PM-SP matou mais 65 pessoas em setembro — no acumulado do ano já são 558 mortes cometidas por policiais. Comparação com número de homicídios indica uso abusivo da força, mas SSP-SP destaca queda em relação ao ano passado

As polícias do estado de São Paulo mataram um maior número de pessoas de janeiro a setembro de 2025 do que em todo o primeiro ano de governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos). É o que indicam dados recém-divulgados pela Secretaria da Segurança Pública paulista (SSP-SP). Em setembro, houve mais 65 casos. No acumulado do ano, são 558 vítimas do que o Estado chama de mortes decorrentes de intervenção policial (MDIP). Em 2023 inteiro, haviam ocorrido 510 óbitos.
O último mês de setembro foi o segundo mais letal em sete anos, atrás apenas do mesmo mês do ano passado, quando houve 70 mortes. Entre 2013 e 2019, a média para setembro foi de 64 ocorrências. Nos três anos de pandemia, o volume foi ainda menor, com 40 mortes em média para o mês.
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À Ponte, a SSP-SP preferiu destacar que houve uma redução do número de casos em relação ao mesmo acumulado de nove meses no ano passado, com 579 mortes. “Os esforços empregados pela Secretaria da Segurança Pública de São Paulo para reduzir a letalidade policial resultaram na queda de 5% nos casos em serviço em todo o estado e de 6% apenas na capital”, argumentou a pasta.
Se considerados, no entanto, não apenas os casos de policiais em serviço, mas também os de agentes de folga, a queda da letalidade policial no estado foi de 4%. Já na cidade de São Paulo, não houve redução alguma: pelo contrário, o índice piorou em 4%, indo de 171 para 177 mortes no período.
‘Número de mortes se estabilizou em patamar muito alto’
Para Rafael Rocha, coordenador de projetos do Instituto Sou da Paz, a redução da letalidade policial no estado não se deu por uma mudança da política de segurança pública de Tarcísio, mas pelo fato de 2024, tomado pela SSP-SP como base comparativa, ter sido um ano com piora excessiva — o que movimentos sociais já alertavam, especialmente na Baixada Santista, com 56 mortes somente na Operação Verão.
“Por um lado, houve, sim, uma redução, mas o cenário ainda é preocupante, porque essa redução foi muito pequena. A gente vê que, na verdade, o número de mortes se estabilizou em um patamar alto”, diz.
“A letalidade policial é controlada politicamente. Se o governador e o secretário mandarem os comandantes segurar [a força letal], eles fazem isso. Não vai cair a zero, mas se reduz, e a gente viu isso no fim do ano passado, em que o governador estava acuado. Mas o começo do ano passado foi muito violento, então a queda agora está mais relacionada a isso do que a qualquer ação do governo”, afirma.
Comparação com homicídios indica uso abusivo da força
A manutenção do modelo de segurança de Tarcísio ainda fica evidente quando comparada a quantidade de mortes cometidas pelas polícias com o saldo geral de homicídios dolosos ocorridos no estado de janeiro a setembro — em relação ao mesmo período do ano anterior, o acumulado caiu 3%.
Essa comparação é uma das formas que a literatura especializada e pesquisadores da área da segurança pública utilizam para dimensionar a violência policial. Estudos do sociólogo Ignacio Cano consideram que a proporção razoável é de no máximo 10% de mortes pelas polícias em relação ao total de homicídios, enquanto o pesquisador Paul Chevigny sugere que índices maiores de 7% seriam considerados abusivos.
De janeiro a setembro deste ano, houve 1.887 homicídios dolosos no estado. Se somadas essas mortes às cometidas pelas polícias, as forças de segurança paulistas foram responsáveis por 23% do total.
Negros seguem como vítimas mais comuns da letalidade policial
Entre os casos de MDIP de setembro de 2025, está o de Valter Junior Pereira de Araújo, de 26 anos. Conforme mostrou a Ponte, ele foi morto a tiros em uma ocupação na Rua Guaporé, no bairro da Luz, na região central de São Paulo. Uma outra pessoa que vive no local relatou, à reportagem, ter se tratado de uma execução — em circunstâncias semelhantes às de outras mortes recentes no entorno.
Assim como Valter, a maior parte das vítimas no mês eram homens (ao menos 64) e foi morta na cidade de São Paulo (19 casos). Todos os episódios foram cometidos pela Polícia Militar de São Paulo (PM-SP).
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Manteve-se ainda em setembro o perfil racial comum dos mortos: ao menos 62% deles (40 pessoas) eram negros, de pele parda (34) ou preta (6) — o indicador destoa da distribuição étnico-racial do estado, onde 41% da população é negra, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Quem controla as polícias no estado
Além da SSP-SP, cujos dados a Ponte toma como referência, o Ministério Público paulista (MP-SP), que tem entre suas atribuições constitucionais o dever de exercer o controle externo das polícias, também registra números de mortes decorrentes de intervenção policial. Eles são computados pelo Grupo de Atuação Especial da Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial (Gaesp).
Em geral, os números do MP-SP são disponibilizados antes que os da SSP-SP — a pasta consolida os dados de letalidade policial apenas ao final do mês seguinte ao de divulgação. Em algumas ocasiões, o Gaesp chegou a registrar um balanço diferente do governo estadual. No último mês de setembro, no entanto, o órgão também apurou 65 mortes cometidas pelas polícias em São Paulo.
A Ponte questionou o MP-SP se entende que o patamar atual de mortes indica uso abusivo da força policial e como tem atuado diante disso. Ainda não houve retorno.