Letalidade policial na BA, o estado mais negro do país, é quase seis vezes pior contra pretos e pardos

    As polícias do governo Jerônimo Rodrigues (PT) mataram duas pessoas a cada 100 mil habitantes brancos em 2024. Já entre negros, a taxa ultrapassa 11 vítimas. Relatório “Pele Alvo” denuncia disparidade também em outros estados

    Ator negro aparece com camiseta branca com buracos nas costas simulando tiros em performance durante protesto.
    Atores usam camisetas com buracos e tinta nas costas, simulando tiros em performance artística durante a Marcha pelo Dia da Consciência Negra de 2023 | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

    No estado mais negro do Brasil, a Bahia, o risco de um pessoa preta ou parda ser morta pelas polícias foi quase seis vezes maior que o de pessoas brancas em 2024. É o que denuncia o relatório Pele Alvo: crônicas de dor e luta, recém-lançado pela Rede de Observatórios da Segurança, que congrega nove organizações em nove estados do país.

    No ano passado, o estado governado por Jerônimo Rodrigues (PT) — onde 79,69% da população é negra, seja de pele parda (57,31%) ou preta (22,38%), segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — teve uma taxa de 11,5 mortes cometidas por policiais para cada 100 mil habitantes negros. Já entre brancos, esse índice foi de dois óbitos. Ou seja, o risco de pessoas negras serem mortas por agentes do Estado foi 5,75 vezes maior.

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    Ao todo, 1.556 pessoas foram mortas por policiais na Bahia em 2024 — trata-se do estado com a pior letalidade policial do país em números absolutos. Entre as vítimas que tiveram a informação racial considerada nos registros da Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), 95,7% eram negras.

    “Desde 2021, o estado registra acima de mil casos por ano, com quase 100% das vítimas composta por homens negros. Ainda assim, o governo insiste em afirmar que a ‘Bahia é um estado de paz”’ A narrativa diverge da realidade das periferias e pode ser lida como negação do racismo e da violência policial por parte das gestões ditas progressistas no estado”, escrevem os autores do estudo.

    Disparidade racial se repete em outros estados

    O relatório da Rede de Observatórios mostra que essa disparidade racial também ocorre em outros estados, embora em proporção menor que a da Bahia. O estudo traz dados do Amazonas, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo — obtidos junto às secretarias de segurança de cada um com pedidos via Lei de Acesso à Informação (LAI).

    Em Pernambuco, o risco para negros foi 5,5 vezes maior. Em seguida, as maiores disparidades aparecem no Rio de Janeiro (4,5) e em São Paulo (2,8). “Este cenário reitera que a letalidade policial no Brasil não é um fenômeno aleatório, mas uma manifestação direta do racismo estrutural que tem a vida da população negra como alvo preferencial.”

    “Este cenário reitera que a letalidade policial no Brasil não é um fenômeno aleatório, mas uma manifestação direta do racismo estrutural que tem a vida da população negra como alvo preferencial.”
    Relatório “Pele Alvo”, da Rede de Observatórios da Segurança
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    “De igual modo, a realidade dos dados anunciados aqui desmantela o senso comum de que a população negra é mais vitimada apenas por ser majoritária. Embora os negros de fato constituam a maioria da população em todos os estados analisados, excetuando São Paulo, a proporção de negros mortos é consideravelmente superior em relação à densidade demográfica”, argumentam.

    No caso do Rio, sob gestão Claudio Castro (PL), os padrões estruturais de desigualdade racial se mantiveram mesmo com a queda do número de óbitos pelas polícias de 2023 a 2024. “A juventude negra continua sendo a mais vulnerável. Para reduzir efetivamente as mortes, será necessário aperfeiçoar protocolos policiais, investir no desenvolvimento social, repensar a segurança pública de um modelo de confronto para modalidades de prevenção, mediação e controle do uso da força.”

