À frente da operação, delegado Moyses Santana — o mesmo envolvido na prisão do rapper Oruam — diz que ação foi “bem planejada”. Chefe do Bope, Marcelo Corbage diz que intenção é trazer “paz social” para a comunidade

Uma operação feita pela Polícia Civil e a Polícia Militar do Rio de Janeiro nos bairros de Senador Camará e Vila Aliança, na divisa entre a capital fluminense e o município de Bangu, matou seis pessoas nesta quinta-feira (4/9). A ação tinha o objetivo, segundo as forças policiais, de prender dois traficantes que estariam na região — até a tarde desta sexta (5/9), eles seguiam foragidos.
Em razão dos tiroteios protagonizados por policiais e suspeitos, dez postos de saúde na região tiveram de fechar as portas na quinta. Na manhã desta sexta, dois ainda seguiam fechados e outros oito foram reabertos, mas sem realizar atividades externas, como visitas domiciliares a pacientes. Uma escola estadual precisou ser fechada e outras 37 unidades municipais de ensino foram, segundo a prefeitura do Rio, impactadas pela violência.
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As estações Senador Camará e Augusto Vasconcelos, na zona oeste do Rio, não tiveram circulação de trens na quinta, ocasião em que seis linhas de ônibus precisaram ser desviadas da rota dos tiros. O Rio Ônibus comunicou que seis ônibus foram tomados por suspeitos para serem utilizados como barricadas. Duas pessoas foram presas em flagrante por terem pego um desses veículos.
Nas redes sociais, um vídeo compartilhado pela corporações, assim como pelo delegado Felipe Curi, secretário estadual da Polícia Civil, e pelo comandante-geral da PM-RJ, o coronel Marcelo de Menezes, celebrou o resultado da operação, mesmo sem prender os alvos principais. “Quando as forças de segurança se unem, não há esconderijo, não há refúgio. A caçada continua; e quem ousar enfrentar, vai tombar”, diz a legenda da publicação.
Seis mortos em suposto confronto e um jornalista agredido
A Polícia Civil divulgou, em nota, que as mortes da operação se deram após os policiais terem sido confrontados por seis pessoas que mantinham um pastor evangélico e uma criança como reféns em uma casa. A Ponte questionou se algum policial ou as vítimas do sequestro foram feridas durante o suposto confronto, mas não houve retorno. As forças de segurança divulgaram ter apreendido quatro fuzis e diversas pistolas na ação, sem especificar qual armamento estava em posse dos suspeitos mortos.
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Ainda durante a operação, o repórter cinematográfico André Muzell, do canal no YouTube Factual RJ, foi espancado por 15 criminosos ao filmá-los montando uma barricada de fogo na comunidade. Ele foi socorrido ao Hospital Albert Schweitzer, em Realengo, do qual já recebeu alta, e perdeu R$ 40 mil em equipamentos, roubados pelos agressores.
Operação não prende alvos, ainda foragidos
As forças policiais alegaram ter baseado a operação em informações de inteligência que teriam indicado a presença de dois criminosos procurados na localidade: José Rodrigo Gonçalves Silva, o Sabão, e Bruno da Silva Loureiro, o Coronel.
O primeiro deles é tido como líder do tráfico de drogas na Vila Aliança e mandante de um ataque a tiros contra um helicóptero da Polícia Civil que sobrevoava a comunidade durante uma operação, ocasião em que o piloto foi ferido na cabeça. Já o segundo é apontado como chefe do narcotráfico na comunidade do Muquiço, a 20 quilômetros de Senador Camará, e responsável pelo assassinato de Sther Barroso dos Santos, jovem de 22 anos espancada até morte, em 17 de agosto, após se recusar a sair com ele de um baile funk. Os dois são integrantes da facção criminosa Terceiro Comando Puro (TCP).
Em territórios no entorno de Senador Camará e da Vila Aliança, também atuam as facções Comando Vermelho (CV) e Amigos dos Amigos (ADA) e uma milícia, rivais do TCP. Segundo o Instituto Fogo Cruzado, desde segunda (1º/9), houve cinco tiroteios e sete mortes na região, incluindo os óbitos causados pela operação.
