Servidor passou a ser investigado recentemente por importunação sexual contra colega e tem histórico de acusações de assédio moral. Peritos relatam indignação, já que pesquisa foi anunciada com objetivo de criar “ambiente de trabalho melhor”

Aviso: essa reportagem contém relatos de assédio moral, importunação sexual e ameaça de violência física.
Uma pesquisa de clima organizacional em andamento na Polícia Científica do estado de São Paulo tem causado constrangimento e indignação entre servidores. Isso porque a iniciativa, anunciada para, em tese, ouvi-los e orientar melhorias no ambiente de trabalho, é conduzida por um perito criminal que passou a ser investigado recentemente por praticar importunação sexual contra uma outra servidora.
O responsável pela pesquisa tem ainda um histórico de denúncias de assédio moral praticado contra outros peritos, com xingamentos e perseguição com uso de processos administrativos, o que a Ponte apurou a partir de relatos de servidores e documentos oficiais da corporação.
Em um caso mais grave de assédio moral, o Estado passou a ser processado em função da conduta desse perito e de outros servidores contra uma vítima — ela precisou se afastar do trabalho após ter sido ameaçada inclusive de violência física e receber um diagnóstico de burnout.
É nesse contexto que o perito passou a participar da condução da pesquisa de clima organizacional. O questionário traz mais de 100 afirmações diante das quais cada servidor deve sinalizar se concorda ou não. Eles são questionados, por exemplo, se consideram a instituição um bom lugar para trabalhar, se ela tolera ações arbitrárias e favoritismo pessoal, e se qualquer um pode comunicar internamente uma suspeita de violação sem medo de represálias.
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Os servidores ouvidos pela Ponte aceitaram falar sob a condição de anonimato, devido ao medo de sofrerem retaliação internamente. Segundo eles, é comum que denunciantes de assédio na Polícia Científica sejam perseguidos, ao passo que assediadores não são responsabilizados. Essa percepção também apareceu em uma pesquisa sobre assédio aplicada internamente na corporação no ano passado.
A Ponte questionou a Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP), à frente da Polícia Científica, sobre a participação do perito na pesquisa de clima organizacional em andamento. Em resposta (leia a íntegra ao final), a pasta, chefiada pelo secretário Osvaldo Nico e submetida à gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos), disse que ele não participa mais da condução do projeto.
A SSP-SP não especificou, no entanto, quando o servidor foi afastado da iniciativa. A Ponte apurou que, ao menos até a semana passada, já depois de ter sido acusado de importunação sexual, o perito convocou reuniões e apresentou o teor da pesquisa a outros servidores.
Perito encostou corpo em servidora e a beijou sem consentimento
O episódio mais recente envolvendo o perito, de importunação sexual, ocorreu na manhã do último dia 8 de julho, na principal sede da Polícia Científica, no bairro do Butantã, na zona sul de São Paulo — é onde está alocada a própria chefia da corporação, a Superintendência da Polícia Técnico-Científica (SPTC).
Segundo consta em relatos documentados da vítima, ela estava sentada sozinha em uma cozinha do local, mexendo no celular, quando o perito se aproximou de surpresa, encostando o corpo, da cintura para baixo, no corpo dela, alegando que queria cumprimentá-la com um beijo.
A mulher conta que o empurrou com o braço e o repreendeu também verbalmente, pedindo para que não fizesse aquilo. Mesmo sem consentimento, o perito voltou a se aproximar, segurando ela pelo ombro, e lhe deu um beijo no rosto. Em seguida, ele foi embora. O local não tem câmeras de segurança.
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A vítima nunca manteve qualquer relacionamento com o acusado, com o qual tinha apenas um contato superficial, de mera cordialidade profissional, por estarem lotados em um mesmo edifício-sede. Ela sequer sabia qual função ele exerce na corporação — o perito atua no setor de finanças do Instituto de Criminalística (IC), um órgão submetido à SPTC.
No mesmo dia, bastante abalada, a ponto de precisar ser acolhida por colegas, a servidora relatou o caso à chefia, que o repassou à diretoria do Centro de Perícias da Polícia Científica e, posteriormente, ao gabinete do superintendente Claudinei Salomão.
Foi encaminhado então um ofício para que o episódio fosse investigado pela Corregedoria da Polícia Civil, que apura infrações penais e administrativas também cometidas por policiais técnico-científicos. Além disso, foi acatado um pedido para que fosse bloqueado o acesso do perito ao núcleo no qual a servidora trabalha, uma das várias unidades especializadas sediadas no prédio.
