Jonathan da Silva Santos, de 25 anos, foi baleado por tenente da PM enquanto se escondia debaixo de uma van. Agentes não apresentaram arma que vítima estaria usando. “Ele não era envolvido no crime, não tinha nem perfil”, diz irmão

Nas imagens obtidas por câmeras de segurança, Jonathan da Silva Santos, de 25 anos, dirige um furgão branco no início da tarde de segunda-feira (5/11) na Avenida Carlos Caldeira Filho, na zona sul de São Paulo, quando aparece fugindo de uma viatura da Polícia Militar (PM-SP). Ele abandona o carro ainda em movimento e foge a pé. A viatura para, e dois policiais o perseguem. Vestido com camiseta vermelha e calça preta, o jovem reaparece correndo na gravação de outra câmera. Na mão direita carrega um celular e, com a esquerda, segura um boné e puxa a calça. Ele pula uma mureta, entra na rua Paulo Bastos Cruz e se esconde debaixo de uma van de cor prata. De lá, sairia em uma maca do Corpo de Bombeiros — depois de receber 15 tiros do policial que o perseguia.
As imagens não mostram o momento exato em que Jonathan se esconde, apenas o policial chegando até a van. O PM se agacha, olha debaixo do veículo e começa a disparar. Os 15 disparos coincidem com o número de munições disponíveis na pistola Glock G22 .40 utilizada pelo PM na ocasião, o que indica que o policial descarregou a arma contra o alvo. A imagem disponibilizada é encerrada abruptamente quando o PM começa a se levantar do chão.
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A família de Jonathan só soube de sua morte no dia seguinte, quando foram ao 47º Distrito Policial, do Capão Redondo, buscar informações. De lá, foram encaminhados ao 37º DP, do Campo Limpo, e ao Instituto Médico Legal (IML) fazer o reconhecimento. O boletim de ocorrência lavrado sobre o caso não registrou o nome de Jonathan, que só foi identificado quando seu irmão, Vinicius da Silva Bueno, 29, viu o corpo. “Eu não sou técnico e não posso afirmar com certeza, mas parece que os tiros pegaram nas costas, no braço e na nuca. Parece que ele estava de costas”, relatou Vinicius à Ponte. A família ainda não teve acesso ao laudo pericial.
No IML e nas delegacias, o tratamento foi de descaso, contam os familiares. Vinicius relata piadas sobre a morte e o número de disparos sofridos por Jonathan, com integrantes da 47º DP dizendo que jovem teria levado “só” 15 tiros. No IML, lhes teria sido dito que “quem faz reconhecimento é a polícia” e, ao passar o nome do irmão, Vinicius teria ouvido “é, morreu”, como resposta. “Aquele IML da [rua] Gastão Vidigal tem uma delegacia ao lado, então quando alguém morre por intervenção policial o tratamento é como se a família fosse bandida”, desabafa.
Boletim de ocorrência aponta discrepâncias
O boletim de ocorrência do caso foi registrado pelos policiais militares envolvidos na ação e contou com depoimentos também de duas vítimas de um assalto ocorrido horas antes na região. As histórias se misturam, e não levam ao nome de Jonathan.
De início, o relato dos policiais é quase idêntico. Em patrulhamento ostensivo, teriam sido informados por rádio de um assalto ocorrido na região e, deslocados até o local, encontraram as vítimas. Uma carga de frios e laticínios havia sido roubada de um caminhão por homens em três motos e em um Ford Ka vermelho. Os dois funcionários da empresa vítima, motorista do caminhão e ajudante, foram levados a uma rua próxima e a carga foi movida para o veículo.
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Em depoimento na delegacia, o motorista do caminhão disse que um dos homens envolvidos no assalto estava de camiseta vermelha e tinha uma tatuagem no braço, descrição que bate com Jonathan. A outra vítima disse estar muito nervosa e não ter conseguido identificar ninguém.
Ainda de acordo com o relato dos policiais, após encontrar com as vítimas do assalto, teriam cruzado com um furgão branco, dirigido por Jonathan, dado ordem de parada e, após evasão, iniciado uma perseguição. Rogger Milton Barbosa, 1º tenente da PM, diz que, a pé, já na rua Paulo Bastos Cruz, viu Jonathan se escondendo atrás da van e que, ao olhar debaixo do veículo, o jovem estaria com um revólver na mão, motivo pelo qual disparou. Ele relata também ter havido dois disparos feitos por seu colega, o soldado da PM Diogo de Jesus Viana.
