Família de Marco Aurélio Cardenas já pedia prisão de PMs por entender que eles demonstraram periculosidade no caso. MPSP concordou só agora que medida diferente da prisão não é o suficiente para conter o PM Bruno Carvalho do Prado

O policial militar Bruno Carvalho do Prado, que respondia em liberdade pela morte do estudante de medicina Marco Aurélio Cardenas, foi preso preventivamente. A Justiça de São Paulo entendeu, na última sexta-feira (31/7), que a detenção dele era agora imprescindível para o resguardo da ordem pública em função de ter surgido um outro processo com o qual ele passou a ser acusado pela própria esposa de violência doméstica.
A família de Marco Aurélio soube no sábado (1º/8) que o réu já foi preso. Ele está no presídio Romão Gomes, em São Paulo, uma unidade prisional onde são custodiados apenas policiais militares.
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No processo que trata da morte de Marco Aurélio, a Justiça negava até então, com anuência do Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), a prisão de Bruno e também de um outro policial envolvido no caso, o soldado Guilherme Augusto Macedo, que atirou no estudante.
A compreensão da Justiça e do MPSP era contrária à da família de Marco Aurélio, que defendia já desde o início do processo ser necessária a prisão dos policiais, por entender que eles demonstraram periculosidade e frieza na ocasião da morte do estudante. Os agentes ainda seriam um risco ao andamento do caso, por eventualmente intimidarem testemunhas ou comprometerem provas — já houve, por exemplo, atraso para que fossem cedidas as imagens de suas câmeras corporais.
Conforme mostrou a Ponte, a família do estudante chegou a ter negado pela Justiça paulista o direito de recorrer de uma decisão que negou a prisão dos policiais militares.
MPSP entendeu agora que medidas cautelares não foram o suficiente
Na última terça (28/7), a família de Marco Aurélio, que é assistente de acusação no processo dele, levou então ao conhecimento da Justiça que Bruno passou a ser investigado pelo suposto cometimento dos crimes de ameaça e lesão corporal no contexto de violência doméstica e familiar.
A esposa dele relatou, em um boletim de ocorrência, que era alvo de constantes ameaças de morte do policial, que mantinha a posse de uma arma de fogo em casa. Em abril deste ano, após uma discussão em que a vítima teria manifestado a vontade de se divorciar, ele teria lhe causado um hematoma ao segurá-la pelo braço de forma brusca.
A própria família de Marco Aurélio relatou ter sido procurada pela esposa do policial anteriormente, mas entendeu adequado se manifestar somente após ela comunicar as autoridades competentes.
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A família então pediu a prisão preventiva do agente, com a qual o MPSP agora concordou. “As medidas cautelares diversas da prisão anteriormente impostas não se mostraram suficientes para conter a reiteração de comportamentos potencialmente lesivos”, escreveu o promotor de Justiça Pedro de Arruda Padoveze em uma manifestação da última quinta (30/7).
No dia seguinte, a juíza Luiza Torggler Silva, da 4ª Vara do Júri do Foro Central Criminal, determinou, então, a prisão preventiva de Bruno, em função dos “fatores que revelam a inegável reprovabilidade da conduta, periculosidade social do agente e o risco gerado por seu estado atual de liberdade”.
A Ponte procurou a defesa de Bruno, conduzida pelo escritório Oliveira Campanini Advogados Associados, mas ainda não obteve retorno. Se houver, a reportagem será atualizada.
Policiais ainda devem ir a júri popular por morte de estudante
Guilherme, por sua vez, ainda responde ao processo em liberdade. Conforme revelou o jornal Folha de S.Paulo, um processo administrativo disciplinar concluído pela própria Polícia Militar paulista (PMESP) recomendou a expulsão do soldado da corporação devido à conduta dele no caso.
Já na esfera judicial, tanto Guilherme quanto Bruno ainda devem ser submetidos a um julgamento popular, conforme a Justiça estadual decidiu em fevereiro deste ano. Até aqui não há a data para que ele ocorra. Os dois agentes respondem por homicídio qualificado, com as qualificadoras de motivo torpe e recurso que dificultou a defesa da vítima.
A morte de Marco Aurélio, à época com 22 anos, ocorreu em 20 de novembro de 2024, na Vila Mariana, bairro na zona sul de São Paulo. Conforme denunciou o MPSP, ele estava desarmado na ocasião e passou a ser perseguido pelos dois réus após dar um tapa no retrovisor de uma viatura policial. Ele correu para um hotel, onde, de acordo com a acusação, foi encurralado pelos dois policiais armados.
Ainda segundo o MPSP, Bruno Carvalho do Prado desferiu um chute contra o estudante, enquanto Guilherme Augusto Macedo efetuou o disparo que atingiu Marco Aurélio. Para o Ministério Público, o tiro foi uma retaliação, e não uma ação em legítima defesa, como sustentaram os policiais.
Na versão dos agentes, Marco Aurélio aparentava estar embriagado. O jovem teria resistido a uma abordagem e entrado em luta corporal. Ainda de acordo com os PMs, ele teria tentado pegar a arma de um dos policiais. Imagens das câmeras corporais dos policiais, no entanto, não registraram a suposta tentativa da vítima de subtrair a arma dos policiais, contrariando o relato inicial deles.
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Guilherme afirmou que mirou na perna da vítima, mas que o disparo atingiu a região da cintura em razão da dinâmica da ação. A dupla afirmou ter um taser — dispositivo de eletrochoque considerado de menor potencial ofensivo —, mas que não o utilizou por falta de tempo hábil ou por não haver eficácia no caso.