PM investigado por morte de jovem em SP vira réu por matar homem desarmado em Rio Claro

Segundo o Ministério Público paulista, o soldado Helvio de Matos Júnior atirou nove vezes contra Mateus Milano durante abordagem. O PM já era investigado por matar Thiago Cordeiro, de 19 anos, em 2023, no bairro do Glicério

Montagem com duas imagens noturnas, de baixa resolução, registradas por câmera de segurança. As fotos mostram uma cena externa com um portão de grades escuras em primeiro plano e, ao fundo, um prédio amarelo. Em cada imagem, há círculos e setas amarelas destacando figuras identificadas como “policiais militares” e “Mateus Alves Milano”. A primeira foto mostra duas pessoas dentro dos círculos — um policial militar à esquerda e Mateus ao centro. A segunda foto destaca novamente um policial à esquerda e Mateus à direita, cercado por um grupo de pessoas na rua. As imagens têm aspecto granuloso, típico de gravações noturnas de segurança.
Imagens anexadas ao Inquérito Policial Militar (IPM) mostram os policiais militares e Mateus Alves Milano momentos antes dos disparos, durante a saída de um baile em Rio Claro | Foto: Reprodução

Mateus Alves Milano, de 28 anos, foi morto com nove tiros — um deles na cabeça — durante uma abordagem da Polícia Militar em Rio Claro, interior de São Paulo, em novembro do ano passado. Um vídeo analisado no Inquérito Policial Militar (IPM) mostrou que, instantes antes dos disparos, Mateus levantou a camiseta diante dos policiais. Segundo o Ministério Público do Estado (MP-SP), Mateus estava desarmado quando foi atingido pelos disparos feitos pelo soldado Helvio de Matos Júnior, que responde por homicídio qualificado. O mesmo policial já era investigado pela morte de outro jovem, de 19 anos, ocorrida um ano antes na capital paulista.

Segundo a denúncia apresentada pela promotora Maria Claudia Cruz de Oliveira, Mateus participava de um baile funk no Clube Grêmio Recreativo de Rio Claro quando sacou uma arma e fez disparos na rua. A PM foi acionada e, com a chegada das equipes, o jovem teria largado a arma e levantado a camiseta para mostrar que já não estava armado.

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Ainda de acordo com o MP-SP, Mateus foi revistado pelos policiais, mas fugiu. O cabo Kaiqui Hernanes Fajardo correu atrás dele e disparou cinco vezes “com intenção de matá-lo”, segundo a promotora, que o denunciou por tentativa de homicídio. O jovem não foi atingido e conseguiu se esconder em uma casa em construção. Helvio entrou no imóvel e, ao encontrá-lo, atirou nove vezes. Os disparos atingiram a cabeça, a clavícula esquerda, o tórax, o braço direito e a coxa direita de Mateus.

Versões da PM e de testemunha divergem

O Boletim de Ocorrência também registra que, durante a fuga, Mateus jogou ao chão um revólver que, segundo os próprios policiais, teria sido apreendido em seguida. O documento afirma ainda que Kaiqui chegou a efetuar disparos antes, mas não atingiu o jovem.

Já no IPM, Helvio apresentou uma versão distinta. Ele declarou que perseguiu Mateus após vê-lo envolvido em uma briga e supostamente armado. Segundo o depoimento, o jovem teria entrado em uma obra e, mesmo após ordens para largar a arma, virou-se duas vezes fazendo “movimentos bruscos” com as mãos, o que teria motivado os disparos efetuados pelo policial.

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As duas versões não se encaixam. O BO diz que Mateus já tinha descartado a arma e continuado a correr. No depoimento ao IPM, Helvio descreve o jovem como ainda oferecendo risco, como se estivesse armado, mesmo sem que uma segunda arma tenha sido encontrada.

Já Kaiqui disse ter visto Mateus com a arma na mão e deu ordem para que parasse e soltasse o objeto. Segundo ele, o jovem não obedeceu, teria se virado com a arma, e então efetuou disparos. O cabo disse ter continuado a perseguição pelas ruas até que outras equipes seguiram Mateus para dentro da obra.

