Caso de adolescente morto após falsa acusação de furto terá novo julgamento só em 2026; mãe critica demora e cobra punição

A Justiça de São Paulo adiou o júri dos ex-policiais militares Adriano Fernandes de Campos eGilberto Eric Rodrigues. A dupla é ré pela morte de Guilherme Silva Guedes, um adolescente negro de 15 anos assassinado em 2020 após ser injustamente acusado de furto.
“O que é mais revoltante é que eles mataram meu filho em menos de dez minutos e eu espero cinco anos pela justiça”, desabafa Joice da Silva dos Santos, 36, mãe de Guilherme.
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O júri popular estava marcado para esta quinta-feira (17/7), no Fórum Criminal da Barra Funda, zona oeste de São Paulo. O motivo do adiamento foi a impossibilidade de participação da defesa de Gilberto, por motivos de saúde. Esta é a segunda vez que o júri é adiado pelo mesmo motivo.
Em agosto do ano passado, o juiz Antonio Carlos Pontes de Souza transferiu a data do júri para este ano. Agora, com o novo adiamento, o Tribunal do Júri deve ocorrer apenas em março de 2026.
“Seria importante que eles fossem julgados, condenados e presos para que não façam isso com mais ninguém”, cobra Joice.
A morte de Guilherme fez com que a vida que Joice levava até então também deixasse de existir. “Eu não saio de casa mais. Quando saio, é para dar força para algumas mães que precisam. Só saio de casa pra isso. Eu não tenho mais pique pra nada. E já não consigo dormir direito. A mente está muito cansada”, conta.
“A dor da saudade vem me matando lentamente”, completa.
Sequestro e execução
Guilherme foi sequestrado na porta de casa, no bairro Vila Clara, na zona sul de São Paulo, no dia 14 de junho de 2020, e encontrado morto horas depois em um terreno no bairro Eldorado, na divisa entre a capital paulista e a cidade de Diadema. Imagens de uma câmera de segurança mostraram o adolescente entrando em um beco ao lado da residência onde morava. Segundos depois, apareceram no local dois suspeitos: Adriano e o também ex-policial militar Gilberto Eric Rodrigues.
Adriano aparece com as mãos para trás e portando uma arma de fogo — o próprio ex-PM admitiu ser ele nas imagens e estar acompanhado de Gilberto. Depois disso, Guilherme não foi mais visto com vida. O beco em que o adolescente entrou dava acesso a um canteiro de obras da Globalsan, empresa terceirizada da Sabesp. Ainda policial na época, Adriano prestava, ilegalmente, serviços de vigilância no local e tinha Gilberto como funcionário.
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Na ocasião, os dois teriam perseguido duas pessoas que entraram na obra — do terreno, elas pretendiam pular um muro para acessar um supermercado vizinho e pegar alimentos vencidos. Foi nesse contexto que os ex-policiais teriam abordado Guilherme e o apontado, sem provas, como suspeito de invasão e tentativa de furto ao canteiro.
Um vigilante que trabalhava na obra disse que, após sair da viela, Adriano buscou um carro estacionado no canteiro, deixou o próprio telefone celular no local e saiu apressado. O Ministério Público entende que, neste momento, Guilherme era mantido sob poder de Gilberto, que aguardava o comparsa com o veículo para levá-lo a um local ermo onde seria executado.
Familiares e vizinhos do garoto protestaram à época, chegando a incendiar um ônibus e bloquear uma avenida. Também fizeram ato em frente à Globalsan, empresa ligada à Sabesp.

STJ confirma novo júri
Em abril deste ano, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) confirmou a decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) de que o caso deve ser submetido a um novo júri popular.
Em outubro de 2021, o primeiro julgamento absolveu Adriano, sob a justificativa de que ele não teria sido o autor dos tiros que mataram o adolescente. No entanto, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) recorreu, argumentando que a decisão dos jurados confrontava as provas dos autos. Em dezembro de 2022, o TJ-SP acolheu o pedido da Promotoria e determinou novo julgamento.
A defesa de Adriano recorreu com um recurso especial ao TJ-SP, que foi negado. Em seguida, apresentou um agravo ao STJ, que também rejeitou o pedido. O ministro Messod Azulay Neto entendeu que o acórdão do TJ-SP estava devidamente fundamentado ao considerar que a decisão do primeiro júri contrariava as provas do processo.
Gilberto ainda não foi julgado por este caso.
Expulsão e antecedentes
Adriano foi expulso da Polícia Militar em 2022, por decisão do Comando-Geral da corporação. A punição se baseou em duas infrações consideradas graves pelo Regulamento Disciplinar da PM: “exercer ou administrar, o militar do Estado em serviço ativo, a função de segurança particular ou qualquer atividade estranha à Instituição Policial-Militar com prejuízo do serviço ou com emprego de meios do Estado” e “ofender a moral e os bons costumes por atos, palavras ou gestos”.
O comando concluiu que o então sargento cometeu “atos atentatórios à Instituição, ao Estado e aos direitos humanos fundamentais”. Adriano era dono, com o pai — o PM aposentado Sebastião Alberto de Campos —, da Campos Forte Portarias Ltda., registrada como empresa de zeladoria, mas que, segundo investigação da Ponte, prestava na prática serviços terceirizados de segurança privada, como os realizados para a Globalsan.
Adriano chegou a ser preso três dias após a morte de Guilherme, mas foi solto em 2021, ao ser absolvido no primeiro julgamento. Já Gilberto está preso desde 13 de maio de 2021, quando foi encontrado escondido em uma chácara na zona rural de Peruíbe, litoral sul de São Paulo.
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Na época do assassinato de Guilherme, Gilberto era considerado foragido. Ele havia escapado do Presídio Militar Romão Gomes em abril de 2015. A PM, no entanto, mentiu sobre a fuga, afirmando à Ponte, em resposta oficial, que ele ainda estava preso no local.
Em 2023, Gilberto foi condenado a 125 anos de prisão em regime fechado por participação na Chacina do Jardim Rosana, ocorrida em 4 de janeiro de 2013, na zona sul de São Paulo. O ataque deixou sete mortos, incluindo o DJ Lah (Laércio de Souza Grimas, 33 anos), e dois feridos.