Jovens negros desconfiam mais da polícia e da Justiça e têm visão menos positiva da democracia

    Pesquisa da Friedrich Ebert Stiftung (FES Brasil) identificou que segurança pública é tema em disputa na juventude brasileira. Pautas punitivistas têm alta adesão, mas medidas estruturais, como controle de armas, também são valorizadas

    Antirracismo está entre causas com maior adesão de jovens, mostra estudo | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

    A segurança pública está entre as principais preocupações da juventude do Brasil, faixa etária na qual o tema aparece sob disputa e protagoniza percepções contraditórias. Entre os jovens brasileiros, há uma alta adesão a pautas punitivistas, como o aumento de penas e a redução da maioridade penal — ao mesmo tempo em que medidas estruturais, como o controle de armas de fogo e a melhor formação dos agentes públicos, também têm sua importância reconhecida.

    Esse é o panorama identificado pelo estudo Juventudes: Um Desafio Pendente, lançado pela fundação Friedrich Ebert Stiftung (FES Brasil) na última semana. A pesquisa é baseada em um questionário aplicado a cerca de 22 mil pessoas com idades entre 15 e 35 anos no Brasil e em outros 13 países da América Latina e do Caribe. O levantamento também colheu impressões dos jovens da região sobre a democracia, as demandas sociais, a confiança nas instituições e a sua participação política.

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    “A análise das percepções das juventudes brasileiras sobre os principais problemas do país, o papel do Estado e as prioridades para as políticas públicas revela uma geração marcada por fortes preocupações sociais, sobretudo com a pobreza, a insegurança e o desemprego”, relatam os autores do estudo. 27% dos jovens no país colocam a segurança entre as prioridades a serem tratadas por políticas públicas. Trata-se do terceiro tema mais citado pela juventude brasileira, atrás apenas da preocupação com a geração de empregos (55%) e com iniciativas de bem-estar social (46%).

    Já entre os principais problemas que desafiam o país na visão dos jovens, o crime organizado (34%) e a insegurança (29%) aparecem entre os cinco primeiros — ficam atrás apenas da pobreza e da falta de acesso a direitos (61%), do consumo de drogas (45%) e da corrupção (35%). A violência policial (9%) é o oitavo flagelo mais citado. O estudo mostra, ainda, que a insegurança é um problema mais alardeado pela juventude rica (35% nas classes altas contra 25% nas baixas). Já as jovens mulheres priorizam mais do que os homens as desigualdades do país, como pobreza, desemprego e falta de acesso a direitos de saúde e educação (65% ante 57%).

    Percepções contraditórias sobre soluções para a segurança

    No campo da segurança pública, quase sete de cada dez jovens (69%) defendem que penas mais rigorosas reduziriam a criminalidade (35% concordam totalmente com isso e 34% apenas concordam). Uma mesma parcela da juventude brasileira (70%) entende que crianças e adolescentes deveriam ser julgados como adultos por atos infracionais. Para a FES, os indicadores preocupam, mas são menores do que a adesão da população em geral a essas pautas. “A Pesquisa Datafolha de 2019 aponta que 84% das pessoas que responderam à pesquisa eram favoráveis à redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, 14% eram contrários e 2% indiferentes.”

    A pesquisa ainda identificou que mais da metade dos jovens brasileiros (51%) entende que o acesso e o uso de armas pela população civil aumenta a violência. A maioria (64%) também está de acordo que a formação e valorização dos agentes de segurança pública poderia diminuir a violência. Quase quatro em cada dez jovens (38%) entendem que militares e agentes da segurança pública não deveriam atuar na política. Outros 34% são indiferentes a isso, e 27% só não concordam com o veto.

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    Além disso, são minoria (41%) os que concordam que a conduta de criminosos justifique uma ação violenta por parte das polícias. Já a descriminalização das drogas é um tema relativo à segurança pública com índices mais próximos entre as diferentes opiniões: 32% concordam que essa medida reduziria a violência e a criminalidade, enquanto 28% são indiferentes e outros 40% discordam.