PMs não entregaram arma supostamente usada por Jonathan
Diogo conta uma história levemente diferente. Ao entrar na rua Paulo Bastos Cruz, ele teria visto Jonathan, ainda correndo, sacando um revólver, e por isso teria disparado duas vezes conta o jovem enquanto Rogger recarregava sua pistola. Ambos afirmam que com Jonathan foi encontrado um revólver calibre 38 com quatro munições deflagradas e uma intacta. Nenhum dos dois relatou qualquer disparo partindo de Jonathan.
Neste ponto, as versões colidem. O 1º tenente Rogger diz não ter visto Jonathan com a arma na mão enquanto corria, apenas quando olhou por debaixo da van — um veículo com altura em relação ao solo de menos de 20 centímetros —, não citou ter recarregado sua pistola e não especificou em que momento seu colega realizou disparos. Já o soldado Diogo diz ter visto Jonathan correndo com a arma na mão — mesmo tendo chego à rua Paulo Bastos Cruz no mínimo 15 segundos depois de seu colega, que já estava atrás de Jonathan — e que Rogger recarregou a pistola, o que não se vê nas imagens divulgadas.
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Um vídeo publicado pela CNN compila as imagens de diferentes câmeras de segurança na rua contrapõe as versões oficiais. Nas imagens, o 1º tenente Rogger chegou sozinho à rua Paulo Bastos Cruz, correndo prontamente em direção à van sem recarregar sua arma. Os militares não foram questionados sobre essas discrepâncias. O boletim de ocorrência foi emitido sem a entrega, pelos militares, de suas armas ou da arma supostamente utilizada por Jonathan, com o apontamento de que os armamentos devem ser entregues à Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). O nome de Jonathan também não foi registrado no documento.
Horas depois, uma nova edição do boletim foi emitida, registrando a entrada do furgão branco utilizado por Jonathan. Junto dele, uma carga de laticínios foi registrada. O material tinha origem ilícita, mas notas fiscais apontam não ser a mesma carga que havia sido roubada no assalto atendido pelos militares e relatado anteriormente, pertencendo a outra empresa. Apesar do registro de estar em um carro e com uma carga diferentes do relato, o boletim de ocorrência foi encerrado com a indicação de que Jonathan, apesar de não identificado, integrava o assalto.
‘Desde pequenininho, quando aprontava, se enfiava debaixo da cama’
A família contesta a versão policial. Diz que Jonathan trabalhava com entregas de mercadorias de plataformas como Mercado Livre e Shopee utilizando um furgão alugado similar ao que dirigia na tarde em que foi morto. Depois de colidir o veículo, seus familiares relatam, começou a se preocupar com como obter dinheiro para realizar o reparo. Sem envolvimento prévio com o crime, a família não sabe exatamente como foi cooptado para a atividade — mas garante ter recebido informações de que o jovem não estava armado, não sabendo nem sequer manusear armamento, tendo sido contratado apenas para transportar a carga.
Seu irmão, Vinicius, conta que a última mensagem recebida de Jonathan foi um áudio de WhatsApp em que ele contava ter feito um teste para trabalhar com carteira assinada como manobrista. “Ele não era envolvido no crime, não tinha nem perfil. Se ele fosse bandido mesmo, ele já deitava no chão, se rendia. O Jonathan era uma pessoa que, desde pequenininho, quando aprontava alguma coisa, quando não ia para a escola, tinha mania de se enfiar debaixo da cama. Ele sempre teve esse comportamento. Eu tenho certeza que ele se colocou ali debaixo como uma coisa instintiva, inocente”, relata Vinicius.
O que dizem as autoridades
A Ponte entrou em contato com a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) para questionar sobre a falta de registro do nome de Jonathan no boletim de ocorrência lavrado pelos policiais, a discrepância nos depoimentos e o status atual da investigação.
Leia a íntegra da nota da SSP-SP
“O caso citado pela reportagem é investigado por meio de inquérito policial instaurado na Divisão de Homicídios do DHPP e por meio de IPM (Inquérito Policial Militar). O homem que faleceu na ação não portava documentos e não foi reconhecido pelas testemunhas, sendo identificado posteriormente após coleta de impressões digitais. Exames periciais foram requisitados e diligências prosseguem visando o total esclarecimento dos fatos”.
Correções
Atualização – 28 de novembro de 2025, 11h05 Trecho da reportagem publicada foi suprimido a pedido da família.