Deusiane Pinheiro, 26, morreu em 2015, dentro de base da PM no Amazonas. Ministério Público contesta versão de suicídio e aponta fraude no controle de armas para acobertar o caso. Mãe da PM luta por justiça

“Eu me preparei para tudo, pra tudo na vida. Menos para enterrar uma filha”, diz Antônia Assunção, de 60 anos. Para a mãe, perder Deusiane da Silva Pinheiro, 26, é a coisa mais difícil de sua existência.
Era por volta das 18h de 1º de abril de 2015 quando, segundo o Ministério Público do Amazonas (MP-AM), o então cabo da Polícia Militar Elson Santos Brito atirou contra a soldado, atingindo-a na cabeça. O crime ocorreu na base flutuante “Peixe Boi”, do Batalhão Ambiental da PM, em Manaus.
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Naquela quarta-feira, Antônia recebeu uma ligação informando que a filha havia sofrido um acidente. “Disseram que ela tinha sofrido um acidente, mas que a ambulância estava a caminho”, relembra.
Às 21h30, a aflição só crescia. Sem saber para qual hospital a filha tinha sido levada, Antônia foi ao batalhão onde ela trabalhava e descobriu que Deusiane estava morta. “Foi a pior notícia que recebi em toda a minha vida”.
Dez anos depois, o caso ainda não teve desfecho judicial. O julgamento de Elson e de outros quatro policiais também envolvidos está marcado para 18 de agosto. Antônia espera que a responsabilização dos réus traga algum alívio após uma década de dor.
A reportagem procurou as defesas dos policiais citados, mas não obteve retorno até a publicação.
Luto, memórias e suspeitas
Deusiane sempre morou com a mãe. Era uma filha atenciosa, lembra dona Antônia. “Ela se preocupava muito comigo. Tarde da madrugada, vinha no meu quarto perguntar se eu estava bem”.
As duas eram muito próximas. Viajaram juntas pelo Nordeste e, em Maracajaú, no Rio Grande do Norte, Deusiane realizou o sonho de mergulhar — algo que via a mãe fazer desde a infância. Foram 30 minutos submersas e uma lembrança feliz para a vida inteira.
Depois da morte da filha, Antônia se recolheu, tomada pela tristeza e pelo medo. A casa da família foi alvo de furtos e tentativas de arrombamento. Em uma das ocasiões, uma pessoa tentou forçar a porta da frente, quebrou a maçaneta da cozinha e só foi embora após os gritos desesperados de Antônia. Ela ouviu um carro arrancar, o que a fez suspeitar que havia mais de um envolvido. O caso foi registrado na Polícia Civil.
Relacionamento abusivo e ameaças
A Ponte teve acesso à denúncia apresentada pelo promotor Edinaldo Aquino Medeiros em julho de 2017, dois anos após o crime.
O documento narra que Elson e Deusiane mantinham um “relacionamento amoroso conturbado”. O conflito se intensificou quando o policial reatou com uma ex-companheira, mas queria manter a relação com Deusiane. A soldado, segundo o MP, não aceitava a situação e pressionava por uma definição.
A denúncia da Promotoria de Justiça aponta que houve, inclusive, uma briga física entre as duas mulheres, que deixou Deusiane com hematomas. Depois disso, ela terminou o relacionamento com Elson, que passou a ameaçá-la, “exacerbando seu lado ciumento e violento”. Dias antes do crime, ele teria feito ameaças de morte, afirmando que faria parecer suicídio, acrescenta.
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Antônia confirmou durante o processo as ameaças sofridas pela filha. Deusiane teria contado que Elson já havia apontado uma arma para sua cabeça para forçá-la a revelar a senha do celular, apagar conversas e mostrar com quem falava.
Antônia diz acreditar que a filha foi morta por não aceitar participar de um suposto esquema de corrupção dentro do Batalhão Ambiental. Em 2013, o jornal A Crítica publicou que o Ministério Público investigava crimes de corrupção e organização criminosa na unidade. Policiais facilitariam o transporte de madeira ilegal e perseguiam quem se recusava a colaborar.
Apesar da suspeita da mãe, essa motivação não foi incluída na denúncia do MP contra Elson e outros quatro envolvidos. A Ponte questionou o órgão, mas não obteve retorno.
Fraude para encobrir assassinato
No dia da morte, Elson e Deusiane estavam no andar superior da base “Peixe Boi”. Os cabos Jairo Gomes, Cosme Sousa, Narcízio Neto e o soldado Júlio Gama estavam no andar inferior. Todos relataram ter ouvido barulhos vindos de cima e, logo depois, o disparo. Ao subirem, encontraram Deusiane ferida no chão.
A versão de suicídio apresentada por Elson foi sustentada pelos demais policiais, que disseram ter visto Deusiane caída com a arma ao lado do corpo.
O MP afirma que a narrativa é falsa. Uma das principais contradições está no livro do armeiro — registro oficial que controla a movimentação de armas de fogo. No documento, constava que a arma de número de série 51005 estava com Deusiane, mas não havia sua assinatura confirmando o recebimento.

