Francisco se juntou ao movimento após o filho Paulo Alexandre ter sido vítima de desaparecimento forçado em meio aos Crimes de Maio. Ele também era pai de Francilene, outra integrante das Mães de Maio, e Juliana, assassinada nos anos 90

Morreu no último domingo (6/9) Francisco Gomes, aos 80 anos de idade. Ele era um integrante histórico do Movimento Independente Mães de Maio, ao qual se juntou em função de o filho, Paulo Alexandre, então com 23 anos, ter sido vítima de desaparecimento forçado em meio aos Crimes de Maio, em 2006.
Francisco morreu em decorrência das complicações de um câncer, após ter passado por uma cirurgia na última quinta (3/9) para a retirada de um tumor. Ele se recuperava em casa antes de dar início à quimioterapia. O corpo dele foi sepultado no Cemitério de Itaquera, na zona leste de São Paulo, em cerimônia ocorrida nesta segunda (7/9).
Francisco era também pai de Juliana, que foi assassinada nos anos 90, aos 17 anos de idade, em um caso nunca solucionado, e de Francilene, outra histórica integrante das Mães de Maio — ela faleceu em setembro de 2024, aos 44 anos, em decorrência de um câncer.
“Seu Francisco, vá em paz. Obrigado por lutar a nossa luta. Obrigado por tudo, companheiro!”, escreveram as Mães de Maio ao divulgarem o falecimento nas redes sociais.
‘Clamando por uma justiça que a gente nunca vê’
A Ponte esteve com Francisco uma última vez em dezembro de 2021, ocasião em que os familiares das vítimas dos Crimes de Maio conquistaram a inauguração de um monumento em uma praça de Santos, no litoral paulista, em homenagem às vítimas da violência do Estado brasileiro.
“Clamando por justiça, uma justiça que parece que a gente não vê nunca, que passa a ser pior ainda. Quanto mais a gente pede, mais violência tem”, disse Francisco à época.
A declaração dada por ele aparece no podcast Crimes de Maio: o massacre que o Brasil ignora, lançado pela Ponte em parceria com o Brasil de Fato em maio, quando o episódio completou 20 anos.
Leia também: Podcast aborda esforços para dimensionar número de vítimas dos Crimes de Maio
Os Crimes de Maio foram uma onda de violência ocorrida entre os dias 12 e 21 de maio de 2006 no estado de São Paulo, especialmente na capital e seu entorno e também na Baixada Santista.
O episódio teve início com uma série de ataques da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) contra agentes públicos e se seguiu com uma vingança indiscriminada de policiais e de grupos de extermínio formados por agentes de segurança contra civis.
O massacre deixou ao menos 564 pessoas mortas, sendo a maioria jovens, negros, pobres e moradores de periferias. A maior parte foi vitimada por agentes de Estado. O caso também deixou 110 feridos e quatro vítimas de desaparecimentos forçados, entre as quais estava Paulo Alexandre, filho de Francisco.
Pai denunciou omissão estatal diante de desaparecimento do filho
A história de Paulo é contada no segundo episódio do podcast produzido pela Ponte. Ele saiu para ir à casa da namorada, na zona leste de São Paulo, em 16 de maio de 2006 e nunca mais foi visto pela família. A suspeita principal é de que ele tinha sido sequestrado e morto pelas Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), o batalhão mais letal da Polícia Militar paulista (PMESP).
O corpo da vítima nunca foi encontrado. Não houve responsabilização de ninguém. Só foi aberto um inquérito sobre o caso após Francisco denunciar a omissão do Estado à imprensa. Além disso, a irmã de Paulo, Francilene, precisou investigar por conta própria o que havia ocorrido.
Francilene ainda se tornou pesquisadora dos desaparecimentos forçados e da violência policial no Brasil. A tese de doutorado dela em Serviço Social deu origem ao livro Tecendo Resistências — Trincheiras contra a violência policial (Cortez Editora, 2024), no qual ela relata o trabalho de movimentos sociais e de veículos de imprensa independentes, como a Ponte, no enfrentamento à violência estatal.
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Em 2025, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) aceitou uma denúncia contra o Estado brasileiro pelo desaparecimento forçado de Paulo Alexandre.
O Estado brasileiro nunca produziu sequer um relatório reconhecendo a gravidade e a proporção dos Crimes de Maio, o que só foi dimensionado em função do esforço de entidades civis e de familiares das vítimas, como Francisco, que se uniram, em parte, com a formação das Mães de Maio.