Em determinado momento, Rafael conta como mudanças nas regras de acesso a armas durante o governo Jair Bolsonaro poderiam permitir que pessoas como Ronnie Lessa tivessem acesso legal a armamentos. As investigações descobriram que, além de matador de aluguel, Lessa também atuava no tráfico de armas e tinha adquirido grande quantidade de peças e equipamentos para a montagem de fuzis.
Pensei então em uma espécie de contradição do tempo. Foi a investigação do assassinato de Marielle Franco que acabou alcançando Ronnie Lessa e revelando outros crimes. Sem aquela investigação e sem sua prisão, por quanto tempo mais ele poderia continuar atuando?
Essa pergunta me acompanhou enquanto editava duas reportagens publicadas pela Ponte nesta semana. Uma delas é sobre o Massacre de Paraisópolis. Quase sete anos depois das mortes de nove jovens, a Justiça decidiu que 12 policiais militares serão levados a júri. Ainda não há data para que isso aconteça. Existe agora a possibilidade de responsabilização, mas ela chega depois de anos em que as famílias precisaram continuar vivendo sem uma resposta definitiva.
Penso especialmente em Maria Cristina Quirino, mãe de Denys Henrique, uma das vítimas. Entre 2019 e 2026, Cris acompanhou outros casos de violência policial serem arquivados, chegarem aos tribunais ou terminarem com absolvições. Nesse período, foi obrigada também a se transformar em uma figura pública de luta por justiça pelo próprio filho. Esse tempo também pune.
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Paraisópolis poderia ter sido um marco capaz de impedir outras mortes. À época do massacre, o então governo João Doria anunciou medidas como o programa Olho Vivo, de câmeras corporais. Mas outras chacinas e outras mortes provocadas por policiais continuaram acontecendo enquanto as famílias de Paraisópolis ainda esperavam pelo julgamento do próprio caso.
A outra reportagem que me fez pensar nisso é a de Maurício Monteiro, sobrevivente do Massacre do Carandiru. Mais de três décadas depois do massacre, ele conseguiu nesta semana uma vitória na Justiça. Ainda cabe recurso, mas a decisão reconheceu seu direito de pedir indenização pela tortura que sofreu, rejeitando a ideia de que o tempo transcorrido desde o crime impediria essa reivindicação.
Maurício passou esses mais de 30 anos não apenas como sobrevivente, mas como alguém que trabalha ativamente pela preservação da memória do massacre. Hoje, conta a história do Carandiru em um projeto desenvolvido justamente no Parque da Juventude, construído no lugar onde funcionava o presídio.
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Talvez seja isso que mais me incomode quando penso nesses casos juntos. Para quem olha de fora, sete anos, 30 anos ou o intervalo entre um crime e sua investigação podem parecer apenas números numa linha do tempo. Para quem está dentro dessas histórias, o tempo é outra coisa.
Ele pode significar anos acompanhando novos casos parecidos com aquele que destruiu sua família. Anos vendo policiais acusados de crimes continuarem trabalhando. Anos tendo que repetir a história de um filho morto para que ela não seja esquecida. Anos transformando a própria dor em luta por memória.
A Justiça precisa de investigação, provas, contraditório e ampla defesa. Mas ela também precisa de tempo. Ou, mais precisamente, precisa responder em um tempo que não transforme a espera em uma extensão da violência.
Responsabilizar policiais que cometem crimes, afastá-los quando necessário, investigar e julgar com seriedade não serve apenas para responder ao que já aconteceu. Também pode impedir aquilo que ainda aconteceria.
Uma investigação pode interromper a trajetória de alguém que continuaria matando. Uma condenação pode impedir novos crimes. Uma indenização nunca desfaz uma tortura, mas reconhece que alguém foi vítima dela. Uma resposta institucional rápida pode fazer com que uma mãe não precise passar uma década perguntando quando chegará a vez de seu filho.
Justiça tardia ainda pode ser justiça. Para Maurício, a decisão desta semana importa. Para as famílias de Paraisópolis, a realização do júri importa. Mas talvez não seja suficiente perguntar se a Justiça chegou. Também precisamos perguntar quanto custou esperar por ela.
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