    Prevalência de jovens negros mortos

    No Pará, o segundo estado mais negro do país, com 79,64% da população preta ou parda, o risco das pessoas negras serem mortas pelas polícias foi 2,5 vezes maior que o das brancas no ano passado. Ao todo, foram 597 casos — entre os identificados, 90,8% tinham negros como vítimas.

    Ainda no estado governado por Helder Barbalho (MDB), a maioria das mortes cometidas pelas polícias se concentrou nas periferias de Belém, cidade que recebe desde a última semana a COP 30, como também é chamada a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025..

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    “Ao passo em que se projeta internacionalmente como vitrine de sustentabilidade, o estado mantém internamente uma cruzada contra as populações das periferias. Os mais afetados (415 vítimas) têm idades entre 12 a 29 anos, dos quais 272 têm ensino fundamental incompleto, evidenciando a vulnerabilidade socioeconômica”, apontam os autores.

    A prevalência de vítimas jovens também se deu em outros estados, como no Piauí. “A precariedade das condições de vida, somada ao racismo estrutural e às desigualdades regionais, cria um cenário em que jovens negros, pobres e com baixo grau de escolaridade são os mais vulneráveis e os principais alvos das práticas letais das forças de segurança pública. Não por acaso, 52,0% das vítimas tinham até 29 anos.”

    Ausência de registros demonstra negligência institucional

    Somente no Maranhão a taxa de mortes cometidas pelas políciais a cada 100 mil habitantes foi maior para brancos (0,4 casos) do que para negros (0,3). No entanto, 74% dos casos no estado (56 de um total de 76) não tiveram cor e raça identificados nos registros oficiais.

    Esse é um problema que se repete em outros estados, segundo o relatório. “A ausência de preenchimento adequado desse campo evidência a negligência institucional e pode ser interpretada como uma omissão do racismo estrutural nos registros oficiais”, apontam os autores ao descreveram a situação da Bahia, com 200 óbitos sem detalhamento de raça nos registros.

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    A fragilidade dos dados também é gritante no Amazonas e no Ceará, 53,5% e 51,3% das vítimas, respectivamente, não teve identificação de cor. No primeiro deles, a lacuna deixada pela Secretaria da Segurança Pública local (SSP-AM) nos registros põe em dúvida, inclusive, a versão oficial de que nenhum indígena foi morto pelas polícias em 2024.

    “Em um estado onde uma em cada oito pessoas é indígena (e sofre um racismo específico por isso); onde os territórios urbanos indígenas são definidos, perversamente, como ‘invasões’ e criminalizados, esse 0,0% obriga a suspeitar que se trate de mais um ’empardecimento’ estatístico ou, ainda, de uma maneira de evitar a federalização das investigações. É urgente que a SSP-AM reconheça que a compreensão legal e social de todas as mortes violentas envolve conhecer quem eram essas vidas.”

    Recomendações da Rede de Observatórios

    Além do maior cuidado com os registros, a Rede de Observatórios traz ainda uma série de recomendações às autoridades para lidar com a letalidade policial, que considera a manifestação mais brutal do racismo de Estado. Elas estão divididas em quatro eixos. São eles: 1. mudança de paradigma e de doutrina policial; 2. formação e qualificação profissional; 3. transparência e controle externo; 4. condições de trabalho e apoio ao policial; e 5. planejamento, metas e responsabilização.

    O grupo propõe, por exemplo, o fim de lógica de guerra na segurança pública, que trata populações pobres e negras como inimigas e periferias como campos de batalha. Também sugere a reformulação do treinamento de agentes, com maior foco no uso proporcional da força e em uma abordagem antirracista, e a elaboração de planos estaduais com metas claras para a redução da letalidade das polícias.

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    “O objetivo do Pele Alvo é monitorar, quantificar e qualificar o padrão de atuação das polícias, oferecendo subsídios para a cobrança de políticas públicas de segurança que respeitem os direitos humanos e combatam o racismo”, argumentam os autores do relatório.

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