Enquanto sedia a conferência do clima da ONU e tenta se afirmar como vitrine da Amazônia sustentável, o Pará convive com uma das polícias mais letais do país e com um histórico de violência que atravessa o campo e as periferias

“Meu pai, nunca pensei que iam fazer isso com você”, diz entre lágrimas Alexis Júnior, trabalhador rural que perdeu sete parentes naquela que ficou conhecida como a Chacina de Pau D’Arco. Alexis faz o que parece ser a identificação do corpo do pai, caído ao lado de outros, todos mortos pela polícia. Em maio de 2017, dez trabalhadores rurais sem-terra — nove homens e uma mulher — foram executados durante uma operação policial no Pará.
O vídeo, registrado pela Repórter Brasil no mesmo ano, expõe uma dor que não cessa. O estado que neste momento sedia a COP30, conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre mudanças climáticas, tem uma das polícias mais letais do país — e uma política de segurança que há décadas transforma pobreza e luta por terra em alvo.
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Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o Pará sob gestão do governador Helder Barbalho (MDB) segue entre os estados de maior letalidade policial do país — atrás apenas do Amapá e da Bahia na taxa de mortes por 100 mil habitantes. Em 2024, 27% das mortes violentas registradas no estado foram causadas por policiais. No total, 473 pessoas foram mortas por agentes de segurança, o equivalente a 5,3 mortes por 100 mil habitantes.
No portal oficial da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (Segup-PA), os registros aparecem sob a categoria “mortes por intervenção legal de agente do Estado”. A série histórica, disponível desde 2011, contabiliza até 2025 mais de 5,9 mil vítimas. Segundo o próprio governo, a maioria delas era de homens negros e jovens.
A Segup também divulga dados sobre agentes de segurança mortos em serviço ou fora dele. Nessa série, iniciada em 2012, foram registradas 365 mortes até 2025, sendo 275 por homicídio e 90 por latrocínio. O número varia pouco ao longo dos anos e se mantém relativamente estável desde 2019. Em 2025, foram 14 agentes mortos.
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A violência no Pará não é um fenômeno recente — nem restrito às cidades. O estado carrega uma longa história de conflitos agrários e de massacres protagonizados por forças policiais. Episódios como o de Eldorado do Carajás, em 1996, e o de Pau D’Arco, em 2017, expuseram o uso sistemático da repressão contra trabalhadores rurais e sem-terra, dando origem a movimentos como o Abril Vermelho, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que transformou o luto em mobilização nacional.

“Meu filho era um menino bom”
A violência também alcança as periferias da região metropolitana de Belém. Em outubro de 2023, o adolescente Davi da Silva, de 16 anos, foi morto por policiais militares no bairro Distrito Industrial, em Ananindeua.
A dor de Suedy Pena, 43, mãe de Davi, é atravessada pelo medo e pela solidão. Desde a morte do filho, ela denuncia o crime nas redes e em espaços públicos, mas diz que a resposta do Estado é o silêncio. “Eu e meu marido temos lutado lado a lado. É uma luta difícil, muito solitária. As pessoas não falam disso. É como se tivessem medo”, conta.
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Davi era o único filho homem entre os três que Suedy teve. O adolescente, conta a mãe, tinha grande interesse por esportes e treinava karatê e jiu-jitsu, tendo conquistado medalhas em campeonatos regionais. “Meu filho era um menino bom, estudioso, alegre e brincalhão. Gostava de jogar bola, brincar com as crianças, era muito querido por todo mundo”, lembra.
A reportagem teve acesso apenas aos nomes exibidos nas fardas dos policiais envolvidos no caso, e não aos nomes completos. Em nota à imprensa, a Polícia Militar informou que os agentes identificados nas fardas como ASP Fontenelle, SGT Jardel, CB Cirqueira e SD Reison afirmaram que o adolescente e o outro ocupante da motocicleta teriam participado de um assalto.
Segundo eles, Davi teria apontado uma arma em direção à viatura, motivo dos disparos. A corporação disse ainda que o adolescente portava uma garrucha artesanal (armamento semelhante a uma pistola) e teria falecido a caminho do hospital. A investigação conduzida pela Polícia Civil e a denúncia do Ministério Público do Pará (MPPA) descrevem, no entanto, uma outra história.

“Posso ser a próxima vítima ou alguém da minha família”
Segundo o MPPA, Davi voltava de um serviço e foi abordado por uma viatura que o confundiu — junto do mototaxista que o transportava — com os supostos autores de um roubo. Testemunhas afirmam que, após ser atingido pelos primeiros disparos, o adolescente desceu da moto ferido, rendeu-se com os braços erguidos e, mesmo assim, recebeu novos tiros. O laudo de necropsia apontou cinco perfurações por projéteis de arma de fogo.
