Uma década após a morte de 11 pessoas em uma ação de vingança de policiais militares em Fortaleza, mulheres que perderam filhos, maridos e sobrinhos transformaram luto em luta, buscaram responsabilização e agora reivindicam políticas públicas contra a violência de Estado

Entre as noites de 11 e 12 de novembro de 2015, uma série de ataques em bairros da Grande Messejana, na capital cearense, deixou 11 pessoas mortas e outras feridas. As execuções, cometidas por policiais militares, duraram pouco mais de três horas e espalharam o terror por diferentes regiões de Fortaleza. Desde então, são mais de 3,5 mil dias de espera, dor e mobilização por justiça.
Ao todo, 34 policiais militares foram pronunciados para ir a júri popular. Três deles tiveram o caso desclassificado para a Justiça Militar. Dos 30 que permaneceram sob competência do Tribunal do Júri, 29 já foram julgados — oito condenados, 21 absolvidos e um com julgamento suspenso.
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As investigações apontaram que os ataques foram uma vingança pela morte do soldado Valtermberg Chaves Serpa, assassinado no dia anterior durante uma tentativa de assalto no bairro Lagoa Redonda.
As vítimas eram adolescentes, jovens e adultos: Álef Souza Cavalcante (17), Antônio Alisson Inácio Cardoso (17), Jardel Lima dos Santos (17), Marcelo da Silva Mendes (17), Marcelo da Silva Pereira (17), Patrício João Pinho Leite (17), Renayson Girão da Silva (17), Pedro Alcântara Barroso (18), Jandson Alexandre de Sousa (19), Valmir Ferreira da Conceição (37) e Francisco Enildo Pereira Chagas (41).
O episódio ficou conhecido como Chacina do Curió (ou da Messejana) e marcou o Ceará como um dos casos mais graves de violência de Estado no país.

“A dor virou luta”
Nos dez anos seguintes, o que começou como desespero se transformou em movimento. A rede de mães e familiares que se formou após a chacina passou a pressionar por responsabilização e criou um espaço de apoio mútuo. Para Ana Costa, viúva de José Gilvan Pinto Barbosa, morto aos 41 anos, o caminho foi árduo. “Para mim, que perdi meu marido, foi muito difícil ficar sendo mãe solo, cuidar da minha filha e sobreviver todos os dias. Mas a fome e sede de justiça eram maiores dentro do meu coração”, disse à Ponte.
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Em coletiva recente, após o quinto júri do caso, Ana relembrou a trajetória das mulheres do grupo: “Quando nos juntamos para transformar o luto em luta, já estávamos dizendo para a sociedade que não iríamos parar. Não foi fácil para nenhuma de nós. Minha filha tinha 9 anos quando perdi meu esposo. Ela cresceu sem o pai dela. Fui mãe e pai. Mas a sede de justiça era muito forte”.
Hoje, Ana fala em missão cumprida, mas não encerrada: “A dor se transformou em justiça. A cobrança foi cumprida, mesmo que nem todos tenham sido condenados. A gente lutou para que nossos familiares tivessem paz”.

“Meu filho era um menino doce”
Edna Carla Souza Cavalcante, mãe de Álef, ainda se lembra de cada detalhe da notícia que mudou sua vida. Estava trabalhando em uma creche quando recebeu uma ligação pedindo o endereço do local. Achou que fosse alguém interessado em matrícula. Pouco depois, viu a filha chegar chorando e entendeu que algo terrível havia acontecido: Álef tinha sido assassinado.
O garoto, de 17 anos, sonhava em entrar no Exército. “Não imaginei que o sonho que tínhamos para meu filho ia ser interrompido pela própria polícia, destruído pela polícia”, disse Edna, à época.
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Além de lidar com a perda, ela enfrentou a tentativa de criminalização da imagem do filho. “Diziam que ele era matador de policial. Ele não era. Além de perder meu filho, tive que aguentar gente dizendo que ele era vagabundo. Eu queria morrer”, recordou.
Dez anos depois, Edna se tornou uma das principais vozes do Movimento Mães do Curió. “A gente se apoia uma na outra. Luta para que não morram outros jovens, outros Álefs, outros Jardeis. Porque se você nasceu pobre, já nasceu marcado para morrer. A gente luta pela memória dos nossos filhos e pelos jovens que ainda estão vivos.”