‘Ação muito bem planejada’
Titular da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), uma das envolvidas na operação, o delegado Moyses Santana afirmou considerá-la “uma ação muito bem planejada”, apesar de não chegar aos foragidos. “É importante a gente destacar que, quanto maior o nível de informação, de inteligência, maior vai ser a resistência desses narcotraficantes”, afirmou em entrevista coletiva na quinta.
Moyses assumiu, no entanto, que o alegado planejamento foi feito de última hora, uma vez que operação não foi deflagrada no começo da manhã, como é comum em ações de tipo. “O horário e a forma da ação se devem a informações de inteligência. Apuramos que esse traficante, que, na verdade, é chefe da comunidade do Muquiço, estava em Senador Camará. Identificamos o local em que ele estava, e a operação foi planejada em caráter emergencial para que nós pudessemos efetuar a sua captura, tentarmos surpreendê-lo. Houve uma forte resistência armada dos narcotraficantes.”
O delegado já havia tido projeção recente por conta da prisão do rapper Oruam. Em 21 de julho, ele foi recebido a pedradas pelo cantor em uma mansão dele no Joá, na zona oeste do Rio, ao tentar cumprir um mandado de busca e apreensão contra um adolescente infrator envolvido com tráfico de drogas que estava no local. O músico responde agora à Justiça por tentativa de homicído qualificado.
‘Trazer o mais rápido possível a paz social’
Moyses esteve acompanhado na coletiva sobre a operação em Senador Camará do tenente-coronel Marcelo Corbage, que é comandante do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), unidade especializada da PM-RJ também presente na ocasião.
“Eu quero deixar claro que quem faz o mal para o nosso povo são os traficantes. Quem fecha escola e sequestra ônibus são eles. Então, a gente está trabalhando para prendê-los o mais rápido possível e cumprir esses objetivos de maneira que a gente possa trazer o mais rápido possível a paz social”, afirmou o agente.
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Em reportagem anterior, a Ponte mostrou que Corbage já foi alvo de uma investigação por corrupção e teve uma empresa de segurança envolvida em um caso de racismo. Ele assumiu o Bope em junho deste ano, após a operação conduzida pela unidade que matou uma pessoa e deixou outros cinco feridos durante uma festa de junina no Morro Santo Amaro, na zona sul da capital fluminense.
A operação letal mais recente do Bope, em Senador Camará, também teve participação das subsecretarias de inteligência de ambas as corporações e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), unidade da Polícia Civil especializada em atividades consideradas de alto risco e complexidade.
Especialista contesta inteligência alegada por operação
Para Fransérgio Goulart, coordenador-executivo da Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial (IDMJR), o saldo da operação deixa evidente que não houve planejamento, ainda mais se comparado à recente Operação Carbono Oculto — ela cumpriu mandados de busca e apreensão na Avenida Faria Lima, em São Paulo, mas também no Rio de Janeiro contra alvos ligados ao crime organizado.
“A gente vê o que é o racismo. Fica evidente como é feita uma operação com inteligência policial, e ali [na Carbono Oculto] a classe era outra, sem nenhum tiro, sem nada. E na favela é isso: a criação do inimigo público. E o inimigo público, como sabemos, é o povo preto”, avalia o especialista.
Leia a íntegra do que diz a Polícia Civil
Policiais civis e militares realizaram, nesta quinta-feira (04/09), uma operação na Vila Aliança, Zona Oeste do Rio. Os objetivos eram capturar o narcoterrorista conhecido como “Coronel”, que matou de forma bárbara uma jovem que não quis se relacionar com ele, e os envolvidos no ataque ao copiloto da Polícia Civil que foi ferido em uma ação na mesma localidade, em março deste ano. Dois criminosos foram presos e outros seis foram neutralizados em confronto. Houve ainda apreensão de quatro fuzis e diversas pistolas.
A operação foi planejada após informações de inteligência darem conta de que os alvos ligados ao Terceiro Comando Puro (TCP) estariam na Vila Aliança. Durante a ação, os agentes chegaram a um imóvel onde seis criminosos mantinham um pastor e uma criança como reféns. Houve resistência e os bandidos foram neutralizados. As vítimas foram liberadas em segurança.
Participaram da operação a Subsecretaria de Inteligência da Polícia Civil (Ssinte), a Subsecretaria de Inteligência da Polícia Militar (SSI), a Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), a Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) e o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope). As investigações continuam para localizar e capturar os narcoterroristas.