Com base nessas evidências, o MP-PA denunciou quatro policiais militares do 30º Batalhão por homicídio qualificado e cooperação dolosa. Todos seguem em liberdade enquanto o processo tramita em segredo de Justiça. Uma nova audiência de instrução está marcada para 17 de dezembro, quando os réus deverão ser ouvidos pela Justiça. Apesar disso, os quatro policiais foram absolvidos pelo Conselho de Disciplina da Polícia Militar, no processo administrativo que apurava o caso.
Suedy afirma que sofre ameaças indiretas em grupos de policiais e que a família vive sob proteção do Programa de Defensores de Direitos Humanos, mas sem confiança na efetividade do mecanismo. “Eu posso ser a próxima vítima ou alguém da minha família. O governo não procura as famílias para ajudar, orientar. A gente vive com medo, mas não vai se calar”, diz.
Projeto Usinas da Paz convive com política de alta letalidade
O sistema de segurança pública do Pará é comandado por Ualame Fialho Machado, secretário desde o início da gestão de Helder Barbalho, eleito em 2018. Ex-superintendente da Polícia Federal no estado e formado em direito, Fialho defende a ampliação de operações integradas como eixo da política de segurança.
Nos últimos 15 anos, porém, a polícia paraense matou ao menos 5,9 mil pessoas. Em 2023, o estado contava com 17,7 mil policiais militares e 4,2 mil civis, segundo o levantamento Raio-X da Segurança Pública. Apesar do alto índice de letalidade, apenas 9% do efetivo da PM utilizava câmeras corporais, conforme dados do próprio governo.
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Para Roberto Soares, professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Segurança Pública da Universidade Federal do Pará (UFPA) e pesquisador do FBSP, os índices refletem um quadro histórico de violência que o estado ainda tenta superar. “O Pará tem uma polícia que mata muito e morre muito, e isso mostra o quanto o enfrentamento da violência ainda está centrado na lógica do confronto”, afirma.
Ele reconhece, no entanto, que há esforços recentes de mudança. “Enquanto em outros estados predominam operações puramente repressivas, aqui há tentativas de conciliar segurança pública e cidadania, dentro das possibilidades e limitações que o contexto impõe.”
Uma das principais vitrines dessas tentativas é o projeto Usinas da Paz, iniciativa do governo do Pará que busca aproximar políticas públicas de territórios marcados pela desigualdade. Coordenadas pela Secretaria de Articulação da Cidadania (Seac), as Usinas integram um programa conhecido como Territórios Pela Paz (TerPaz) e oferecem gratuitamente serviços de saúde, educação, cultura, esporte e cidadania. Desde 2021, já realizaram mais de 10,4 milhões de atendimentos, segundo dados da gestão Barbalho. Atualmente, 18 unidades estão em funcionamento e outras 20 seguem em construção em diferentes regiões do estado.
Estado ainda líder em violências contra defensores
Para Suzany Brasil, advogada popular da Terra de Direitos, organização integrante do Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos (CBDDH) e do Comitê Paraense de Defensores de Direitos Humanos (CPDDH), os números de letalidade no Pará confirmam o que a população sente na pele. Ela lembra que o estado “ainda é um dos líderes em violências contra defensores e defensoras de direitos humanos”, segundo o estudo Na Linha de Frente, elaborado pela entidade em parceria com a Justiça Global. “Há número significativo de casos perpetrados por agentes de segurança”, afirma.
A impunidade e a não identificação dos responsáveis, diz, revelam a necessidade de aprimorar o sistema de segurança pública e de Justiça do estado. “O Conselho Estadual de Segurança Pública não tem composição paritária. A sociedade civil é minoria, e isso coloca as decisões nas mãos do governo, sem participação efetiva.”
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É nesse ponto que o advogado José Batista Afonso, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), amplia o diagnóstico. “Enquanto o governo fala em proteção da floresta e transição ecológica, a mesma máquina do Estado segue matando seus próprios filhos”, diz. “A violência no campo é parte desse modelo de desenvolvimento. E enquanto ele não mudar, o sangue vai continuar sendo o preço cobrado”, completa.
A história de violência contra quem defende direitos no Pará não é nova. Em 2005, a missionária Dorothy Stang, de 73 anos, foi assassinada em Anapu após ler trechos da Bíblia aos homens que atirariam nela. Cinco anos antes, o sindicalista José Dutra da Costa, o Dezinho, havia sido morto no município de Rondon do Pará após denunciar crimes de latifundiários. Ambos haviam recebido ameaças.
A morte de Dorothy ocorreu no ano seguinte à criação do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH), em 2004, idealizado justamente para tentar proteger pessoas como ela e Dezinho. Duas décadas depois, a política segue sem estrutura para enfrentar o poder político e econômico que sustenta a violência. “O padrão se mantém, e as estruturas de proteção seguem frágeis”, avalia Suzany. “A segurança no Pará ainda é pensada a partir da repressão, e não da proteção da vida.”
Essas mortes não foram casos isolados, mas parte de um ciclo que se repete no estado.

