Da Redação | Quando a sensação de insegurança vira justiçamento 

Caso de Cláudio Rafael Landeiro, morto após ser falsamente acusado de roubo em Copacabana, expõe como a sensação de insegurança e o punitivismo ajudam a legitimar linchamentos e a ideia de que qualquer pessoa pode julgar e punir

Ilustração de Junião mostra um grupo de pessoas agredindo uma pessoa caída no chão, em representação de um linchamento e da violência do justiçamento.

Cláudio Rafael Landeiro, 37 anos, saiu de casa com a bicicleta da irmã e acabou falsamente identificado como ladrão em Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro. Foi perseguido e espancado durante cerca de nove minutos. A perícia contabilizou 63 pauladas. Depois, permaneceu aproximadamente meia hora no chão até a chegada do socorro. A Polícia Militar do Rio de Janeiro (PMERJ) informou que não foi acionada para aquela ocorrência. Cláudio não morreu vítima de uma acusação injusta. Ele morreu pelas mãos de justiçamento.

Um dos envolvidos nas agressões alegou ter sido “levado ao erro” porque outra pessoa lhe disse que Cláudio era ladrão. Isso nos leva a uma dúvida central: se Cláudio tivesse roubado a bicicleta, matá-lo seria aceitável? A inocência dele torna a injustiça ainda mais evidente, mas não pode ser aquilo que fundamenta a condenação do linchamento. Senão, sem perceber, você aceita a premissa de que bater no “ladrão certo” seria menos problemático. É preciso deixar óbvio e dizer mais uma vez: o problema não é apenas que os justiceiros possam punir um inocente; é acreditar que existe alguém que eles tenham o direito de punir. 

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Em entrevista à Ponte em 2025, o historiador e pesquisador em história social do crime e aparato de policiamento e segurança pública da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Paulo Henrique Matos de Jesus associou o justiçamento à frustração com instituições como Judiciário e polícia, mas vai além: fala do sujeito que entende que não precisa esperar o Estado porque é responsável por si mesmo. A lógica que ele descreve é a do “eu sou responsável pelo meu sucesso, pela minha segurança, pelo meu patrimônio e, finalmente, por punir quem ameaça tudo isso”.

A forma como se culpabiliza quem é roubado ao perguntar: “Mas você estava usando celular na rua?” ou “por que estava naquele lugar?” produz a cobrança para que cada um administre individualmente sua própria segurança. Ela deixa de ser direito e política pública e vira performance individual: quem se protegeu direito, quem reagiu, quem “não deixou barato”. 

Nesta lógica, o Estado é acusado de não conseguir proteger e, a partir daí, a pessoa se atribui poderes sem limites legais, que nem o Estado possui. Não é simplesmente “autodefesa”; é apropriação do poder de polícia, julgamento e punição. 

Um fenômeno persistente

O caso de Cláudio não é uma exceção na região da zona sul do Rio. A Folha de São Paulo apurou essa semana que grupos organizados para agredir pessoas em situação de rua e supostos autores de furtos e roubos atuam há pelo menos três anos em Copacabana. Um desses grupos, o Anjos da Guarda Vigilância Comunitária, é alvo de inquérito da 3ª Promotoria da Infância e Juventude do Rio de Janeiro.

A prática também não é exceção no país. De acordo com a revista Carta Capital, a Rede de Observatórios da Segurança, que monitora nove estados — Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo — contabilizou 223 casos de linchamento em 2024, 227 em 2025 e 88 somente entre janeiro e maio de 2026. Fica claro, portanto, que o justiçamento é um fenômeno persistente no Brasil, e o caso de Copacabana revela como essa prática pode ganhar organização e legitimidade social em meio à sensação de insegurança. 

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Com a 3ª população carcerária do mundo e um alto número de letalidade policial, fica difícil sustentar a imagem de um Estado que “não pune ninguém”. A sanha punitivista está no coração da nossa segurança pública, com seu nascedouro nos tempos da escravidão de corpos negros e indígenas. 

Paulo Henrique Matos aponta ainda para corpos que já aparecem como “culpados a priori” e para a naturalização da violência contra corpos negros; quem pratica a agressão deixa de se perceber como criminoso e passa a se imaginar “justiçador”. Cláudio, cuja autodeclaração racial desconhecemos, foi julgado e teve sua sentença praticada sem que pudesse se defender dentro do devido processo legal, como é comum que aconteça com corpos negros, sobretudo pelas mãos do Estado. 

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Em vez de existir uma conduta que deve ser investigada para então identificar autoria e responsabilidade, primeiro se identifica quem parece criminoso e depois se procura uma conduta para justificar a punição. É exatamente por isso que boato, aparência, território, condição social e raça têm tamanho peso no justiçamento. 

O que fica escandalosamente explícito no caso de Copacabana é que, por um objeto ou propriedade, vale tudo, inclusive matar. Talvez seja a grande vitória de uma sociedade capitalista neste fim dos tempos em que  vivemos: a propriedade merece toda defesa e cuidado, mais do que a vida de qualquer pessoa. O argumento da “indução ao erro” revela que se naturalizou a violência letal para resolver qualquer conflito, dinâmica ou relação. 

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Essa sequência — da organização da segurança pública pela identificação do inimigo à violência como solução normal de conflito — materializa o que venho chamando de militarização da vida. Nesta lógica, dentro de um individualismo exacerbado, o outro não é um humano como eu, que goza dos mesmos direitos que eu, mas é meu inimigo apenas por ser quem é.

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