Ato percorreu vielas da comunidade e foi reprimido pela PM-SP ao tentar bloquear avenida na região central de São Paulo. Moradores seguem em meio a escombros na favela, enquanto acordo por imóvel gratuito ainda não foi cumprido

Moradores da favela do Moinho, na região central de São Paulo, protestaram nesta quarta-feira (10/9) contra a operação Sharpe, que, dois dias antes, cumpriu mandados de prisão contra dez pessoas, incluindo duas líderes de uma associação de moradores da comunidade — Alessandra Moja Cunha e a filha dela, Yasmim Moja Flores. Para os manifestantes, foram prisões políticas, com o intuito de desmobilizar as famílias que permanecem no local e forçar a saída delas mesmo sem ainda terem tido acesso ao imóvel gratuito prometido em maio deste ano a partir de um acordo entre o estado e a União.
O protesto foi encerrado por volta das 19h30, após a Polícia Militar paulista (PM-SP) reprimir com bombas de gás lacrimogêneo os manifestantes e jornalistas que cobriam o ocorrido. Nesta altura, os moradores bloqueavam a Avenida Rio Branco, no bairro do Bom Retiro, que é vizinha à comunidade.
Ainda ao final do protesto, após os manifestantes serem dispersados, um deles foi detido pelos policiais militares na Alameda Eduardo Prado, nos arredores da favela. Trata-se do advogado e ex-deputado estadual Fernando Ferrari, que, desde protestos anteriores, atua como interlocutor dos moradores junto às autoridades. Ele foi conduzido no camburão de uma viatura ao 2º Distrito Policial, no Bom Retiro. A Ponte testemunhou o momento da detenção e questionou os agentes envolvidos sobre motivo dela. Segundo o primeiro tenente Vila Nova, teria sido por desobediência.
Os policiais ainda jogaram spray de pimenta em jornalistas que tentaram registrar a detenção e no advogado Michael Dantas, que acompanhava Fernando. Estavam presentes agentes do Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep).
Durante o ato, ocorreu tentativa de negociação para que os moradores seguissem pela Avenida Rio Branco. Fernando chegou a conversar com os policiais, sem sucesso. Logo após a tentativa, as bombas foram atiradas dando início à repressão.

Moradores convivem com favela esvaziada e escombros
A manifestação teve início com uma concentração na entrada da favela ao final da tarde. O volume de pessoas foi menor se comparado aos protestos feitos ali em abril, quando o Moinho ganhou o noticiário devido à truculência policial imposta pelo governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) no processo de desocupação do local. Agora, já há uma menor quantidade de famílias na comunidade.
Antes de ir à Avenida Rio Branco, o protesto percorreu vielas da favela, onde o cenário é de abandono. O processo de descaracterização conduzido pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), que consiste na retirada de portas e janelas dos imóveis já vazios, também avançou nos últimos meses. Há agora bastante entulho espalhado pelo local. A iluminação pública da comunidade ainda foi cortada — é a luz dos barracos ainda ocupados que permite alguma visibilidade à noite.
Leia também: Governo Lula diz que vai cumprir acordo do Moinho após gestão Tarcísio atribuir demora à União
A moradora Leidivânia Domingas, que segue com o marido e duas crianças no local, diz que precisou instalar em casa armadilhas contra ratos, cada vez mais comuns entre outras pragas que se alastram nos escombros. Ela recusou o auxílio-aluguel na expectativa de que se mudaria diretamente para o imóvel definitivo prometido. “Como que, com duas crianças, vou arrumar uma creche, ir para o aluguel e, depois de três meses, mudar de novo e ter de fazer uma adaptação nova com as crianças?”, questiona.