Conflitos que atravessam décadas
A impunidade que Suzany aponta se repete na trajetória de massacres que marcam o Pará. Desde os anos 1990, casos emblemáticos mostram que o padrão de atuação das forças policiais pouco mudou, da repressão aos trabalhadores rurais às execuções nas periferias.
Em 17 de abril de 1996, 21 trabalhadores rurais sem-terra foram assassinados pela Polícia Militar na Curva do S, em Eldorado do Carajás, durante uma marcha do MST que reivindicava a desapropriação da fazenda Macaxeira. Apenas dois comandantes foram condenados; os outros 153 policiais envolvidos no caso foram absolvidos. O episódio ficou conhecido como o Massacre de Eldorado do Carajás e transformou o 17 de abril em Dia Mundial da Luta pela Terra.
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“O Estado nunca rompeu com essa lógica. Mesmo depois dos massacres, a polícia continua sendo usada para reprimir trabalhadores e movimentos sociais, não para garantir direitos”, diz José Batista. Duas décadas depois, a lógica se repetiria em Pau D’Arco, com dez trabalhadores rurais executados por policiais civis e militares. O caso sintetiza o que José chama de “aliança histórica” entre o poder político, o agronegócio e as forças de segurança. “Essas mortes não são desvios. Elas são o modo de funcionamento da política de segurança no campo”, afirma.
De acordo com a CPT, o Pará foi o segundo estado com mais conflitos agrários em 2023, com 226 ocorrências e 31 assassinatos — números que, segundo José, “mostram como a política de segurança pública do estado continua sendo a de conter o pobre, e não de conter a violência”.
GLO na Amazônia para proteger ‘infraestruturas críticas’
Além das críticas à política estadual de segurança, movimentos sociais e entidades de direitos humanos também manifestam preocupação com o cenário federal. A entrada em vigor de um decreto de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) durante a COP30, em Belém, acendeu o alerta para possíveis abusos e repressões sob o argumento de garantir a ordem.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou agora em novembro o decreto de GLO, a pedido do governador Helder Barbalho, autorizando o uso das Forças Armadas em Belém, Altamira e Tucuruí durante a conferência. A medida, válida até 23 de novembro de 2025, tem como justificativa a proteção de “infraestruturas críticas”, como portos, aeroportos e hidrelétricas. Desde 1992, o Brasil realizou cerca de 150 operações de GLO, 41 delas voltadas à segurança de grandes eventos — categoria na qual se enquadra a COP.
Em carta enviada ao Ministério Público Federal, organizações como Terra de Direitos, Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e o Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa) alertam que “a militarização do evento representa uma indesejada operação de Garantia da Lei e da Ordem em detrimento dos direitos do cidadão e da participação democrática”.
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O documento afirma que não há ameaça concreta à ordem pública que justifique a medida e adverte para o risco de restrição indevida de direitos, criminalização de protestos e repetição de práticas de repressão estatal já condenadas por organismos internacionais.
Para Suzany Brasil, a decisão reforça o alerta. “A COP na Amazônia tem uma grande expectativa de ser um evento democrático, com direito à livre manifestação. O endurecimento das estratégias de segurança é um contrassenso e um alerta, tanto para quem vai participar das atividades quanto para as periferias, que podem sofrer com o policiamento ostensivo justificado pelo evento.”
O que dizem as autoridades
A Ponte procurou a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Pará (Segup) para comentar os dados e críticas citadas nesta reportagem. Em nota, a Segup afirmou que, desde 2019, o estado tem como prioridade reduzir a criminalidade e a letalidade policial. Segundo a secretaria, o número de Mortes por Intervenção de Agente do Estado (MIAE) caiu 16% entre 2018 e 2023, e 12,7% em 2024.
A pasta também citou investimentos em capacitação de agentes e uso de tecnologias, como 1,6 mil câmeras corporais, drones e pistolas de incapacitação, além de políticas sociais como as Usinas da Paz, que oferecem serviços gratuitos em áreas vulneráveis.
Leia na íntegra a nota da Segup
A Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (Segup) esclarece que, desde 2019, o Pará tem como prioridade a redução da criminalidade e da letalidade policial. Em 2023, as Mortes por Intervenção de Agente do Estado (MIAE) apresentaram queda de 16% em relação a 2018; em 2024, a redução foi de 12,7%.
A Segup informa ainda que o Estado tem investido continuamente na qualificação técnica e psicológica dos agentes de segurança, além de ampliar o uso de tecnologias que conferem transparência e legitimidade às ações policiais — como as bodycams (1.600 câmeras em operação), drones táticos e pistolas de incapacitação neuromuscular adquiridas para as Polícias Militar e Civil. Essas medidas buscam reduzir riscos de confronto e aumentar a eficácia das operações.
A redução dos índices de violência nos últimos anos também é resultado de políticas de inclusão social. Exemplo disso são as 18 Usinas da Paz já entregues, complexos multifuncionais estaduais que oferecem mais de 70 serviços gratuitos voltados ao combate à violência e à ampliação da cidadania.