Ao menos até o último dia 22 de julho, no entanto, o perito seguia com um cadastro biométrico habilitado para entrar no local, segundo a vítima relatou à Polícia Civil ao registrar um boletim de ocorrência na 3ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM Oeste) — o site Metrópoles publicou, a princípio, os detalhes do documento, ao qual a Ponte também obteve acesso.
À Ponte, a SSP-SP alegou que o acesso do perito foi, sim, suspenso. No entanto, ele só está impedido de entrar no corredor em que a servidora trabalha. Já a circulação ao restante do prédio, onde ambos também podem acabar se esbarrando, segue franqueada a ele.
A SSP-SP comunicou também que o caso ainda é investigado pela Corregedoria da Polícia Civil e por meio de um inquérito policial. “Todos os procedimentos internos cabíveis foram realizados”, disse.
Representantes do Sindicato dos Peritos Criminais do Estado de São Paulo (Sinpcresp) chegaram a ir ao local para ouvir e prestar apoio à servidora. Em razão disso, conforme divulgou a própria entidade sindical, a chefia da vítima precisou prestar esclarecimentos sobre a presença deles ao diretor do Centro de Perícias, Silvio Luiz Ramos Garcez.
Responsável por pesquisa tem histórico de denúncias por assédio moral
Antes desse episódio de importunação, o perito agora investigado já esteve associado a outros casos de assédio moral, em diferentes funções de gestão que exerceu dentro do Instituto de Criminalística.
Em um caso investigado internamente em 2017, quando o perito estava lotado em Jacareí, no interior de São Paulo, colegas relataram que ele criava um ambiente hostil no trabalho.
O perito costumava exigir de fotógrafos técnico-periciais funções que não cabiam ao cargo e os tratava com xingamentos, como “vagabundos”. O tratamento agressivo também ocorria em conversas registradas em um grupo de WhatsApp da equipe, no qual chegou a escrever “vai tomar no cu” para um colega. A apuração administrativa sobre o caso terminou arquivada.
Em outro caso, ocorrido em Jundiaí, uma servidora subordinada ao perito o acusou de praticar assédio moral reiterado contra ela. Segundo a denúncia, outras quatro pessoas da equipe também participaram das práticas, ocorridas entre o início de 2023 e o fim de 2024.
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As práticas tiveram início com uma gestora da vítima, que antecedeu esse perito no cargo. Essa primeira gestora teria praticado assédio moral por oito meses contínuos. Ela enviava mensagens ofensivas e intimidatórias em um grupo institucional no WhatsApp, tratando a vítima como uma pessoa indigna de atuar com os colegas. Ela também teria agido deliberadamente para remover da equipe a esposa da vítima.
A situação chegou a um ponto em que um perito próximo à gestora ameaçou a vítima presencialmente no trabalho, dizendo, aos gritos, que, com ele, ela “se ferraria”. O servidor afirmou ainda que poderia “resolver o problema de forma física, intelectual, de qualquer jeito” e que ele era “alfa e não um beta”.
Diante da ameaça, a vítima teve uma crise de ansiedade e, naquele mesmo dia, precisou encerrar o expediente para passar por um atendimento médico — em resposta a isso, a gestora dela instaurou uma sindicância acusando-a de abandono de plantão, o que a vítima entendeu ser uma nova retaliação.
Depois desse episódio, que chegou inclusive ao conhecimento da Ouvidoria das polícias, a gestora foi substituída pelo perito agora acusado de importunação sexual. O novo chefe a manteve, no entanto, na equipe e ainda concedeu a ela a atribuição de “assistente de chefia”, um cargo que sequer existe no quadro funcional da Polícia Científica. Na prática, a vítima continuou submetida aos desmandos da antiga gestora, que seguiu prestigiada mesmo por diretores da Polícia Científica.
O perito agora investigado ainda manteve o expediente de abrir processos administrativos contra a vítima, para, segundo ela própria, constrangê-la e prejudicá-la no trabalho. Em um desses processos, aberto supostamente para averiguar o fato de a vítima não ter respondido um colega de trabalho via WhatsApp, o que não procedia, o perito alegou que pretendia “apaziguar o espírito” da vítima.
O perito também autorizou que a antiga gestora da vítima acompanhasse, pelo Sistema Eletrônico de Informações (SEI), toda a tramitação desse processo administrativo. Em geral, o acesso aos procedimentos registrados na plataforma interna é restrito às pessoas envolvidas. A antiga gestora, porém, não era parte no processo nem ocupava mais a função de chefia. Na contramão disso, ele dificultava que a vítima tivesse acesso a documentos e outras provas que sustentassem suas denúncias contra colegas assediadores.