Líder de associação diz que acusação é mentirosa
À frente da operação da última segunda (8/9), o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) diz que o grupo preso estaria atuando para impedir que os trabalhos da CDHU para desocupação do local. O órgão afirma também que as pessoas detidas estariam agindo a mando de Leonardo Monteiro Moja, que é irmão de Alessandra e tio de Yasmin.
Conhecido como Léo do Moinho, ele foi preso em um apartamento em Praia Grande, no litoral paulista, em agosto de 2024 e é apontado pelo MP-SP como responsável pelo abastecimento de drogas da chamada Cracolândia, além de ser uma das lideranças da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) em São Paulo. O grupo sob mando dele estaria atuando, ainda segundo o Ministério Público, para manter as atividades de tráfico de drogas e também para extorquir inquilinos que viviam em imóveis de Leonardo na favela e seriam contemplados pelo acordo de moradia gratuita.
Para Daiane Ariana, a acusação é fantasiosa. Ela é agora representante da associação de moradores da favela do Moinho. “Eles [os presos] não são criminosos, estavam representando os moradores. Essas acusações que [as autoridades] vêm fazendo de que há cobrança de propina são mentirosas e levianas. Não tem isso. Inclusive, deveriam melhor observar as acusações deles, porque muitas pessoas dentro da comunidade estão sofrendo pressão da polícia e da CDHU para sair.”
De acordo com uma familiar, Alessandra e Yasmin estão até agora sem defesa constituída no caso. O MP-SP afirma que a mãe estaria à frente das cobranças aos moradores, por prestar contas ao irmão, enquanto a filha estaria vivendo em uma residência na qual, no térreo, seriam armazenados produtos ilícitos.
Além de Alessandra e Yasmin, também foram alvos de mandado de prisão José Carlos Silva, acusado de suceder Leonardo na chefia do tráfico; Ronaldo Batista de Almeida e Reginaldo Terto da Silva, apontados como responsáveis pela “disciplina” na comunidade; Leandra Maria de Lima, acusada de extorquir moradores que se mudavam; Ademario Goes dos Santos, suspeito de vigiar imóveis de Leonardo e atuar no tráfico; Jorge Santana, dono de um bar onde seriam armazenadas drogas e armas de fogo; Paulo Rogério Dias, acusado de organizar a distribuição de entorpecentes; e Cláudio dos Santos Celestino, investigado por tráfico e lavagem de dinheiro. Já Roberto Gonçalves da Cruz foi preso em flagrante no andamento da operação porque a polícia teria encontrado drogas ilícitas em sua casa.

Moradores temem descumprimento de acordo
Conforme a Ponte mostrou anteriormente, moradores e pessoas que já deixaram o Moinho temem que, com a prisão das líderes comunitárias, que eram as interlocutoras da favela junto às autoridades, o acordo para entrega do imóvel gratuito não seja cumprido. O governo Tarcísio chegou a atribuir à União a demora para o cumprimento da promessa. Já o governo Lula (PT) afirma já ter garantido mais de R$ 160 milhões para assegurar o acordo, sem detalhar, no entanto, prazo para isso.
Localizada na região dos Campos Elísios, a Favela do Moinho se espreme entre trilhos da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), embaixo do Viaduto Engenheiro Orlando Murgel e na divisa com o bairro do Bom Retiro. A remoção dos moradores se insere no contexto da alegada revitalização da região central pelo governador: a comunidade está a menos de um quilômetro da Praça Princesa Isabel, para onde Tarcísio pretende levar parte da sede administrativa do governo.
Leia também: Primeira família a deixar Moinho atribui saída a proteção da filha contra PM: ‘Jogam gás, não dá para respirar’
A gestão estadual sempre vinculou o reassentamento da comunidade também ao combate ao PCC, facção à qual a favela estaria submetida e que faria dela base para o tráfico na Cracolândia. O governo paulista sustenta que os moradores vivem sob risco e em condições insalubres. Além disso, pressiona a União a ceder o terreno, onde prevê construir um parque e, futuramente, uma estação de trem.
Segundo o governo estadual, 537 mudanças já foram realizadas, com pagamento de auxílio-moradia de R$ 1,2 mil, custeado pelo estado e pela prefeitura de São Paulo, sob gestão Ricardo Nunes (MDB).
Em maio, foi firmado um pacto entre os governos estadual e federal para a concessão de uma carta de crédito de R$ 250 mil a cada família, subsidiada pelos programas Minha Casa, Minha Vida (R$ 180 mil da União) e Casa Paulista (R$ 70 mil do Estado), a fim de que adquirissem um imóvel próprio. O anúncio foi celebrado como uma vitória da resistência da comunidade, que rejeitava a proposta inicial de Tarcísio — antes, as famílias teriam de assumir um financiamento subsidiado, considerado inviável financeiramente.