“Nunca mais será a mesma coisa”
Silvia Helena Pereira de Lima é mãe de Cícero de Paulo, sobrevivente da chacina, e tia de Jardel Lima dos Santos, morto aos 17 anos. Na madrugada de 12 de novembro de 2015, ela ouviu disparos perto de casa e correu para a rua. Foi a primeira a chegar ao local. Encontrou o filho ferido próximo ao portão e, ao lado, outro jovem caído em um degrau de escada — achou que fosse o sobrinho Jardel. Os dois, conta, eram muito parecidos de costas.
Enquanto falava com a polícia pelo telefone, ouviu alguém gritar: “eles estão voltando”. Silvia se abaixou atrás de uma mureta e tentou fazer o filho se calar, com medo de que os atiradores percebessem que ele ainda estava vivo. Os homens voltaram, recolheram cartuchos e deram novos tiros. Cícero sobreviveu mesmo após levar 12 disparos.
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“Ficava cheio de polícia no hospital. Eu tinha medo que entrassem e terminassem o serviço”, contou à Ponte em 2019. Hoje, com uma bala ainda alojada nas costas, o filho segue em recuperação física e psicológica.
Aos 59 anos, Silvia segue atuando no grupo de mães, mesmo com o medo ainda presente. “Tenho medo, sim. E como tenho. Mas não posso me deixar levar por ele. Nunca mais será a mesma coisa quando vejo um carro da polícia, um fardado andando.”
Como foram os julgamentos?
O caso, um dos mais longos da história do Judiciário cearense, teve 45 policiais denunciados e 44 tornados réus. No decorrer do processo, 10 foram impronunciados, três desclassificados para a Justiça Militar e um faleceu, restando 30 réus divididos em três ações na 1ª Vara do Júri de Fortaleza.
Entre 2023 e 2025, foram realizadas cinco sessões de julgamento, que, segundo o Tribunal de Justiça do Ceará, somaram mais de 330 horas de júri. Vinte e nove policiais foram julgados — oito condenados, 21 absolvidos (incluindo os sete que integravam o chamado núcleo da omissão, grupo de PMs acusados de não impedir os ataques nem socorrer as vítimas) e um teve o julgamento suspenso por questões de saúde mental. O Ministério Público recorreu das decisões absolutórias.
Quem foi condenado
- Antônio José de Abreu Vidal Filho, Marcus Vinícius Sousa da Costa, Wellington Veras Chagas e Ideraldo Amâncio: condenados em junho de 2023 a 275 anos e 11 meses de prisão cada, por 11 homicídios qualificados, três tentativas de homicídio e crimes de tortura.
- José Oliveira do Nascimento: condenado em setembro de 2023 a 210 anos e 9 meses de prisão por 11 homicídios, três tentativas de homicídio e três torturas.
- José Wagner Silva de Souza: condenado na mesma sessão a 13 anos e 5 meses por torturas.
- Marcílio Costa de Andrade: condenado em setembro de 2025 a 315 anos e 11 meses de prisão.
- Luciano Breno Freitas Martiniano: condenado na mesma sessão a 275 anos e 11 meses de prisão.
- Um dos réus, Eliézio Ferreira Maia Júnior, teve o julgamento suspenso após exame de sanidade mental.
Quem foi absolvido
- Entre os 21 absolvidos estão Gerson Vitoriano Carvalho, Thiago Veríssimo Andrade Batista de Moraes, Josiel Silveira Gomes, Antônio Flauber de Melo Brazil, Clênio Silva da Costa, Francisco Helder de Sousa Filho, Maria Bárbara Moreira, Igor Bethoven Sousa de Oliveira, Daniel Fernandes da Silva, Farley Diogo de Oliveira, Francisco Fabrício Albuquerque de Sousa, Francisco Flávio de Sousa, Gildácio Alves da Silva, Luís Fernando de Freitas Barroso e Renne Diego Marques.
- Três acusados (Gildácio Alves da Silva, Luís Fernando de Freitas Barroso e Renne Diego Marques) foram desclassificados para responder na Vara de Auditoria Militar.

Legados de uma luta
Em 2023, o governador do Ceará Elmano de Freitas (PT) anunciou o pagamento de indenizações às famílias das vítimas e sobreviventes, mas a responsabilidade oficial do Estado pelas mortes ainda não foi reconhecida.
A medida foi formalizada por meio de uma lei aprovada na Assembleia Legislativa e sancionada por Elmano em outubro de 2023, após anos de cobrança das famílias e da Defensoria Pública do Estado. O texto autoriza o pagamento de reparações financeiras às famílias das 11 vítimas fatais e aos sobreviventes da chacina. Na ocasião, o governo classificou o gesto como uma ação de “reparação simbólica”.
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Para Marina Araújo, coordenadora-geral do Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Cedeca Ceará), o caso foi um divisor de águas. “O Curió é emblemático porque visibiliza o quanto a violência policial marca os territórios e as vidas nas periferias. É também um exemplo de que o silêncio não é possível: as famílias mostraram que é possível garantir responsabilização e reparação de direitos”.
Da dor das famílias nasceram estruturas permanentes de enfrentamento à violência de Estado. Em 2016, foi criado na Assembleia Legislativa do Ceará o Comitê de Prevenção à Violência. Depois vieram a Rede Acolhe, dentro da Defensoria Pública, e o Núcleo de Atendimento a Vítimas de Violência (Noave), no Ministério Público. Mais recentemente, o Tribunal de Justiça instituiu o Centro de Atendimento a Vítimas de Violência (Ceave).
Todos esses órgãos, destaca Marina Araújo, foram impactados pela mobilização iniciada no Curió. “Todos os órgãos do sistema de Justiça do Ceará se modificaram a partir do caso. A responsabilização e a reparação viraram respostas que reverberam e mostram um caminho para outras famílias”.
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Hoje, o nome de Jardel Lima dos Santos e Álef Souza Cavalcante batiza ruas do bairro São Cristóvão, onde os adolescentes viviam. Jardel, que sonhava em ser caminhoneiro e jogava futsal no Cuca Jangurussu, e Álef, que queria vestir a farda do Exército, seguem lembrados por suas mães e pela comunidade.