Em conversas com a vítima, o perito ainda relativizou o assédio praticado pela antiga gestora, afirmando que “todo mundo tem sua parcelinha de erro” e que “quem quer paz tem que levar paz”.
Ao final de 2024, ainda sob gestão do perito, a vítima se afastou do trabalho com sintomas de estresse, ansiedade e depressão. Ela foi diagnosticada com síndrome de burnout e transtorno de estresse pós-traumático complexo, o que uma médica especializada em saúde mental no trabalho atribuiu a uma exposição prolongada a assédio moral e ambiente laboral tóxico.
A vítima também atribui isso à omissão do Estado — a Corregedoria da Polícia Civil arquivou denúncias protocoladas pela vítima contra o perito e outros servidores. Ela busca agora reparação na Justiça.
Servidores relatam assédio e impunidade
O perito envolvido nesses casos passou então a conduzir agora no segundo semestre de 2026 uma pesquisa de clima organizacional intitulada “Vozes do IC”. Ele tem liderado reuniões e apresentado o projeto a servidores de unidades do Instituto de Criminalística de todo o estado.
A ideia, conforme ele anunciou a servidores, é repetir uma iniciativa dos órgãos policiais dos Estados Unidos, caso do FBI (sigla em inglês para “Departamento Federal de Investigação”), que anualmente aplica uma pesquisa para medir a satisfação de funcionários sobre líderes e a própria organização.
Um comunicado enviado aos servidores com um link do questionário, passível de ser respondido até o próximo dia 15 de setembro, pontua que o objetivo é entender, com respeito e confidencialidade, como cada um se sente, para orientar melhorias no órgão. “Sua opinião é essencial para construirmos juntos um ambiente de trabalho cada vez melhor”, diz a mensagem enviada aos peritos.
Conforme mostrou a Agência Pública, o Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) já havia aplicado um questionário junto aos servidores da Polícia Científica no ano passado, mas especificamente para averiguar a ocorrência de casos de assédio na instituição, após ser acionado pelo Sinpcresp.
Participaram daquela pesquisa, de forma anônima, 574 pessoas, o que representa 25% do efetivo. Entre elas, quase 60% relataram já ter recebido ordens e cobranças abusivas, excessivas ou absurdas na instituição. Quase metade (49%) disse ter sofrido humilhação e desvalorização pública no trabalho.
Praticamente três de cada dez respondentes (29%) disseram ter se sentido desconfortáveis com comportamentos sexualizados de colegas e superiores hierárquicos. E 12% relataram ter sofrido toques físicos com conotação sexual e sem consentimento.
Entre os casos de assédio moral, 96% disseram que não houve punição alguma. Já entre os de assédio sexual, a falta de responsabilização foi relatada por 98%. Para quase oito em cada dez servidores respondentes (79%), a Polícia Científica não adota medidas eficazes para prevenir esses episódios.
É ainda parecida a proporção de peritos que acreditam que a corporação não garante meios seguros para que denunciantes não sofram retaliação ao expor casos de assédio (77%).
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Para uma das pessoas ouvidas pela Ponte, que já sofreu assédio na corporação, a falta de responsabilização cria um ciclo de violência: “O que gera mais receio em denunciar é exatamente ver esse tanto de caso e os assediadores cada vez tomando cargos mais altos na instituição. Então, é preciso validar as vítimas e que isso tenha consequências para os assediadores”.
Também à Ponte, a SSP-SP disse, por sua vez, que a Superintendência da Polícia Técnico-Científica não compactua com desvios de conduta. “A instituição mantém uma Comissão de Combate ao Assédio Sexual e Moral e adota todas as medidas necessárias diante de denúncias dessa natureza”, escreveu.
Leia a íntegra do que diz a SSP-SP
A Superintendência da Polícia Técnico-Científica (SPTC) não compactua com desvios de conduta. A instituição mantém uma Comissão de Combate ao Assédio Sexual e Moral e adota todas as medidas necessárias diante de denúncias dessa natureza. Todos os procedimentos internos cabíveis foram realizados. A vítima de importunação sexual foi conduzida e acolhida na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), com disponibilidade de atendimento psicológico, no eixo valorização do servidor.
O acesso do autor às dependências do Núcleo de Perícias Criminalísticas e de Tecnologia (NCPT) foi restringido, com a suspensão de suas credenciais no sistema de controle de acesso. A SPTC ressalta ainda que o servidor não participa mais da condução do projeto “Vozes do IC”. As investigações dos fatos ocorridos em 8 de julho seguem na Corregedoria da Polícia Civil por meio de procedimento correcional próprio e inquérito policial.