Outro documento, o auto de exibição e apreensão, indicava que Deusiane portava a pistola de número 51035, com nove munições intactas e uma deflagrada. Mas no livro do armeiro essa arma estava atribuída a outro policial, o sargento B. Andrade. Já Elson havia registrado o recebimento da arma de número 71893 naquele dia.
A perícia técnica, considerada essencial pelo MP, revelou mais um ponto: a arma que estava com Elson tinha o ferrolho trocado com o da pistola 51035 — justamente a arma que teria sido atribuída indevidamente a Deusiane.
O ferrolho é o mecanismo que movimenta a munição dentro da arma, essencial para seu funcionamento. Sem ele, o disparo não ocorre corretamente.

Um exame com luminol, reagente químico que identifica vestígios de sangue invisíveis a olho nu, detectou alta concentração de sangue no ferrolho da arma 51035 — aquela atribuída a Deusiane. No entanto, esse ferrolho pertencia, na verdade, à arma de número 71893, que estava com Elson.
Para o MP, a troca de ferrolhos só poderia ter ocorrido com a anuência dos demais policiais, o que configuraria fraude processual — crime previsto no artigo 346 do Código Penal Militar. Os quatro colegas de Elson foram denunciados por essa prática.
Um perito ouvido pela Ponte explicou que o ferrolho é um dos principais mecanismos que permitem identificar de qual arma partiu um disparo.
Ao apertar o gatilho, o projétil é impulsionado pela pressão dos gases formados pela queima da pólvora. Esse projétil percorre o cano da arma, ganhando marcas internas chamadas estriamentos, únicas de cada cano, o que permite sua identificação posterior.
Ao mesmo tempo, a parte traseira do cartucho, o estojo, é empurrada para trás com força. Ele atinge o ferrolho, que é a peça responsável por iniciar o ciclo de ejeção do estojo deflagrado e recarregar a arma com uma nova munição. Esse impacto deixa marcas visíveis na cápsula.
Essas marcas funcionam como uma espécie de “impressão digital” da arma e permitem à perícia identificar de qual armamento saíram o projétil ou o estojo encontrados em uma cena de crime.
Por isso, explicou o perito, a troca de ferrolhos entre armas diferentes pode ser usada como forma de fraude, dificultando ou até impedindo a identificação do armamento original. “Quando você troca o ferrolho de uma arma pra outra, você tá querendo esconder de onde saíram aquelas cápsulas”, afirmou.
Já Elson responde por homicídio qualificado, com agravantes de motivo torpe e uso de meio cruel ou perigoso, o que eleva a pena para até 30 anos de prisão.
Nas alegações finais — última etapa antes da sentença — o Ministério Público reafirmou que Elson negou o crime e que os demais acusados sustentaram a versão do suicídio, “acobertando a versão do primeiro acusado”. O documento foi assinado em 9 de janeiro de 2024 pelo promotor Luiz Alberto Dantas de Vasconcellos.
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Nenhum dos policiais chegou a ser preso durante as investigações e todos seguiram na ativa na Polícia Militar. Elson, que na época do crime era cabo, hoje é sargento — cargo que permite liderar e coordenar equipes, além de ministrar treinamentos. Em julho deste ano, dado mais recente disponível, ele recebeu salário de R$ 12 mil, segundo dados do Portal da Transparência do governo do Amazonas.
Narcízio Guimarães Neto é atualmente subtenente. Júlio Henrique da Silva Gama é terceiro sargento, e Cosme Moura Souza também é sargento. Jairo Oliveira Gomes, que na época era soldado, está aposentado.
O que dizem as autoridades
A Ponte procurou as defesas dos policiais militares citados, mas não obteve retorno. A reportagem também questionou a Secretaria de Segurança Pública do Estado do Amazonas (SSP-AM), mas não houve resposta.
Em sua manifestação, o promotor do caso não quis se manifestar por conta do processo tramitar em sigilo.