A imagem exibe parte de uma página do IPM, com texto digitado na parte superior e, abaixo, um frame de vídeo noturno e de baixa resolução. O texto descreve os policiais militares tentando abordar populares na via pública. Na imagem, há um portão de grades escuras em primeiro plano e um prédio amarelo iluminado ao fundo. Duas figuras são destacadas por círculos e setas amarelas com as palavras “Policiais Militares” e “Mateus Alves Milano”. Mateus aparece à direita da cena, de pé, enquanto o grupo de pessoas ao redor está parcialmente desfocado pela qualidade da gravação.
Trecho do Inquérito Policial Militar (IPM) mostra frame de câmera de segurança em que policiais militares abordam pessoas na rua antes da morte de Mateus Alves Milano | Foto: Reprodução

A narrativa dos policiais contrasta também com a de um segurança do baile, ouvido no IPM. Ele afirmou que trabalhava no evento quando uma briga começou por volta das 2h. Disse que todos os frequentadores foram revistados na entrada e que não viu ninguém armado dentro do salão. Já no lado externo, relatou ter visto um homem de camiseta vermelha e boné branco — que depois reconheceu como Mateus — exibir uma arma cromada e fazer quatro disparos.

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O segurança contou que populares agrediram o Mateus, que teria reagido com coronhadas antes da chegada das viaturas. Segundo ele, o jovem jogou a arma no chão, uma terceira pessoa chutou o objeto para longe e, durante a abordagem, o jovem se desvencilhou e correu. Ele relatou ter ouvido novos disparos e, depois, mais tiros já dentro do clube.

Parte do relato é corroborada por um vídeo gravado por testemunhas e analisado no IPM, no qual Mateus aparece levantando a blusa diante dos policiais, conforme descreve a transcrição pericial (veja acima). Em 6 de novembro, o juiz Wander Benassi Junior aceitou a denúncia do MP-SP e tornou réus os dois policiais. A audiência de instrução foi marcada para março de 2026. Só após essa etapa o magistrado decide se eles irão a júri popular.

A foto mostra um jovem sentado na beira de uma cama, segurando um celular branco na mão direita e tirando uma selfie diante de um espelho. Ele tem pele clara, usa boné preto, camiseta preta de manga curta e bermuda preta com detalhes cinza. O jovem está levemente inclinado para a frente, com o olhar voltado para a tela do celular. Ao fundo, aparecem travesseiros, uma colcha estampada em tons claros e parte de um quadro vermelho na parede.
Thiago Gomes da Silva Lima Cordeiro, de 19 anos, foi morto em janeiro de 2023, no Glicério, região central de São Paulo | Foto: Arquivo pessoal

PM já era investigado por matar jovem de 19 anos

Quando matou Mateus, Helvio já era investigado por outra morte. Thiago Gomes da Silva Lima Cordeiro, 19, foi morto em 7 de janeiro de 2023, na Rua do Glicério, região central de São Paulo, quando o soldado estava de folga.

Segundo a versão apresentada pelo PM, Thiago teria tentado quebrar o vidro de um carro para roubar um celular que estava preso ao painel, mesmo após ser avisado de que se tratava de policiais. Helvio afirmou ter atirado porque o jovem teria feito um movimento que “dava a entender que estava armado”. Nenhuma arma foi encontrada com Thiago. Ele foi atingido por quatro disparos: na perna, nas costas, no pescoço e no rosto.

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O caso está sob investigação do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Em maio de 2024, o delegado Rodrigo Moreira Silva relatou o inquérito, mas o procedimento voltou à unidade após determinações do Ministério Público, que pediu diligências complementares. A Defensoria Pública de São Paulo, que representa a família, também havia solicitado novos esclarecimentos, como a análise do atendimento prestado a Thiago e complementos periciais, além da perícia do celular do jovem.

Segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP), o inquérito segue aberto para cumprimento dessas medidas. A pasta afirma que a Polícia Civil ainda precisa executar uma carta precatória e aguarda a análise de exames periciais em elaboração no Instituto de Criminalística, referentes aos celulares apreendidos. Sem a conclusão dessas etapas, o inquérito permanece pendente, à espera de novo relatório e eventual manifestação do Ministério Público.

“Dor que não passa”

A imagem mostra uma mulher de pele clara, cabelos presos e óculos de armação escura falando emocionada, com as mãos sobre o peito. Ela está diante de um grande banner azul com a foto de um jovem de rosto claro, olhos castanhos e boné preto, acompanhado da frase “Justiça para Thiago” e da data “07/01/2023”. À esquerda, há um cartaz branco com letras escritas à mão. A cena acontece em uma área externa, diante de uma parede de pedras claras.
Deuza Cordeiro, tia de Thiago, em protesto no bairro do Glicério, zona central de São Paulo, em janeiro deste ano | Foto: Catarina Duarte/Ponte Jornalismo

Desde a morte de Thiago, Deuza Cordeiro vive um luto que descreve como uma “dor que não passa”. Enfermeira há décadas e responsável por criar o sobrinho como filho, ela conta que cada dia desde 7 de janeiro de 2023 começa com a lembrança do jovem agonizando na rua onde caiu baleado. À Ponte, ela fala na dificuldade que é levantar da cama, com crises de dor de cabeça e a sensação de que a vida “nunca mais voltou ao lugar”.

Ainda assim, é ela quem insiste em manter o caso vivo. Deuza vai sempre ao Glicério colar cartazes, conversa com outras famílias vítimas da violência policial, busca testemunhas, procura informações sobre o andamento do inquérito e tenta construir uma rede de apoio.

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Para Deuza, cobrar respostas do Estado é a forma de honrar a memória de Thiago e impedir que outras mães e tias vivam o mesmo desespero. “Eu sei que ele não volta, mas não quero que mais ninguém passe por isso”, diz.

O que dizem as autoridades

A Ponte questionou a Secretaria da Segurança Pública sobre as duas investigações envolvendo o policial militar Helvio de Matos Júnior, pedindo informações sobre o andamento e as conclusões dos Inquéritos Policiais Militares, além de esclarecer se o PM segue em atuação nas ruas, se foi transferido para Rio Claro após a morte de Thiago e por qual motivo.

Também procuramos o Ministério Público sobre o caso de Thiago. A assessoria informou que a promotora responsável estava em um julgamento de três dias e só poderia responder na semana seguinte.

A reportagem buscou ainda os advogados dos policiais. A defensora de Helvio no caso de Thiago, Joice Vanessa dos Santos, disse que os fatos seguem em investigação e que qualquer conclusão fora dos autos seria precipitada. Segundo ela, ao final da apuração ficará demonstrado que o policial agiu para preservar a própria integridade e a de terceiros, dentro dos parâmetros legais e operacionais. Afirmou também que a defesa irá se manifestar quando os procedimentos forem concluídos e os elementos técnicos estiverem disponíveis.

No processo sobre a morte de Mateus, o advogado João Carlos Campanini, que representa Helvio e Kaiqui Fajardo, afirmou que a conduta dos policiais “foi correta e adequada”, pois teriam agido em legítima defesa. Segundo ele, essas circunstâncias serão “devidamente aclaradas” após a realização das audiências.

Já a SSP, respondeu apenas sobre o inquérito que apura a morte de Thiago. Leia a nota completa a abaixo:

O caso citado foi investigado por meio de inquérito policial instaurado na 2ª Delegacia da Divisão de Homicídios do DHPP e relatado em maio de 2024, tendo retornado à unidade para o cumprimento de cotas. A autoridade policial trabalha para atender às solicitações do Ministério Público, entre elas a execução de uma carta precatória e a análise de exames periciais, em elaboração, realizados pelo Instituto de Criminalística nos celulares apreendidos.

*Matéria atualizada em 14/11, às 10h40, para incluir o posicionamento de João Carlos Campanini.

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