    Os autores do estudo ainda destacam que, para várias dessas questões sobre segurança, houve uma taxa elevada de indiferença. Ou seja, apesar da grande preocupação com o tema, há um aparente distanciamento crítico ou mesmo falta de aprofundamento no debate público.

    Jovens negros confiam menos nas polícias e na democracia

    A pesquisa também traz recortes raciais dentro do campo da segurança pública. Entre jovens negros, 36% demonstram uma confiança baixa ou muito baixa nas polícias, enquanto o índice é de 30% entre brancos. A descrença na Justiça também é maior entre pretos e pardos: 35% dedicam uma confiança alta ou muito alta a ela, ao passo que esse indicador entre jovens brancos é de 39%.

    “Historicamente, jovens pretos e pardos estão mais expostos a situações de violência policial, o que contribui para uma percepção mais negativa da polícia”, contextualizam os autores do estudo. “Da mesma forma, a disparidade de confiança no sistema judicial reflete a experiência desses jovens com este sistema que, ao longo do tempo, tem sido marcado por julgamentos mais severos e taxas de encarceramento desproporcionalmente altas para pessoas negras.”

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    O levantamento também identificou que, entre jovens negros, a democracia é vista como um sistema de governo preferível a qualquer outro por 64%. Entre a juventude branca, essa visão positiva alcança 71%. Para os autores da pesquisa, o racismo estrutural no país resulta não apenas em menos oportunidades, mas também na ideia de que a democracia seria ineficaz para resolver os problemas da juventude negra. Um exemplo disso é que apenas 29% dos jovens pretos e 32% dos pardos têm empregos estáveis, enquanto entre brancos isso está em 45%.

    “É importante também assinalar que o Brasil tem uma história política marcada por golpes promovidos pela direita, e essa ideia de que a democracia não é capaz de garantir a vida da população permanece presente entre todos, incluindo as juventudes”, argumentam os autores.

    Juventude quer Estado democrático e que garanta direitos

    A pesquisa ainda traz mais indicadores sobre percepções políticas dos jovens brasileiros. Quatro em cada dez (40%) não tem ou tem pouco interesse em política, com maior engajamento entre classes mais altas. A participação em sindicatos, movimentos sociais e partidos políticos é baixíssima, sendo que mais da metade dos jovens (59%) não participa de organização alguma.

    No espectro ideológico, uma maior parte (44%) se identifica com o centro, enquanto 38% se dizem alinhados à direita e outros 18%, à esquerda. Entre as mulheres, a identificação com a esquerda é maior do que entre homens (20% ante 16%). “Essa diferença se reflete em opiniões sobre diversos temas, que indicam uma tendência das mulheres jovens a se distanciarem mais de visões conservadoras e de direita e a expressarem visões mais progressistas em relação a temas sociais e políticos.”

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    Cerca de dois em cada dez jovens (19%) não militam por causa alguma, mas gostariam de fazer isso, o que, segundo a FES, revela um potencial de mobilização. As principais causas que têm adesão são a defesa da família (26%), o meio ambiente (22%), os direitos das juventudes (15%), movimentos antirracistas (13%) e feminismo (12%).

    “Apesar das divisões ideológicas, o estudo aponta para uma convergência em pautas progressistas, como taxação de grandes fortunas, regulamentação de mídias e combate às desigualdades. A defesa de um Estado democrático e inclusivo, capaz de garantir direitos básicos como educação e saúde, é um consenso entre jovens de diferentes espectros políticos”, escrevem os autores.

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    Para a FES, uma agenda voltada aos jovens, que devem ser reconhecidos como sujeitos políticos plenos, precisa incorporar mudanças estruturais. “É indispensável promover valores democráticos e responder a posições extremistas contrárias aos direitos humanos, por meio de debates integradores, garantia da liberdade de expressão e estímulo à participação social em diferentes espaços institucionais e comunitários.”

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